Muito além dos R$ 283 mil no Domingão do Huck: o prêmio de Verônica Lopes é incluir jovens periféricos

(Imagem: Divulgação)
Entrevista
Por: José Salucci – Jornalista

Merkato entrevistou um fenômeno feminino de prestígio profissional e de espírito altruísta. Mãe de José e filha de uma família que sempre valorizou a educação e a independência, ela transformou os desafios de sua própria trajetória em compromisso social.

Estamos falando de Verônica Lopes de Jesus, diretora-presidente e cofundadora do Instituto Oportunidade Brasil (IOB), organização dedicada à inclusão produtiva de jovens negros em situação de vulnerabilidade socioeconômica, por meio de formação profissional, mentoria e acesso ao mercado de trabalho.

A carioca, radicada no Espírito Santo, iniciou sua trajetória profissional aos 16 anos, como atendente do McDonald’s. Durante os 15 anos em que permaneceu na empresa, assumiu funções de treinamento, coordenação e gestão, além de realizar uma formação internacional na Hamburger University, em Chicago. Posteriormente, construiu uma sólida carreira executiva, chegando à direção de uma empresa voltada à melhoria da qualidade de vida das classes C, D e E.

Toda essa bagagem pôde ser conhecida em rede nacional na última semana de julho, quando Verônica e o IOB participaram do The Wall, no programa Domingão do Huck. Faturando o prêmio de R$ 283 mil, o recurso arrecadado pela instituição ampliará o nível de escolaridade e a qualificação profissional no Instituto. Seus programas de educação já formaram mais de 150 jovens, com 70% deles inseridos no mercado de trabalho. Ações da OSC, que também atua junto à comunidade e empresas, já impactaram cerca de 5 mil pessoas, direta e indiretamente na Grande Vitória.

Diante de uma conquista recente, o trabalho social continua a todo o vapor. Nesta quarta-feira (19), acontece o “4º Fórum IOB”, evento beneficente, que discutirá a redução das desigualdades de raça na educação, no trabalho e na tecnologia. Para tal desenvolvimento do assunto, o Fórum contará com a presença do escritor e doutor em Administração, Helio Santos, um dos maiores nomes do movimento negro do Brasil.

Acompanhe a entrevista para conhecer um pouco mais sobre Verônica, o IOB e do que acontece no Terceiro Setor em solo capixaba.

1 – Verônica, a sua atuação no Instituto Oportunidade Brasil é reflexo direto da sua história. Quem é a Verônica antes de se tornar uma liderança social na Grande Vitória e quais foram as principais lutas que moldaram a sua visão de mundo?

Sou administradora de formação, fiz MBA em Marketing, pós-graduação em Políticas Públicas e Projetos Sociais e mestrado em Administração Estratégica. Durante muitos anos atuei no setor privado, especialmente em gestão, e foi, ali, que aprendi muito sobre planejamento, estratégia e execução.

Mas, paralelamente à carreira, sempre me incomodou perceber que talento nunca foi distribuído pela renda, pela cor da pele ou pelo CEP onde a pessoa nasce. O que sempre foi distribuído de forma desigual foram as oportunidades.

Minha trajetória foi construída entre desafios, muito estudo e trabalho. Como mulher, também vivi situações em que precisei provar minha competência mais de uma vez. Essas experiências fortaleceram minha convicção de que ninguém deveria precisar lutar tanto apenas para ter acesso às mesmas oportunidades.

Foi essa inquietação que me trouxe para o Terceiro Setor. Hoje, toda a experiência que acumulei na gestão e no mundo corporativo faz sentido porque está a serviço de um propósito: construir caminhos para que outros jovens tenham oportunidades que muitas vezes lhes foram negadas.

“Acreditamos que uma oportunidade pode mudar tudo e queremos contribuir para transformar a realidade da população negra periférica por meio da educação e do trabalho”, destaca a diretora-presidente e cofundadora do IOB, Verônica Lopes de Jesus.  . (Foto: Arquivo Pessoal)
2 – O IOB já impactou um número expressivo de pessoas e inseriu dezenas de jovens negros e periféricos no mercado de trabalho. O que motivou você a criar o Instituto e de que forma a educação se tornou a principal ferramenta de transformação de realidades do IOB?

O Instituto Oportunidade Brasil nasceu da certeza de que inclusão não acontece apenas pelo discurso. Ela precisa ser construída com oportunidades concretas.

Ao longo da minha trajetória, percebi que milhares de jovens negros, periféricos e estudantes da escola pública tinham talento, vontade de aprender e potencial, mas não conseguiam acessar as oportunidades que o mercado oferece.

Foi aí que entendemos que a educação seria nossa principal ferramenta de transformação. Não apenas uma educação técnica, mas uma formação completa, que desenvolve competências profissionais, habilidades socioemocionais, pertencimento e autoestima.

Quando um jovem aprende programação, marketing digital ou outra profissão e conquista seu primeiro emprego, ele muda sua própria trajetória. E isso impacta sua família, sua comunidade e inspira outros jovens a acreditarem que eles também podem chegar lá.

3 – Para além dos números expressivos — como os 70% de alunos formados que entram no mercado —, o que o trabalho do IOB representa hoje no dia a dia dessas comunidades e no diálogo com empresas parceiras?

Os números são importantes porque mostram que nosso trabalho funciona, mas o que realmente nos emociona é a transformação que acontece dentro de cada jovem.

