Entrevista
Por: José Salucci – Jornalista
O Jornal Merkato traz nesta edição uma entrevista de perfil com a atleta, empreendedora social e colunista de histórias inspiradoras, Karla Oliveira. Em uma trajetória marcada por superação e propósito, Karla divide sua rotina entre a maternidade, os negócios, os treinos de alto rendimento e o ativismo social.
Nesta conversa exclusiva, ela compartilha os bastidores de sua união de duas décadas com o atleta Oliveira, o salto vitorioso para as competições internacionais de jiu-jítsu — onde já acumula 13 medalhas e 2 cinturões —, e sua frente de atuação no projeto “Papo de Mulher”, da Associação de Intervenção Familiar do Espirito Santo (Interfami), levando técnicas de defesa pessoal e resgate da autoestima para a comunidade.
1 – Karla, vocês celebraram 20 anos de casamento competindo juntos no Rio Spring International Open 2026. Como é dividir a rotina, os desafios e a paixão pelo jiu-jítsu com o Oliveira ao longo de duas décadas?
Completamos 20 anos de casamento de uma forma muito especial: viajando e competindo juntos. Foi uma experiência inédita para mim, inclusive por conhecer um lugar fora do meu estado por meio do esporte. Competimos simultaneamente, em áreas diferentes, e tivemos a oportunidade de viver essa conquista lado a lado. Nós dois subimos ao pódio e medalhamos nesse campeonato de grande referência. O jiu-jítsu faz parte da nossa história. Nossa rotina é intensa, mas transformou-nos como pessoas porque existe uma parceria muito grande. Costumo dizer que casal que treina junto, cresce junto!

2 – O tatame exige resiliência e respeito mútuo, elementos que também sustentam um casamento duradouro. De que maneira os valores da luta fortaleceram a relação de vocês?
Nosso casamento também foi construído enfrentando desafios. Viemos de histórias familiares com algumas ausências e, ao longo desses 20 anos, passamos por dificuldades e momentos em que pensamos em desistir. Com o tempo, aprendemos que uma relação exige escolha diária, respeito, diálogo, perdão e parceria. 20 anos não são vinte dias; foi preciso muita persistência e o querer um do outro para estarmos juntos hoje. Nosso primeiro filho foi nossa primeira virada de chave, e depois veio o jiu-jítsu. Dentro da academia, Oliveira é meu mestre e eu sou sua aluna. Existe respeito por esse papel, assim como admiração pela pessoa que ele se tornou e pelo profissional incrível que é.
3 – Iniciando sua trajetória competitiva em 2025, você já acumula 13 medalhas e 2 cinturões. Como o esporte transformou a sua identidade pessoal?
Minha trajetória começou em 2025 e, com apenas 15 dias de treino, participei da minha primeira competição, conquistando duas medalhas no Sul-Americano. Até o Rio Spring 2026, eu mantinha uma trajetória invicta; lá, conquistei meu primeiro vice-campeonato enfrentando atletas de nível internacional. Mas minha maior conquista foi pessoal. Antes do jiu-jítsu, eu era uma mulher tímida, insegura e sem muita perspectiva sobre mim mesma. Hoje sou mais confiante, corajosa e resiliente. O esporte não criou uma nova Karla: revelou uma força que já existia dentro de mim.
4 – Conciliar trabalho, maternidade, vida a dois e treinos de alto rendimento exige muito. Qual é o maior desafio dessa rotina?
É um grande desafio. Nossa rotina envolve trabalho, maternidade, casa, o cuidado com nosso filho Noah, de 3 anos, e Gabriel, de 15, além da preparação física e projetos sociais.
Eu e o Oliveira nos organizamos e nos revezamos para dar conta de tudo. Fácil não é, mas tem dado certo! Há dias em que mal consigo parar para almoçar ou descansar, mas temos um propósito que nos mantém firmes. Sabemos que nossa experiência no esporte pode alcançar outras mulheres; não se trata apenas de medalhas, mas de usar o esporte para transformar vidas e trabalhar com o que faz sentido para nós.
5 – Você está à frente de ações de defesa pessoal e conscientização no projeto “Papo de Mulher”, da Interfami. O que motivou essa iniciativa?
Minha participação nasceu do desejo de compartilhar aquilo que o esporte transformou em mim. Há um ano, desenvolvemos esse trabalho de forma orgânica em instituições públicas e privadas, levando às mulheres orientações, técnicas de proteção e incentivo ao autocuidado. Eu já estive em um lugar de insegurança e fragilidade e sei como é importante encontrar acolhimento e direcionamento. Por isso, quero que outras mulheres tenham acesso a ferramentas que fortaleçam sua confiança e ajudem a reconhecer a própria força.

6 – Vivenciamos índices alarmantes de violência contra a mulher. De que maneira o esporte e projetos como o da Interfami atuam como ferramentas de prevenção e resgate da autoestima?
Infelizmente, a maior pandemia que vivemos é a violência contra a mulher. A defesa pessoal vai muito além de aprender técnicas de luta; envolve consciência, prevenção, autocuidado e preparo para reconhecer situações de risco. O jiu-jítsu ajuda a mulher a desenvolver segurança e a entender que ela não precisa se sentir indefesa. Além disso, ações como o ‘Papo de Mulher’ criam espaços de acolhimento e troca. Nosso objetivo é fazer com que mais mulheres reconheçam seu valor e se sintam preparadas para cuidar de si mesmas.
7 – Para encerrar: que mensagem você deixa para as mulheres que desejam começar no jiu-jítsu, seja pela busca de qualidade de vida, seja pela segurança da defesa pessoal?
Não esperem se sentir fortes, confiantes ou preparadas para começar. Muitas vezes, é justamente no esporte que vocês vão descobrir essas qualidades. Eu comecei com inseguranças, medos e sem imaginar onde chegaria. Aos 40 anos, posso dizer que o jiu-jítsu transformou minha vida. Não importa a idade ou o condicionamento físico: cada mulher tem seu tempo, o importante é dar o primeiro passo. E deixo uma frase que levo comigo: é melhor saber e não precisar usar do que precisar e não saber.
Quero deixar minha marca no esporte, mas, acima de tudo, quero que minha trajetória gere impacto social. Essa causa é uma responsabilidade de todos nós.



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