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24 de fevereiro de 2024

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Invista no Jornal Merkato! – Pix: 47.964.551/0001-39. Coluna Criativos Por Prof. Samuel J. Messias – Gerente de Projetos Especiais na ADERES e Consultor Independente. Os empreendedores do plástico são

A pedagoga da capoeira

Alessandra dos Santos, Mestra em Capoeira e Pedagoga em escolas e projetos sociais. / Foto: Divulgação.

A série “Capoeira Capixaba: relatos e vivências” conversou com uma mulher, que o livro de Provérbios, no capítulo 31, versículo 10 e 11, a expressa muito bem: “Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis. O coração do seu marido está nela confiado; assim ele não necessitará de despojo”.

Alessandra dos Santos, uma pessoa amável, carinhosa, companheira, extrovertida, que não gosta de injustiça, é muito coração e capoeirista de alma. Nasceu em Vila Velha, no dia 03 de julho de 1981. No mesmo ano, morreu na Bahia um dos principais mestres de Capoeira da história, o Me. Pastinha.

Em agosto de 2022, Alessandra se tornou Mestra em capoeira, atualmente são 28 anos dedicados ao mundo da capoeiragem. Com estatura de 1,51, (m) ela é chamada na capoeira de Mestra Baixinha. Cheia de graça e vida, a menina de 42 anos de idade iniciou na prática da capoeira em 1995, com o professor Baianinho, aluno do Mestre Capixaba, que à época pertenciam ao grupo Abadá Capoeira. Atualmente integra o grupo A.C.A.P.O.E.I.R.A, do Mestre Capixaba, o qual ela muito admira.

O trabalho maravilhoso que a Mestra Baixinha realiza há 24 anos como professora de capoeira atravessa fronteiras. O fenômeno percorre o Brasil a fora, e tem destaque em competições desde o início de sua carreira: 1° Lugar nos Jogos Universitários do Espírito Santo (JUNES), Vitória/ES, em 2003. Bicampeã Brasileira de Capoeira (2011/ES – 2012/BA). Também conquistou o 1°Lugar na categoria feminina do II Encontro Internacional e I Jogos Abertos da A.C.A.P.O.E.I.R.A. Itaúnas/ES, em 2010. Além de destaque como melhor corda azul do campeonato – II Encontro das Américas de Capoeira, disputado em Brasília/DF, em 2000.

A lista de títulos, participações em eventos, ministrações em workshop é extensa. Também vale ressaltar a participação dessa pedagoga da capoeira na Suíça. Em 2016 a Revista L’AGACHE-N 333 – Grimisuat – Suíça, publicou um registro de seu  trabalho, aqui, no Brasil. A Ma. Baixinha também ministrou capoeira na Alemanha, no México e na Suécia. Já na Bélgica, foi participar do evento “Vadea Mundo”, organizado pelo Grupo Ginga Mundo; ela é reverenciada por onde passa.

Ah, sem contar nos projetos sociais que ela já lecionou e ainda leciona. É formada em Educação Física e Pedagogia e por aí vai… Vamos direto para a entrevista, essa Baixinha é muito grande! Entra na roda, leitor!

Mestra Baixinha ministrando aula na Associação Reame. O trabalho é realizado desde 2001. Ao todo, mais de 5 mil alunos já foram atendidos pela mestra. / Foto: Divulgação.

1 – Seja bem-vinda, Mestra Baixinha! É uma honra te receber no Merkato. Me fale um pouco de você. Suas paixões, gostos, sua infância e aquilo que seus pais deixaram de legado para sua formação.

Me chamo Alessandra dos Santos, tenho 42 anos de idade, sou cristã. As coisas que mais gosto de curtir na vida é estar com meu companheiro, Cláudio Marcio, o professor Márcio Paulista, como é conhecido na capoeira. Gosto de estar entre amigos, estar na capoeira e viajar. Minhas paixões é minha família, a capoeira, meus alunos…

E… Não tenho filhos, mas a capoeira me deu filhos do coração que me chamam de mãe. Eu moro em Cariacica, em Santa Bárbara, mas nasci em Vila Velha. Sou filha de Sebastiana Rodrigues da Silva e de Alcides de Santos; os dois estão vivos… Me ensinaram a ser honesta, humilde, responsável, respeitosa, solidária… A maior herança que eles me proporcionaram, que nenhum dinheiro compra.

E algo na minha infância… Lembro da minha mãe, sempre que alguém passava vendendo livros, ela comprava pra mim, sempre me motivando a ler, a escrever. Ela sempre falava: “Eu não pude estudar como eu gostaria, mas quero que você estude e aprenda tudo o que eu não tive oportunidade”. Isso me marcou muito.

2 – Mestra, como você ingressou na capoeira?

Iniciei na capoeira em 1995, no Colégio Centro Educacional Joaquim Carvalho, em Campo Grande, Cariacica. Eu iniciei com o Me. Baianinho, hoje ele mora em Londres.

