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25 de fevereiro de 2024

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“A capoeira é mágica”

O Me. Garrinchinha leciona aulas de capoeira na APAE em Vila Velha. / Foto: Divulgação.

Invista no Jornal Merkato! – Pix: 47.964.551/0001-39.


A série “Capoeira Capixaba: relatos e vivências” entrevistou o menino de São Cristóvão e bambino de Treviso. Bertilom Meira, 40, nasceu em Vitória, em 1982, ano que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo pela Itália, por 3 a 2. O recém-nascido, filho de dona Luzia, ainda nem fazia ideia, que um dia, o seu caminho iria se cruzar com a squadra-azzurra.

Desde garoto, Bertilom sonhava em ser jogador de futebol. Até passou por um projeto do esporte em sua comunidade. Quando jovem, foi à Itália fazer um teste pra entrar em um time da 3ª divisão, o ragazzo passou. Mas o que existia dentro dele, já predestinado, não era jogo de futebol, era jogo de capoeira.

Na infância, recebeu um chamamento do berimbau, uma coisa mágica. Aos 10 anos de idade, ouviu o som do berimbau à caminho do treino de futebol. Diante de uma escadaria, o garoto começou a ouvir o som do berimbau. Foi uma convocação. O menino foi subindo as escadas, como se tivesse ouvindo um chamado, sabe?… O coração do garoto foi batendo forte… Àquele som do berimbau encantava a alma do Beto e arrepiava seu corpo. De degrau em degrau, assim como é na vida da gente, ele subiu e se deparou com a roda de capoeira.

Estou falando do Mestre Garrinchinha, nome de batismo na capoeira, o capoeirista com personalidade italiana, que há 30 anos dissemina a cultura brasileira pelo Grupo Senzala, sua referência no mundo capoeirístico.

Garrinchinha, além da Itália, cultivou a capoeira em outros países como a Dinamarca, a Eslovênia, Hungria, Sérvia e Croácia. Entra na roda, leitor! Conheça uma história mágica de um capoeira.

1 – Seja bem-vindo, Me. Garrinchinha! Se apresente à roda dessa entrevista.

Me chamo Bertilom Meira, tenho 40 anos de idade. Sou esposo da Lucileia Reis e pai do Iago. Sou católico, frequento a missa todos os domingos. Eu venho de uma família de 9 irmãos. Minha relação com os meus irmãos sempre foi excelente. Eu nasci e fui criado na comunidade de São Cristóvão, em Vitória, um bairro que eu curti muito. Só tinha pessoas do bem. Tanto que meu projeto ‘Arte Mãe’ é de lá. Gosto muito de ir pra lá. E gostaria de falar do legado que minha mãe deixou. Ela é minha referência. Ela é uma pessoa muito correta. Eu procuro me espelhar nela.

2 – Mestre, na infância você ingressou na capoeira. Mas parece que não foi bem uma escolha, e sim um chamado, uma convocação, né? Me conta essa história de você ter ouvido o som do berimbau, como se fosse um anjo tocando a trombeta, te chamando para uma missão.

Exatamente. Cheguei até me arrepiar com a pergunta. Quando eu passava pra ir ao campo de futebol do Barreiro, o Centro Comunitário ficava à esquerda, e você tinha que passar em frente dele. E todo dia que eu passava, ali, eu escutava o berimbau e me arrepiava. Mas como as pessoas falavam mal da capoeira, eu sempre me esquivava daquele momento. Até que um certo dia, saindo do futebol, eu ouvi o som do berimbau… Eu fui subindo a escada do centro comunitário e aquele som me chamando… Tipo… seguindo o som do berimbau… Quando eu terminei de subir a escada, me deparei com a imagem da capoeira: Foi paixão à primeira vista.

3 – Como foi o seu desenvolvimento na capoeira a partir desse chamamento?

Eu entrei em um projeto da Ação Global. O projeto durou dois anos, ali na minha comunidade. Meu mestre era o Luiz Paulo, do Grupo Senzala. Nesse tempo, eu entendi o que era disciplina. O mestre cobrava o respeito pelos pais e os estudos.

