Educação do Campo: é preciso mudar para manter viva a essência

(Imagem: Gemini - IA)
Coluna Letrados
Por: Sueli Valiato – Professora de Língua Portuguesa

Caríssimo (a) leitor (a), esta é a nossa última prosa sobre a Educação do Campo em 2025. E, parafraseando o saudoso Papa Francisco, que teve esta máxima: “É preciso mudar para manter a essência” como pilar central de seu pontificado, seja também, para nós, da Educação do Campo e da Pedagogia da Alternância, o pilar que nos situa e nos sustenta, neste momento histórico.

Para fundamentar esse pensamento de mudar para manter viva a essência, em relação aos Centros Familiares de Formação em Alternância – CEFFAs, tomo como referência a experiência dos CEFFAs Municipais de Jaguaré-ES, também denominadas de Escolas Comunitárias Rurais Municipais de Jaguaré – ECORMs, nos quais atuo desde 1995.

A necessidade de implementar mudanças na situação em que se encontra, atualmente, esses CEFFAs Municipais, é urgente para revitalizar de sua função social-libertadora, por meio da formação integral, contextualizada e a partir da realidade vivenciada pelos educandos em seus territórios.

Precisamos com urgência, constituir uma visão de reforma, adaptação das metodologias para fazermos frente aos desafios que a contemporaneidade e as “novas” tendências educacionais, que já estão em curso, para a educação brasileira, tem imprimido na prática pedagógica desses CEFFAs Municipais, para manter viva a missão e os objetivos pelos quais essas instituições de ensino foram criadas.

Os CEFFAs municipais de Jaguaré-ES são frutos das lutas empreendidas por lideranças políticas e religiosas organizadas em grupos por regiões, que sonhavam com novas possibilidades no destino do município. A discussão sobre a adoção da Pedagogia da Alternância, como proposta pedagógica, iniciou em 1985, segundo Cruz, (2004) e se referenciou nas Escolas Famílias do MEPES,

Até o ano de 1990, ano de criação da ECORM de São João Bosco e Giral, muitos jovens ao concluírem o Fundamental I, interrompiam os estudos por alguns anos até completar 14 anos, para poderem se matricular no curso supletivo da EFA de Jaguaré-ES ou do Km 41, em São Mateus-ES, ou paravam de estudar.

Essas lideranças defendiam a relevância da formação escolar com elemento crucial ao progresso do município. Desejavam que seus filhos e filhas tivessem acesso a escolarização sem se desvincularem do ambiente familiar e comunitário. Almejavam uma escola própria e apropriada aos territórios do campo. Não queriam uma escola pensada para a realidade urbana, tampouco meramente adaptada à realidade superficial rural. Eles queriam uma escola “igual” a Escola Família Agrícola de Jaguaré, porém pública, mantida pelo município.

Queriam uma escola com a subjetividade construída a partir de valores, crenças, ideologias, do sentimento de pertencimento cultuado, cultivado e transmitido por gerações, da vivência em comunidade, da espiritualidade, da solidariedade, da defesa da fauna e da flora ainda existente nos territórios, na luta pela preservação das águas, da terra e de outros bens da natureza.

E mais, queriam uma escola que também contemplasse em seu currículo a construção dos conhecimentos a partir da realidade vivida, o exercício da participação individual e coletiva, o fortalecimento da ética, do respeito, da cooperação e da excelência. Que oferecesse educação de qualidade, que respondesse as necessidades da formação escolar, pessoal, social, ambiental, visando a emancipação dos adolescentes e jovens, em vistas de um desenvolvimento socioambiental dos territórios do campo, preservando toda a sua diversidade, especificidades e riquezas.

E, para garantir essa essência, muitas vezes já fizemos mudanças na dinâmica, na rotina, nas metodologias, sempre com vasto e profundo processo de estudo, análise da realidade e discussão com o coletivo escolar: estudantes, educadores, famílias, Conselho Escolar, Assembleia Geral, Comissão Municipal, Poder Público,  para manter as ECORMs em seu propósito educacional.

Neste momento, é urgente reestruturar o PROJETO ECORMs, no município de Jaguaré-ES, para manter a sua essência, a sua missão e propósitos pedagógicos, a fim de consolidar o CEFFA de Tempo Integral em Pedagogia da Alternância.