É muito bonito quando percebemos que eles passam a confiar mais em si mesmos. Muitos chegam ao IOB acreditando que determinadas profissões não são para eles. A maioria dos nossos alunos, por exemplo, nunca teve um computador em casa. E, de repente, eles se veem programadores, desenvolvedores, profissionais da tecnologia.

Essa mudança de olhar sobre si mesmos é talvez o maior resultado do nosso trabalho. A autoestima cresce, a confiança aumenta e eles passam a enxergar possibilidades que antes pareciam impossíveis.

E essa transformação não fica apenas com quem participa diretamente do programa. Ela inspira irmãos, amigos, vizinhos e outros jovens da comunidade. Muitas vezes, um único aluno abre caminho para que vários outros também acreditem que podem estudar, se qualificar e construir um futuro diferente.

Ao mesmo tempo, as empresas parceiras também vivem uma transformação. Elas percebem que diversidade não é apenas uma pauta social, mas uma estratégia que gera inovação, talentos e resultados.

4 – Agora vamos falar sobre a participação do IOB no Domingão do Huck. Como foi o momento em que a ficha caiu de que vocês estariam em rede nacional e qual foi a sensação de levar a equipe do IOB para as gravações em São Paulo?

Foi surreal. Existem sonhos que nós construímos e trabalhamos para realizá-los. Mas existem acontecimentos que nem passam pela nossa imaginação. Participar do Domingão do Huck era exatamente isso.

Quando recebemos o primeiro contato, achei que fosse um trote. Depois, conforme tudo foi acontecendo, a ficha demorou muito para cair. Acho que só quando já estávamos viajando, chegando aos estúdios, acreditamos que aquilo realmente estava acontecendo.

E viver isso ao lado do nosso aluno Maylon foi ainda mais especial. Foi a primeira viagem de avião dele. Então não era só o sonho do Instituto acontecendo; era também um sonho sendo realizado na vida de um dos nossos alunos. Foi um daqueles momentos que ficam para sempre na memória.

Ao longo da carreira, a educação, a representatividade racial e a ampliação de oportunidades tornaram-se os principais eixos de sua atuação. (Foto: Arquivo Pessoal)
5 – O The Wall é conhecido pela tensão constante e pelo risco de se perder tudo a qualquer momento. Como foi lidar com o “frio na barriga”, o medo do placar zerar e a pressão das perguntas de conhecimentos gerais durante o jogo?

Foi uma montanha-russa de emoções. Cada pergunta que aparecia aumentava a ansiedade. Eu ficava tentando imaginar se o Luiz saberia a resposta, se valia a pena apostar alto ou não. O medo de confiar, apostar e depois descobrir que a resposta estava errada era enorme.

E, ao mesmo tempo, ainda tinha toda a expectativa pelas bolas caindo no painel. Você torce para elas caírem nas casas de maior valor, mas sabe que pode acontecer exatamente o contrário como aconteceu várias vezes no programa.

É emoção em cima de emoção. Você praticamente não consegue relaxar em nenhum momento do programa.

6 – Quando o prêmio final de R$ 283 mil se confirmou, qual foi o primeiro pensamento que passou pela sua cabeça? O que esse resultado representa para a história do Instituto Oportunidade Brasil?

Meu primeiro pensamento foi: agora vamos conseguir fazer muito mais.

No Terceiro Setor, aprendemos a ser “realistas esperançosos”. Sonhamos grande, mas sabemos que todos os dias precisamos encontrar recursos para manter o trabalho funcionando. Nem nos nossos melhores sonhos imaginávamos receber um valor como esse para fortalecer o Instituto.

Esse recurso representa a possibilidade de contratar mais profissionais, fortalecer nossa equipe e tirar do papel projetos que estavam esperando apenas uma oportunidade para acontecer. É muito mais do que um prêmio. É investimento direto na continuidade da nossa missão.

7 – Esse prêmio garante um fôlego financeiro importante, além de colocar a OSC em evidência no Brasil. Quais são os próximos passos do IOB e como esse recurso será investido para ampliar os projetos de inclusão de jovens?

Sem dúvida, esse recurso representa um importante fôlego financeiro para o Instituto. Além disso, a visibilidade que tivemos tem sido incrível. Ainda estamos respondendo mensagens de pessoas que querem ser voluntárias, apoiar nossos projetos ou contribuir de alguma forma.

Nosso principal objetivo agora é dar um passo que já vínhamos planejando: criar nossa primeira turma técnica própria em Desenvolvimento de Sistemas.

Neste ano tivemos cinco alunos que concluíram o curso técnico em uma turma compartilhada com o SENAI, e todos terminaram o programa já empregados. Isso nos mostrou que estamos no caminho certo.

Agora queremos formar uma turma própria, com cerca de 25 jovens, em um programa de dois anos, oferecendo formação técnica, inglês, mentoria, preparação emocional para o mercado de trabalho…

Mais do que investir o recurso recebido, queremos aproveitar essa visibilidade para mobilizar novos parceiros e captar mais investimentos e ampliar cada vez mais o número de jovens atendidos.

Em 5 anos de atuação, o Instituto Oportunidade Brasil (IOB) já conquistou reconhecimentos importantes no Terceiro Setor; e o apoio de mais de 30 parceiros e de 100 voluntários. Para citar apenas alguns eles, pelo segundo ano consecutivo (2024 e 2025), o instituto está entre as 100 Melhores ONGs do Brasil, uma das premiações mais tradicionais da área, no país.
Facebook
WhatsApp
Telegram
Telegram
Shopping Basket