Quando esse projeto acabou, o Me. Luiz Paulo foi dar aula no Hotel Aruan, em Camburi, e me levou; eu ganhei uma bolsa, porque tinha me destacado no projeto. Eu tinha 12 anos. Tinha uns quatro meninos mais adultos que me levavam de bicicleta.

À época, muita coisa mudou. As pessoas eram adultas, formadas em algum curso superior. Todo mundo com profissão, bem de vida. Era outro mundo pra mim, também foi um aprendizado. Foi um momento bom… Fiquei uns 3 anos treinando lá.

Garrinchinha coordena seu projeto social de capoeira ‘Arte Mãe’, em São Cristóvão – Vitória, comunidade onde nasceu, e lá aprendeu os primeiros fundamentos da capoeira. / Foto: Divulgação.

4 – Qual era a sua relação com o Grupo Senzala? O que você gostou do grupo?

O Grupo Senzala é uma referência pra mim. A capoeira é o que é hoje graças ao Grupo Senzala. Ele foi criado em 1963. O Senzala só tinha cara fera na capoeira. Eu vi umas pessoas jogando capoeira, que pra mim era os meus ídolos. Eu não queria sair daquele mundo. Me chamava atenção a didática, o ensino, a musicalidade, a união que o grupo tinha. As pessoas saíam lá do Rio de Janeiro pra fortalecer o evento do mestre.

E… quando o Me. Luiz Paulo saiu do Senzala, chegou no outro dia com outro símbolo, eu saí de lá e fui para o Clube dos Oficiais treinar com o Me. Rodrigo, que hoje tá na Austrália e continua sendo meu mestre.

Treinei até pegar a corda cinza, que é a terceira graduação, já podia ministrar aula de capoeira. Só mudei de mestre e continuei no Senzala.

5 – Garrinchinha, vamos falar um pouco da vida de um mestre na capoeira. Como formar um mestre na capoeira e qual seria sua responsabilidade?

Eu me formei mestre têm dois meses. Ser um verdadeiro mestre de capoeira leva muito tempo. E quem vai reconhecer que você é mestre, é a comunidade da capoeira. Pra ser um mestre de capoeira você tem que ter vários quesitos: ser uma pessoa responsável, uma referência para as outras pessoas. Hoje em dia forma mestre toda hora, mas antigamente não era assim.

A gente volta nos antigos… Era a comunidade que dava o título de mestre. Às vezes o capoeirista nem tinha corda, mas a comunidade já o chamava de mestre e hoje tá se perdendo muito isso… As pessoas não valorizam os fundamentos da capoeira, não valorizam a história da capoeira. Tem pessoas que não sabem nada de capoeira e viram mestre.

Eu ouço capoeiristas de outros grupos falarem que eu sou uma referência, isso é bacana porque mostra que estou respeitando os meus ancestrais, que tanto fizeram por nós na capoeira.

6 – Do Brasil para a Itália. Como foi essa história de ter ido à Itália para jogar futebol e a mágica da capoeira ter te chamado de volta a sua missão?

Meu irmão morava na Itália. Um dia ele me ligou e falou se eu não queria ir fazer um teste em um clube de futebol, eu tinha 18 anos. Fiz um vídeo de demonstração, mandei pra lá, ele mostrou para o treinador e mandaram me chamar. Cheguei na cidade de Treviso. Fiz o teste e passei, isso em 2000. Como era um time da 3ª divisão, a galerinha que jogava no sub 18, já tinha um salário. Eu comecei a treinar, porém não tinha o documento italiano. Eu vi que tava começando a ficar meio pesado financeiramente pro meu irmão. Eu decidi lagar o futebol… Meu irmão arrumou um emprego pra mim numa empresa de construção civil.

Depois de um mês, eu fui numa discoteca e conheci um brasileiro, que dava aula de capoeira. Fui visitar a academia dele. Cheguei lá, o cara não sabia nada de capoeira! Não sabia nem tocar um berimbau. Então eu cheguei ali tocando um berimbau… Já sabia dar aula… Os alunos dele ficaram apaixonados, ainda não tinham visto a capoeira de verdade. Aí comecei dar aula junto com ele. Só que, ele só foi na primeira semana, nas outras três ele não foi mais. Só apareceu no dia de receber o dinheiro da academia.

