Coluna Letrados
Por: Samuel J. Messias – Me. em Educação
A crise da linearidade e o despertar do pensamento crítico
Nossa educação, em grande parte, ainda opera sob um modelo linear. Ela bombardeia o cérebro dos alunos com dados, exigindo que os absorvam e reproduzam. O resultado desse processo arcaico é a formação em massa de repetidores de informações, indivíduos que passaram anos sentados em carteiras enfileiradas, mas que, diante de um problema real da vida, encontram-se perdidos. Qualquer computador, por mais medíocre que seja, armazena e recita mais dados do que a memória humana é capaz de reter. Por isso, em um mundo saturado de informação, apenas as exceções , aqueles que conseguem conectar pontos, questionar o status quo e criar soluções ,tornam-se verdadeiros pensadores. É exatamente nessa lacuna que o Brasil falha de forma alarmante.
Quando olhamos para os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), o cenário brasileiro é, no mínimo, preocupante. Nas últimas edições, o país oscilou entre as últimas posições do ranking global. Em 2022, o Brasil ficou na 65ª posição em matemática e leitura entre os países participantes, com notas muito abaixo da média da OCDE. Mais recentemente, ao ser avaliado em criatividade no PISA 2024, o Brasil ocupou a 44ª posição entre 56 nações . Esses números não são apenas estatísticas frias; são o reflexo de um sistema que prioriza a memorização em detrimento da capacidade de resolver problemas complexos e pensar de forma criativa.
Para reverter esse quadro e tirar o Brasil da lama educacional em que se encontra, não basta mudar o currículo ou aumentar a carga horária. É preciso uma mudança de paradigma. É necessário transitar de um modelo bancário, onde o professor deposita conhecimento e o aluno o armazena passivamente, para um modelo dialógico e ativo.
A desconstrução do modelo bancário
Paulo Freire, um dos mais importantes educadores e filósofos do século XX, já denunciava, décadas atrás, o que chamava de “educação bancária”. Em sua obra seminal, Pedagogia do Oprimido, Freire argumenta que esse modelo aliena o estudante, tratando-o como um objeto passivo.
“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor. […] A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. As pessoas transformam o mundo.” — Paulo Freire.
A crítica freiriana é mais atual do que nunca. Enquanto o mundo avança, nossas escolas ainda punem o erro e padronizam o sucesso. O PISA avalia exatamente o oposto: a capacidade do aluno de aplicar o conhecimento em situações inéditas, de inferir, argumentar e interpretar o mundo ao seu redor. Como podemos esperar que estudantes brasileiros tenham bom desempenho em uma prova que exige pensamento crítico quando o dia a dia na sala de aula lhes exige apenas obediência e memorização?
O novo paradigma: metodologias ativas e pensamento complexo
A saída para o Brasil no PISA passa obrigatoriamente pela adoção de metodologias ativas e pela valorização do pensamento complexo. Edgar Morin, o grande filósofo francês, propõe que a educação deve romper com a fragmentação dos saberes. Ele defende que a escola deve ensinar a condição humana e a complexidade do mundo, ligando os conhecimentos em vez de isolá-los .
“O verdadeiro papel da educação deveria ser o de mostrar as correlações entre os saberes, a complexidade da vida e dos problemas que hoje existem.” — Edgar Morin.
As metodologias ativas surgem como um novo paradigma capaz de revolucionar o ensino básico. Elas colocam o aluno no centro do processo de aprendizagem. Em vez de passivamente ouvir palestras, os estudantes são desafiados a resolver problemas reais, participar de debates, realizar projetos práticos e aprender pela experimentação. Esse modelo desenvolve exatamente as competências avaliadas pelo PISA: resolução de problemas, colaboração e pensamento crítico.
No entanto, a transição para esse novo modelo esbarra em uma visão antiga de eficiência. Como alertou Sir Ken Robinson em sua histórica palestra no TED, “As escolas matam a criatividade?”. Ele argumenta que o atual sistema educacional foi desenhado na era industrial para produzir trabalhadores padronizados.
“Se você não estiver preparado para errar, nunca criará nada original. E o resultado é que estamos educando as pessoas para serem menos criativas.” — Sir Ken Robinson.
Para o Brasil subir no ranking do PISA, precisamos parar de tratar a educação como uma linha de montagem. Devemos permitir que os alunos errem, discutam e encontrem soluções criativas. A prova internacional não quer saber quem decorou a fórmula matemática, mas quem consegue usá-la para entender um fenômeno do mundo real.
A avaliação como ferramenta de formação, não de punição
Outro pilar fundamental dessa transformação é a forma como avaliamos os estudantes. Cipriano Carlos Luckesi, importante educador brasileiro, defende que a avaliação deve ser um instrumento de diagnóstico e formação integral, e não de punição e exclusão . A nota baixa no PISA não deve servir apenas para culpar o sistema, mas para diagnosticar onde a formação integral está falhando.
A educação integral não significa apenas tempo integral na escola, mas a formação do indivíduo em todas as suas dimensões: cognitiva, emocional e social. Quando os alunos desenvolvem inteligência emocional e resiliência, tornam-se mais aptos a enfrentar os desafios de provas como o PISA, que exigem não apenas conhecimento técnico, mas maturidade para lidar com problemas complexos sob pressão.
O resultado do PISA 2024, que avaliou a criatividade, foi um choque de realidade: o Brasil ocupa a 44ª posição. Isso mostra que, além de melhorar o ensino de matemática e leitura, precisamos urgentemente fomentar a capacidade criativa de nossos jovens.
A proposta educacional que tirará o Brasil dessa posição não será uma receita mágica de decoreba. Será a proposta de uma escola viva, onde o diálogo substitui o monólogo do professor, onde a investigação substitui a repetição e onde o erro é visto como parte do aprendizado. Como propõe John Dewey, um dos pais da pedagogia moderna:
“A educação não é preparação para a vida; a educação é a própria vida.” — John Dewey.
Enquanto tratarmos a escola apenas como um local de preparação para o mercado de trabalho ou para os próximos exames, continuaremos formando repetidores de informações. Quando começarmos a tratá-la como o próprio espaço de vida, de investigação e de construção de cidadania, o Brasil não apenas subirá no PISA, mas formará cidadãos verdadeiramente preparados para os desafios do século XXI. A mudança de paradigma é urgente, necessária e inegociável,logo,cabe aos gestores avaliarem os indicadores de resultados não somente pensando nos repasses do FUNDEB,e sim, numa educação qualitativa que promova o desenvolvimento integral dos alunos e da educação como um todo.
*O texto é de livre pensamento do colunista*



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