Uma nova educação: conectando academia, empresas, Estado e o futuro do trabalho

(Imagem: Google)
Coluna Letrados
Por: Samuel J. Messias – Me. em Educação

O mundo contemporâneo experimenta uma transformação acelerada, impulsionada pela revolução digital e inteligência artificial. Essa realidade exige uma reavaliação crítica dos modelos tradicionais de formação, que não respondem com agilidade suficiente às demandas de uma sociedade em mutação constante.

Tornou-se um desafio crítico, a desconexão entre educação acadêmica, educação empresarial e necessidades do mercado de trabalho. Para superá-lo, emerge a necessidade de uma “nova educação”: um paradigma integrado, dinâmico e contínuo, que prepare indivíduos não apenas para um emprego, mas para uma vida de aprendizado permanente.

O papel insubstituível do Estado

O Estado é o arquiteto fundamental desse novo ecossistema educacional. Consagrado no artigo 205 da Constituição Federal, o direito à educação é dever do poder público, que deve orquestrar essa transição de forma inclusiva e equitativa. A atuação estatal transcende a mera regulação: ela cria as condições para que academia e setor privado inovem colaborativamente. Isso se materializa em políticas públicas robustas, desde investimentos em infraestrutura tecnológica até formulação de diretrizes curriculares que promovam competências do século XXI.

O cenário atual revela a urgência dessa intervenção. Dados de 2023 mostram que, apenas 30,4% das escolas públicas brasileiras possuem internet adequada. O Programa Educação Conectada e investimentos bilionários em conectividade para áreas carentes são fundamentais para democratizar o acesso às ferramentas digitais. Além disso, a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para Computação, obrigatória a partir de 2026, alinha a formação básica às novas exigências do mercado.

Educação acadêmica em crise e transformação

A educação formal enfrenta uma crise de relevância. O PIRLS 2021 revelou que quatro em cada dez alunos brasileiros no 4º ano não dominam leitura básica. Este déficit é agravado pela falta de alfabetização digital funcional. O currículo tradicional, frequentemente rígido, falha em desenvolver pensamento crítico, criatividade e colaboração de forma consistente.

A modernização da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) é imperativa. As universidades devem redefinir seu papel: construir alicerces robustos, ensinando alunos a pensar criticamente e tornando-se aprendizes autônomos. A colaboração com o setor produtivo por meio de estágios, projetos baseados em desafios reais e currículos dinâmicos é essencial para alinhar a formação acadêmica às tendências do mercado.

Educação corporativa como motor de inovação

Enquanto a academia se moderniza lentamente, o setor empresarial assumiu protagonismo inédito na qualificação profissional. Reconhecendo que transformação digital é imperativo de sobrevivência, as organizações criaram ecossistemas internos de aprendizagem focados em desenvolvimento contínuo (upskilling) e requalificação (reskilling). A educação corporativa deixou de ser benefício para se tornar motor da inovação.

O Estado pode potencializar esse movimento através de incentivos fiscais para empresas que investem em formação de colaboradores e pela criação de parcerias público-privadas que fomentem sinergia entre conhecimento acadêmico e prática de mercado. Isso garante que qualificação profissional seja oportunidade acessível a todos, não privilégio de poucos.

Mercado de trabalho em transformação

A automação e IA redefinem a natureza do emprego, extinguindo algumas funções e criando carreiras. Neste cenário, a habilidade mais valiosa é a capacidade de “aprender a aprender”. Paradoxalmente, enquanto tecnologia avança, competências genuinamente humanas — criatividade, empatia, liderança e colaboração — ganham valor inestimável.

O Estado tem responsabilidade de garantir que essa transição seja justa, implementando políticas de requalificação em larga escala e programas de apoio para trabalhadores cujas funções estão em risco. As competências do século XXI — pensamento crítico, solução de problemas, criatividade e comunicação — devem ser desenvolvidas desde a educação básica.

Integração sistêmica: o caminho necessário

Superar a fragmentação atual exige construção de pontes sólidas entre Estado, academia e empresas. O indivíduo assume posição central e ativa em sua jornada educacional, com apoio de ecossistema integrado.

A tecnologia, especialmente IA, surge como aliada poderosa, com agentes que atuam como tutores personalizados.

Já o Estado, garante que essa tecnologia seja usada de forma ética e responsável, protegendo dados dos cidadãos e assegurando que inovação sirva ao propósito maior da equidade educacional.

Exemplos internacionais são reveladores. Os Tigres Asiáticos (Singapura, Coreia do Sul, Taiwan e Hong Kong) transformaram-se de nações subdesenvolvidas em centros de excelência através de investimento estatal estratégico em educação. Esse modelo demonstra que educação é o caminho mais seguro para desenvolvimento sustentável.

Futuro

A nova educação não é escolha entre rigor acadêmico e agilidade corporativa, mas fusão sinérgica entre ambos, orquestrada por um Estado visionário. O futuro pertence a modelo onde aprendizagem é fluida, personalizada e perpétua. Essa transformação é imperativa não apenas para competitividade econômica, mas para construir sociedade mais justa e equitativa.

Ao abraçar essa visão integrada, capacitaremos gerações de profissionais resilientes e inovadores, garantindo que cada cidadão tenha oportunidade de realizar seu potencial pleno. A educação, em sua nova concepção, torna-se a ponte indispensável entre potencial humano e progresso da nação. A hora de construir esse futuro é agora.

*O texto é de livre pensamento do colunista*
Samuel J. Messias – *Reside em Vitória/ES *Consultor Empresarial *MBA em Estratégia Empresarial *Bacharel em Ciências Contábeis *Me. em Educação ( Florida University- USA). (Foto: Divulgação)
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