Na hora de receber ele me deu 10% e ficou com 90%. Aí eu fui embora… Meu irmão tava comigo e falou pros italianos que eu tava indo embora e que não ia voltar mais. Os italianos ficaram desesperados, era uns 20.

O professor disse que eles tinham que escolher entre mim e ele. Os italianos me escolheram como professor deles (risos).

Nesse tempo, fiquei 10 anos dando aula de capoeira na Itália. E dali pra frente, nunca mais parei de dar aula… Fazia show de capoeira na Itália toda e trabalhando na construção civil, das 7 da manhã às seis da tarde, e à noite dava aula e fazia show.

7 – Nesse tempo na Itália, o que fortaleceu sua vida?

Eu sempre agradeço ter ido morar na Itália. Eu nunca tinha trabalhado no Brasil. Na Itália foi outra educação pra mim. Lá as pessoas são muito corretas em tudo que elas fazem. Uma coisa que eu aprendi lá e levo pra vida é de ser uma pessoa correta no meu trabalho, ser pontual, ter responsabilidade, dar o seu máximo quando for fazer alguma coisa, isso eu aprendi lá, uma experiência pra vida toda.

Grupo de alunos que o Me. Garrinchinha formou na Itália. / Foto: Divulgação.

8 – Você foi pra Itália por causa do futebol e a capoeira te chamou novamente. Isso é destino, mestre? Isso foi o chamado do berimbau que você recebeu quando subiu as escadarias do Centro Comunitário de São Cristóvão? Até a esposa veio como mágica, conta isso.

Eu conheci minha esposa na Itália. Ela é de Vila Velha e eu de Vitória e nos conhecemos lá. Ela já tinha um filho e foi matriculá-lo na academia que eu dava aula.

Eu sempre falo que a capoeira é mágica. Eu fui conhecendo muita gente na Itália através da capoeira… A capoeira me fez andar de

limusine, fazer show na Piazza San Marco de Veneza, Praça São Marco. Cheguei de lancha nesse lugar. Eu não sei viver sem a capoeira. Eu durmo pensando nela, acordo pensando nela. É uma coisa muito louca, não consigo nem explicar. A capoeira é mágica… Eu ganhava 2 mil euros… eu já rejeitei trabalho pra ganhar 6 mil euros, porque eu ia ter que parar com a capoeira. Eu fiquei 1 ano com dois alunos na Itália. Os caras falavam que eu era doido! Eu fiquei, ali, até a academia encher de novo. A academia encheu… Vim embora pro Brasil e deixei um aluno lá muito bom dando sequência no trabalho… Uma vez no ano eu vou lá nessa conexão Brasil/Itália.

9 – Mestre, a capoeira te deu tudo na vida: esposa, filho, trabalho, cultura, um novo idioma, educação, o que mais alcançar na capoeira depois disso tudo?

Capoeira é meu pai, minha mãe, é tudo, brother! Cara, eu sempre falo que eu quero ser um capoeirista de carreira. Eu não quero ser aquele capoeirista que vai ficar velhinho dentro da academia ensinando só para os meus alunos. Eu quero ser aquele mestre que viaja o mundo. Que as pessoas chamam pra dar aula. E eu tô trilhando o meu caminho e tá dando certo. Eu sou muito dedicado. As pessoas falam que eu sou muito eufórico, que treino demais, isso eu aprendi na Itália. Um capoeirista de sangue italiano.

10 Qual o seu projeto de futuro na capoeira?

Eu quero ser referência, eu quero é viajar muito, aprender muito, ter muito conhecimento e passar isso adiante, tentar formar bons alunos e cidadãos e ajudar muito essas crianças dentro da comunidade, esse é o meu objetivo. E como mestre, penso em três fundamentos: compromisso, formar bons cidadãos e que a capoeira traga bons frutos.

Evento ´O pulo do peixe’. “A motivação desse evento é receber capoeiristas de todos os estados e do mundo pra tá divulgando as manifestações culturais da capoeira e também graduar os alunos do Grupo Senzala”, disse o Me. Garrinchinha. / Foto: Divulgação.


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