Coluna Letrados
Por: Samuel J. Messias – Me. em Educação
O século XXI impôs à sociedade um ritmo de transformação sem precedentes, catalisado pela revolução digital e pela onipresença da informação. Nesse cenário, o modelo educacional brasileiro, em grande parte herdado de uma era em que o conhecimento era um recurso escasso e centralizado, revela-se cada vez mais inadequado.
A premissa de que a educação consiste na transmissão de um corpo fixo de conhecimentos do professor para o aluno tornou-se obsoleta. Hoje, o desafio não é mais o acesso à informação, mas a capacidade de navegá-la, criticá-la, sintetizá-la e, acima de tudo, utilizá-la para a resolução de problemas complexos.
Este artigo defende a necessidade urgente de uma mudança de paradigma na educação brasileira: a transição da Era da Informação para a Era do “Eu” como gestor da própria mente. Argumenta-se que o foco deve se deslocar do conteúdo para o desenvolvimento de competências metacognitivas e de autogestão, capacitando o estudante a ser o arquiteto de seu próprio processo de aprendizagem.
O paradigma exaurido da Era da Informação
O sistema educacional tradicional foi concebido para um mundo que não existe mais. Sua estrutura, pautada na memorização e na repetição, visava preparar indivíduos para um mercado de trabalho industrial, onde a conformidade e a execução de tarefas padronizadas eram valorizadas.
Como aponta a análise histórica da educação brasileira, mesmo com avanços legislativos como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996, a prática em sala de aula ainda reflete, em muitos casos, um modelo conteudista e passivo .
A educação brasileira, apesar de possuir uma legislação avançada, ainda apresenta um desempenho modesto em indicadores internacionais, com desafios persistentes como o analfabetismo funcional, a evasão escolar e a distorção idade-série. Isso sugere que as reformas estruturais não foram suficientes para alterar a cultura pedagógica fundamental
Neste modelo tradicional, o professor atua como o detentor do saber, e o aluno, como um receptáculo passivo. A abundância de informações disponível na internet transformou essa dinâmica em um anacronismo. O problema se inverteu: de um cenário de escassez de informação, passamos para um de excesso.
Manter um paradigma focado na simples transmissão de dados não apenas é ineficiente, como também contraproducente, pois falha em equipar os estudantes com as ferramentas necessárias para discernir, analisar e aplicar o vasto conhecimento ao seu alcance. A consequência é uma formação que privilegia o “saber o quê” em detrimento do “saber como” e, mais importante, do “saber por quê”.
A emergência da Era do “Eu” como gestor da mente
A proposta de uma educação para a Era do “Eu” como gestor da mente parte de uma premissa fundamental: o objetivo central da educação deve ser o de ensinar o aluno a aprender. Isso implica em desenvolver a capacidade de metacognição, ou seja, a consciência e o controle sobre os próprios processos de pensamento.
Em vez de apenas absorver fatos, o estudante aprende a planejar sua aprendizagem, monitorar sua compreensão, avaliar suas estratégias e ajustar seu comportamento cognitivo conforme necessário. Essa abordagem é fortemente embasada pelos avanços da neurociência aplicada à educação, ou neurodidática.
Estudos demonstram que a aprendizagem é significativamente potencializada quando envolve emoção, curiosidade e atenção . O cérebro não é um depósito estático, mas um órgão dinâmico que se modifica constantemente através da experiência — um fenômeno conhecido como neuroplasticidade. Portanto, um ambiente de aprendizagem que estimula a participação ativa, a experimentação e a resolução de problemas cria conexões neurais mais robustas e duradouras.
Transformação do papel dos atores educacionais
Implementar este novo paradigma significa cultivar a autogestão e a autorregulação. O novo modelo contrasta significativamente com o anterior em diversos aspectos fundamentais:
O aluno deixa de ser um receptor passivo e se torna um protagonista ativo e autônomo, responsável por sua própria jornada de aprendizagem. Aprende a gerenciar seu tempo, a lidar com a frustração, a perseverar diante de desafios e a colaborar com os colegas.
O professor deixa de ser um transmissor de informação para se tornar um mediador, curador e mentor, facilitando o processo de descoberta e orientando o desenvolvimento de habilidades metacognitivas.
As habilidades valorizadas evoluem da simples memorização para a metacognição e autorregulação, permitindo que o estudante compreenda seus próprios processos de aprendizagem.
Os recursos pedagógicos transitam de livros didáticos e conteúdo expositivo para projetos, problemas reais e colaboração, criando contextos significativos para a aprendizagem.
A avaliação muda de métodos quantitativos, como provas e testes, para processos formativos e processuais, como portfólios e autoavaliação.
A importância da criatividade e inspiração
Habilidades como pensamento crítico, criatividade, comunicação e colaboração — os chamados “4 Cs” das competências do século XXI — deixam de ser um adendo curricular para se tornarem o cerne do processo pedagógico.
O estudante se torna responsável por sua jornada, entendendo que o conhecimento não é algo que se recebe, mas algo que se constrói ativamente. Nesse sentido, Augusto Cury afirma que:
“Educar não é repetir palavras. É criar ideias, é encantar”
Esta citação reforça a ideia de que a educação deve transcender a simples transmissão de informação para se tornar um processo criativo e inspirador que desperta a capacidade de pensar e agir de forma autônoma. A educação, portanto, deve ser uma experiência transformadora que alimenta a curiosidade, estimula a criatividade e capacita os indivíduos a serem gestores ativos de suas próprias mentes.
Um novo contrato social para a educação
Penso que, mudar o paradigma da educação brasileira não é uma tarefa simples. Exige uma revisão profunda da formação de professores, do currículo, dos métodos de avaliação e da própria infraestrutura escolar. No entanto, a manutenção do status quo é insustentável.
Continuar a educar para a Era da Informação em plena Era da Autogestão é condenar as futuras gerações a uma defasagem crônica em relação às demandas de um mundo complexo e em constante mutação.
A transição para um modelo que capacita o “Eu” como gestor da mente é um imperativo para o desenvolvimento não apenas individual, mas coletivo. Cidadãos capazes de pensar criticamente, aprender autonomamente e se adaptar a novas realidades são a base para uma sociedade mais justa, inovadora e democrática.
O objetivo final não é apenas formar profissionais mais bem preparados, mas seres humanos mais completos, conscientes de seu potencial e capazes de dirigir suas próprias vidas de forma significativa e responsável. A mudança é desafiadora, mas essencial para que a educação brasileira possa, finalmente, cumprir sua promessa de ser um verdadeiro motor de transformação social.
*O texto é de livre pensamento do colunista*




