A mentalidade colaborativa de Kamila Carvalho, idealizadora do projeto EmpoderaEla

Idealizadora do “EmpoderaEla” e gerente de marketing do Shopping Vila Velha, Kamila comanda a iniciativa que transforma áreas nobres do shopping em vitrines de aceleração para negócios sociais. O projeto da Allos já impactou mais de mil mulheres pelo Brasil, unindo inovação comercial e fortalecimento da renda feminina. (Foto: Yuri Braian/Comunicação)
Entrevista
Por: José Salucci – Jornalista

O empreendedorismo feminino é um dos principais motores da economia real, impulsionando a renda de famílias e movimentando o mercado local. No entanto, o acesso a espaços comerciais de alta visibilidade e a validação de produtos no varejo tradicional ainda representam gargalos significativos para pequenos negócios.

Para equilibrar essa transição, o projeto EmpoderaEla surge como um modelo de aceleração e conexão comercial que converte áreas estratégicas em shoppings em vitrines colaborativas de impacto social.

Merkato entrevistou, diretamente da loja do projeto EmpoderaEla, no Shopping Vila Velha, Kamila Carvalho, publicitária de 38 anos, natural de Campos dos Goytacazes (RJ), com especialização na área e 15 anos de trajetória no grupo ALLOS – maior administradora de shopping centers do país.

Idealizadora do projeto em 2019, quando atuava no interior fluminense, em dias atuais Kamila lidera a gestão de marketing do Shopping Vila Velha e analisa como o engajamento de mercado, parcerias com entidades como o Sebrae e a articulação com o Terceiro Setor têm transformado a maturidade de negócios liderados por mulheres.

1 – Kamila, como nasceu o projeto EmpoderaEla e qual é a proposta central desse modelo dentro do ecossistema do varejo?

O EmpoderaEla é um projeto da ALLOS, que nasceu em 2019 a partir de uma provocação sobre o Dia Internacional da Mulher. Queríamos ir além de uma data comemorativa e pautar a independência e a saúde financeira das mulheres sob um viés social e econômico. A moeda mais valiosa de um shopping center é a locação diária do espaço físico. Entendemos que ceder esse espaço para pequenas empreendedoras permitiria a elas venderem seus produtos e vivenciarem, na prática, a rotina do varejo em um grande centro comercial. A proposta central é proporcionar essa validação de mercado, agregando valor tanto para quem expõe quanto para o shopping.

2 – Qual foi o ponto de partida do projeto e como ocorreu a validação do modelo para que ele se expandisse nacionalmente?

Eu idealizei a proposta em 2019 no Boulevard Shopping Campos, no interior do Rio de Janeiro, onde atuava no marketing. O projeto provou sua relevância e tração, o que permitiu sua expansão para a capital fluminense e, em seguida, para a rede corporativa da holding. Hoje, o EmpoderaEla é uma diretriz nacional da ALLOS, estando presente em mais de 50 shoppings espalhados por todas as regiões do Brasil.

O Instituto Conectados com Educação e Ação Social (ICEAS) confeccionava bonecas pretas e coloridas para levar a crianças em tratamento contra o câncer no Hospital Infantil. (Foto: Yuri Braian/Comunicação)
3 – Qual é o perfil das empreendedoras que ocupam a loja e como funciona a curadoria e a capacitação dessas participantes?

Fazemos uma curadoria com busca ativa em redes sociais e indicações locais. Buscamos mulheres que muitas vezes só atuavam no ambiente digital ou informal e que não tinham experiência com ponto físico.

Além do espaço de venda, o projeto prevê a capacitação em parceria com instituições como o Sebrae, oferecendo aulas de gestão, precificação e profissionalização para preparar essas mulheres para os desafios do mercado.

4 – A edição do Shopping Vila Velha trouxe uma integração com o Terceiro Setor. De que forma o projeto articula essas parcerias locais?

Embora o direcionamento venha da holding, cada shopping tem autonomia para conectar o projeto à demanda da sua cidade.

Em Vila Velha, recebemos a demanda de instituições sociais por meio da liderança local e estruturamos a loja colaborativa integrada ao Terceiro Setor. Em outras praças, como no Rio de Janeiro, também já atuamos com ONGs focadas em mães empreendedoras. O objetivo é adaptar o projeto para onde o impacto social for mais necessário.

Da esquerda para a direita: Armicinha Leone, fundadora e presidente do Instituto Conectados com Educação e Ação Social (ICEAS); ao centro, Kamila Carvalho; e ao seu lado, Verônica, Presidente do Instituto Oportunidade Brasil (IOB), que foi a ponte para trazer a colaboração das ONGs capixabas para a loja Empodera Ela. (Foto: Yuri Braian/Comunicação)
5 – Qual é o diferencial estratégico que permitiu ao projeto ganhar tração e se manter contínuo ao longo de sete anos?

O fator humano e o engajamento com a causa são determinantes. Quando um projeto nasce com propósito claro e encontra pessoas dispostas a fazer dar certo, ele ganha tração natural. Obviamente acompanhamos os indicadores – mais de mil mulheres já passaram pela iniciativa desde 2019. Sendo que, várias seguiram para lojas definitivas ou modelos colaborativos permanentes. Mas o catalisador é a disposição de gerar uma transformação real na vida e no negócio dessas mulheres.

6 – Como funciona a estrutura de funcionamento da loja e qual o ritmo de operação exigido das participantes?

Trabalhamos com ciclos intensos de 30 dias de operação, podendo haver prorrogação conforme a viabilidade comercial do ponto.

As empreendedoras vivenciam a rotina integral do shopping, funcionando das 10h às 22h. É um desafio operacional grande, pois muitas conciliam a gestão do negócio com tarefas familiares e domésticas, mas é justamente essa imersão que proporciona a maturidade comercial e a experiência com o consumidor final.

Produtos expostos na loja – Instituto Oportunidade Brasil (IOB). (Foto: Yuri Braian/Comunicação)
7- Na sua visão, qual é a importância da participação masculina para o fortalecimento e sustentabilidade desses negócios?

Os homens são aliados estratégicos. Promovemos rodas de conversa que contam com a participação masculina, e o retorno é muito positivo. Quando o homem se dispõe a escutar e entender que as jornadas de trabalho feminina e masculina são atravessadas por realidades sociais diferentes (como a sobrecarga do cuidado familiar), ele passa a atuar como parceiro de desenvolvimento. Compreender esses dados e dinâmicas é fundamental para criar um ambiente de negócios mais justo.

8 – Qual o retorno que a marca e o Shopping Vila Velha buscam ao consolidar iniciativas de impacto como o EmpoderaEla?

O Shopping Vila Velha é um empreendimento dominante e de grande relevância na região. Um shopping desse porte precisa devolver valor à comunidade. O EmpoderaEla constrói pontes com a sociedade, mostrando ao morador canela-verde que este é um espaço de diálogo com todas as comunidades, além de servir como inspirador para futuras gerações de mulheres empreendedoras.

Produto exposto na loja – Livro desenvolvido pelos alunos do Instituto Oportunidade Brasil (IOB) – 3ª edição -, com relatos de resistência.. (Foto: Yuri Braian/Comunicação)
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