Nesse processo de reestruturação destaco que estamos num processo incessante de questionamentos e discussão, mais acirradamente, a partir  do início do ano de 2020,  por  garantia de formação inicial para todos profissionais que atuam nos CEFFAs, por categoria, fundamentada no método e metodologias da Pedagogia da Alternância, condições para que os educadores conheçam e reconheçam o espaço, as dinâmicas dos territórios em que o CEFFA abrange com o seu trabalho;  conhecimento, identificação, valorização e alinhamento das práticas pedagógicas com  o Projeto Político Pedagógico do CEFFA; avaliação, redirecionamento das ações pedagógicas, agropecuárias e administrativas trimestralmente, usando o método auto e heteroavaliação; orientações cotidianas acerca de habilidades e competências imprescindíveis ao perfil de educador,  de estudante, família e conselheiro na Pedagogia da Alternância;  atuação dos professores pedagogos  na orientação e intermediação dos propósitos, dos princípio e do método da Pedagogia da Alternância  com a práxis pedagógica cotidiana.

Nesse contexto, é basilar a estruturação de um cronograma  para garantir  estudo coletivo semanal de 50 minutos, com temas/literaturas que capacite os educadores para o exercício de sua função no processo de formação integral e desenvolvimento socioambiental dos territórios; o fortalecimento da relações, por meio  do acolhimento e interação  com  todos que compõe o Projeto ECORM/CEFFA: estudantes, funcionários, famílias, lideranças comunitárias, visitantes, comunidades do raio de ação, fundadores e demais parceiros da formação.

Precisamos, enquanto educadores, cuidar de nossa autoformação, viver a prática da partilha dos saberes, dos conhecimentos e da co-responsabilização; incentivar e fortalecer a prática da vida de grupo e da vivência profunda de seus dispositivos; a realizar o diagnóstico sócio, econômico, ambiental e cultural das famílias dos estudantes que ingressam, anualmente; revitalizar e/ou criar novos canais de participação e envolvimento das comunidade/bairros na vida do CEFFA.

Outro aspecto importante nesse processo de estruturação é a observância do regimento em tomadas de decisões, o respeito às instâncias que compõe o sistema de gestão mista e compartilhada das ECORMs; a retomada da prática de discussões com os três conselhos; a ampliação da carga horária das disciplinas com maior número de aulas, para que todos os educadores participem-se, envolvam integralmente nas mediações pedagógicas da Pedagogia da Alternância-Formação Integral no CEFFA de Tempo Integral.

É preciso mudar para manter viva essa essência, porque educação do campo é direito, não é esmola!

E por fim, a garantia das especificidades concernentes a Educação do Campo, conforme previsto em leis, pareceres e decretos, referentes a currículo, calendário, cardápio e  refeições, método, metodologias, organização do tempo sessão escola e estadia;  a equalização entre os eixos das formação: estudo, convivência e trabalho nos diferentes tempos e espaço da formação e a criação das Diretrizes Municipais da Educação do Campo de Jaguaré-ES, atendendo a meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE) para o tempo integral, que foi ampliada na nova proposta (2024-2034) para 55% das escolas públicas e 40% dos estudantes, com provisão de apoio técnico e financeiro para que estados e municípios implementem  programas e leis para cumprirem a meta, focando na ampliação da jornada escolar e na qualidade da formação integral.

Agora, mais do que nunca, precisamos fazer com urgência as mudanças necessárias para que as ECORMs de Jaguaré-ES não percam a sua essência de Centro Familiar de Formação em Alternância – CEFFA e estrearmos uma nova fase na história da Educação do Campo e na trajetória da Pedagogia da Alternância: O CEFFA de Tempo Integral. Inspirando-nos no que fizeram as lideranças políticas, dos movimentos sociais, das Igrejas Católicas e Luteranas, quando criaram o Projeto das Escolas Comunitárias Municipais de Jaguaré-ES.

E aqui agradeço a essas lideranças que contribuíram na construção desse projeto de educação tão inovador, tão a frente do tempo. Destaco e parabenizo o Senhor José Antônio Valiato, meu pai, que como muitos desse grupo, que criaram esse projeto de educação, nunca teve o direito de sentar-se num banco de uma escola como estudante.

*O texto é de livre pensamento da colunista*
Sueli Valiato – *Reside em Jaguaré *Graduada em Letras – Licenciatura Plena em Língua Portuguesa e Literatura de Língua Portuguesa, pela UFES; *Pós-graduada em Educação do Campo pela FANORTE; professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental II, no CEFFA de Japira, em Jaguaré-ES, integrante da Coordenação Geral e da Coordenação de Plano de Curso da RACEFFAES. / Foto: Divulgação.
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