Coluna Letrados
Por: Samuel J. Messias – Mestre em Educação
A saúde mental é um componente essencial do bem-estar geral, influenciando a forma como pensamos, sentimos e agimos em nosso dia a dia. No entanto, a conscientização sobre sua importância e a busca por ajuda ainda são tópicos cercados de estigma e desinformação. Em um mundo cada vez mais acelerado e exigente, cuidar da mente é tão vital quanto cuidar do corpo. Este artigo explora os sinais de que sua saúde mental pode precisar de atenção, como e onde buscar ajuda profissional, e estratégias de autocuidado que podem fazer a diferença.
O cenário da saúde mental no Brasil inspira atenção. Em 2025, o país registrou um recorde de mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 15% em relação ao ano anterior e o maior número em uma década. Dentre as principais causas, destacam-se os transtornos de ansiedade, com 166.489 licenças, e os episódios depressivos, que somaram 126.608 casos. Esses números alarmantes sublinham a urgência de abordar o tema de forma aberta e solidária.
Identificando os sinais de alerta
Reconhecer os sinais de que algo não vai bem é o primeiro passo para buscar ajuda. Muitas vezes, as mudanças são sutis e podem ser confundidas com cansaço ou estresse rotineiro. É crucial estar atento a alterações persistentes no comportamento, humor e bem-estar, que podem se manifestar de diversas formas.
Do ponto de vista emocional, é comum observar mudanças de humor drásticas, irritabilidade excessiva, sentimentos persistentes de tristeza, vazio ou desesperança, além de apatia e perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas. No âmbito comportamental, o isolamento social, o abandono de hobbies, a negligência com a higiene e aparência pessoal, e o desenvolvimento de comportamentos autodestrutivos, como o abuso de álcool e outras drogas ou a automutilação, são sinais importantes.
Alterações cognitivas também são frequentes, incluindo dificuldade de concentração, problemas de memória, pensamentos confusos ou desorganizados, preocupação excessiva e a presença de pensamentos recorrentes sobre morte ou suicídio. Por fim, os sinais físicos não devem ser ignorados, como alterações significativas no padrão de sono (seja insônia ou excesso de sono), mudanças no apetite que resultam em ganho ou perda de peso, fadiga constante e sem causa aparente, além de dores de cabeça e problemas digestivos recorrentes.
É importante notar que a presença de um ou mais desses sinais não configura, por si só, um diagnóstico, mas serve como um indicativo importante de que é hora de procurar apoio profissional para uma avaliação adequada .
Transtornos mentais comuns
Diversos transtornos podem afetar a saúde mental, cada um com suas características específicas. Entre os mais prevalentes estão a depressão, caracterizada por uma tristeza profunda e perda de interesse generalizado, e a ansiedade, que envolve preocupação e medo excessivos e persistentes. Outras condições incluem o transtorno bipolar, marcado por oscilações extremas de humor entre a mania e a depressão, e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), que pode se desenvolver após a vivência de um evento traumático . O diagnóstico preciso só pode ser feito por um profissional qualificado, como um psicólogo ou psiquiatra.
Como e onde buscar ajuda profissional
Buscar ajuda é um ato de coragem e o passo mais importante para a recuperação. Felizmente, existem diversas opções de suporte acessíveis no Brasil. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece uma rede de cuidados através dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que disponibilizam atendimento multiprofissional e especializado para pessoas de todas as idades em sofrimento psíquico ou com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas .
Os CAPS funcionam de portas abertas, o que significa que qualquer pessoa pode procurar o serviço espontaneamente ou ser encaminhada por outra unidade de saúde, como uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Existem diferentes modalidades de CAPS para atender a diversas necessidades:
- CAPS I, II e III: atendem pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, com complexidade crescente. O CAPS III oferece funcionamento 24 horas.
- CAPS i: especializado no atendimento de crianças e adolescentes.
- CAPS AD e AD III: focados no atendimento de pessoas com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas.
Além do SUS, existem plataformas online como o Mapa da Saúde Mental e a rede Pode Falar , que conectam pessoas a profissionais e serviços de saúde mental em todo o país, incluindo opções de atendimento gratuito ou a preços sociais.
Estratégias de autocuidado
Paralelamente ao suporte profissional, a adoção de hábitos de autocuidado é fundamental para promover e manter a saúde mental. Pequenas mudanças na rotina diária podem ter um impacto significativo no bem-estar emocional e psicológico.
“A saúde mental não se limita apenas ao que sentimos individualmente. Ela é uma rede de fatores relacionados.” – Organização Mundial da Saúde, via Ministério da Saúde
Algumas estratégias eficazes incluem:
- Praticar atividade física regularmente: exercícios liberam endorfinas, que promovem a sensação de bem-estar.
- Manter uma alimentação equilibrada: uma dieta saudável impacta diretamente o humor e a energia.
- Priorizar o sono: estabelecer uma rotina de sono regular e garantir um descanso de qualidade é crucial.
- Desenvolver hobbies e interesses: dedicar tempo a atividades prazerosas ajuda a reduzir o estresse.
- Conectar-se com outras pessoas: manter relacionamentos saudáveis e uma rede de apoio social é um fator de proteção importante.
- Praticar mindfulness e meditação: técnicas de atenção plena podem ajudar a gerenciar a ansiedade e a melhorar o foco.
Conclusão
Cuidar da saúde mental é um processo contínuo de autoconhecimento, aceitação e busca por equilíbrio. Os dados mostram que os desafios são reais e crescentes, mas também revelam que a ajuda está disponível e é eficaz. Reconhecer os sinais de alerta em si mesmo ou em alguém próximo e procurar apoio profissional não é um sinal de fraqueza, mas sim de força e autocuidado. Ao quebrar o silêncio e o estigma, abrimos caminho para uma sociedade mais saudável, empática e consciente da importância de cuidar da mente.
*O texto é de livre pensamento do colunista*




