Economia
Por: José Salucci
A tradicional segurança da carteira assinada já não é unanimidade entre os trabalhadores brasileiros. Um movimento silencioso, mas cada vez mais perceptível, tem levado profissionais a rejeitarem oportunidades de emprego formal para investir na autonomia proporcionada pelo empreendedorismo. O fenômeno tem sido observado de perto pelo contador e especialista em planejamento tributário e financeiro, Diorge Liberato, que acompanha a mudança no perfil de seus clientes.
Segundo ele, muitos trabalhadores têm optado por atuar como Microempreendedores Individuais (MEIs) ou migrar para empresas enquadradas no Simples Nacional, priorizando qualidade de vida, flexibilidade e maior controle sobre os próprios ganhos.
“O que tenho percebido é que muita gente não quer mais voltar para o regime CLT. Esses profissionais estão preferindo abrir um MEI e trabalhar por conta própria porque valorizam a liberdade de administrar o próprio tempo e tomar decisões sobre a própria rotina”, afirma Diorge Liberato.
O especialista destaca que a autonomia tem pesado mais do que a previsibilidade oferecida pelo emprego formal. A possibilidade de negociar diretamente os valores dos serviços prestados, organizar os horários de trabalho e conciliar compromissos pessoais são alguns dos fatores apontados por quem faz essa escolha.
“Tenho clientes que rejeitaram propostas de emprego com salários próximos de R$ 10 mil porque preferiram manter seus negócios. Eles começaram como MEI, cresceram, migraram para o Simples Nacional e hoje enxergam mais vantagens em empreender do que em retornar à carteira assinada”, revela.
Autonomia e gestão do tempo
O consultor empresarial Samuel J. Messias, que também atua como professor e sócio da Gnosis Consultoria e Projetos, avalia essa mudança de comportamento no mercado.
“A CLT, embora tenha sido criada para proteger o trabalhador e garantir seus direitos, hoje acaba limitando-o, visto que, nos dias atuais, o profissional está mais interessado em ter autonomia. E essa autonomia perpassa pela liberdade de gerir seu próprio tempo e prospectar um maior ganho financeiro”, opina Messias.
Da estabilidade ao próprio negócio
Quem vivenciou essa transição na prática foi o empreendedor Voldinei Foscarini, de 32 anos. Ele trabalhou durante 12 anos sob o regime da CLT, iniciando sua trajetória aos 18 e encerrando o ciclo no emprego formal aos 30 anos. Com sólida experiência na área metalmecânica, onde atuou como soldador, caldeireiro, serralheiro e, nos últimos anos, como encarregado de metalúrgica, ele decidiu dar um passo de coragem aos 31 anos para abrir as portas da Foscarini Construções Metálicas.
Hoje, com um ano e meio de mercado, ele relembra o que motivou sua decisão de empreender:
“A vontade de empreender vinha crescendo nos últimos anos, quando comecei a perceber que eu era a peça fundamental na obra. Eu comandava a equipe e atuava em todas as áreas do ramo. Já tinha aprendido o suficiente e sabia que poderia negociar direto com os empresários. Todo o esforço que eu fazia no trabalho, cumprindo horários rígidos seis dias por semana e dando o meu melhor, esbarrava em um teto salarial fixo. Por mais que eu me esforçasse, o valor a receber já estava estabelecido. Recebia muitos elogios sobre minha competência, mas o nome que ficava na obra era o da empresa, e não o meu”, conta Foscarini.
Diante da mudança de carreira, os impactos positivos logo refletiram em sua rotina e na vida pessoal.
“Hoje posso fazer meu próprio salário, em comparação com a jornada CLT, negociando direto com os donos das obras e empresários, administrando meus ganhos e estabelecendo metas. Também tenho flexibilidade de horários, o que me permite conciliar o trabalho com compromissos pessoais. Minha qualidade de vida melhorou e tenho mais tempo para a família. Além disso, sou reconhecido diretamente pelos trabalhos entregues, o que me ajuda a conquistar novos clientes”, comemora.
Propósito, flexibilidade e liberdade
Embora a CLT continue oferecendo benefícios importantes, como FGTS e garantias trabalhistas, Diorge explica que muitos empreendedores avaliam que a contribuição previdenciária realizada pelo MEI permite a manutenção do direito à aposentadoria, ao mesmo tempo em que proporciona maior liberdade financeira.
“Para esse público, o que pesa é a sensação de independência. Eles não querem deixar recursos imobilizados e preferem ter autonomia para administrar seus ganhos e decidir os rumos da própria carreira”, acrescenta.
O cenário reflete uma transformação nas relações de trabalho e aponta para uma nova mentalidade profissional, na qual propósito, flexibilidade e liberdade têm se tornado tão relevantes quanto a estabilidade tradicional.


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