À época, ele era instrutor, era aluno do Me. Capixaba. A capoeira iniciou àquele ano na escola e todos os dias, ao sair da aula, eu ficava observando as aulas de capoeira. Minha professora de Química, a professora Kely, ela estava treinando e ficava observando que todo dia eu ficava, ali, observando as aulas.

Certo dia, ela me perguntou se eu tinha interesse de praticar a capoeira. Ela me perguntou o que me impedia de fazer as aulas, né? Aí eu falei que seria as condições financeiras. Os meus pais já eram separados… Minha mãe tinha dificuldades financeiras. Minha mãe viu meu entusiasmo… Fiquei com vergonha… A professora se comprometeu em pagar as aulas pra mim… E a partir daquele momento eu nunca mais parei de treinar. Quando eu não estava na escola, estava acompanhando meu instrutor nos projetos… nas escolas… Eu era literalmente fominha.

3 – Qual foi a formação que a capoeira proporcionou a você? E paralelo a isso, o que suas graduações em Educação Física e Pedagogia te auxiliam na formação de professora de capoeira e mestra?

A capoeira me proporcionou uma formação pessoal, social e acadêmica. Eu acredito que essas minhas graduações me proporcionaram um olhar pedagógico mais aguçado, mais reflexivo, buscando diferentes metodologias de ensino. Me mostrou o quão importante é a avaliação nesse processo de ensino aprendizagem, então eu percebo que esse olhar fez com que meu trabalho chegasse onde ele está hoje. Esse olhar pedagógico.

Mestra Baixinha jogando capoeira com a Ma. Pimentinha, em Gent- Bélgica. / Foto: Divulgação.

4 – Vamos falar um pouco sobre a mestria na capoeira. Muitos Mestres não estudaram ou não estudam outras ciências para um diálogo com a capoeira. Qual deve ser o comprometimento do Mestre (a) de capoeira em relação a outros saberes e ao próprio saber complexo que existe na capoeira?

Eu entendo que a vida de um mestre ou mestra de capoeira é uma vida dedicada à capoeira, com uma vasta experiência. Uma pessoa que possui um notório conhecimento desse ofício e devem ser verdadeiros guardiões de saberes e fazeres tradicionais, um exemplo de vida para seus discípulos. Eu acredito que o comprometimento com a capoeira tem que estar além do muro dos seus grupos. Devem permitir que seus saberes sejam disponibilizados a todos que o procurem.

Em relação se existe mestres que não estudam a capoeira, existe sim. Mas eu conheço muitos mestres que estudam e que estão em busca de novos conhecimentos. E eu estou nesse caminho, nessa busca constante.

5 – O que te formou mestra? Destaque as dificuldades que você enfrentou nesse caminho de formação.

O que me formou mestra foi a disciplina, a resiliência, persistência, humildade, responsabilidade, coragem, treinamentos, trabalho. Ter se tornado referência para outras pessoas. Ser reconhecida pela comunidade, pois mesmo antes de ser formada a mestra já havia esse reconhecimento.

Foram vários os desafios que passei até chegar aqui, principalmente, por ser mulher.

A primeira dificuldade foi o financeiro. Uma outra, foi a não aceitação do meu pai, porque pra ele capoeira era coisa pra homem, era coisa pra gente desocupada, que não tinha trabalho.

Outra dificuldade que eu tive nesse caminho foi bem no início. O trajeto que eu fazia para ir pro treino. Na escola onde eu treinava, até a minha casa, tinha falta de iluminação, muito mato… Várias vezes eu tive que correr de vários homens me seguindo e eu não podia comentar nada pra minha mãe, com medo dela não me deixar treinar.

Também teve as cirurgias… Ao longo dessa minha trajetória passei por três cirurgias… Durante à época da faculdade, outro desafio que eu tive era estar fazendo a faculdade e manter treinando e viajando, a gente não pode ficar dentro de casa, temos que conhecer outros grupos, novas histórias. E também cuidar da minha mãe, que tinha problema de saúde.

E outra dificuldade, é por ser mulher, porque a maioria são homens e aprendi a conquistar meu lugar na roda. Saber entrar e saber sair. Essas foram as minhas dificuldades.

6 – Você é professora de capoeira, não só em projetos sociais, mas também em escolas da rede pública e privada. A Lei Alcebíades Cabral, nº 11.397/2021, que reconhece a capoeira nos estabelecimentos de educação básica, públicos e privados, qual é a sua análise?

A Lei reconhece esse caráter educativo e formativo, que a capoeira proporciona aos seus praticantes. Vale salientar que esta ampliará as práticas culturais das comunidades afro-brasileira no currículo escolar e que também está previsto na Lei 10.639. Contudo, é necessário que haja um estreitamento de relações entre as instituições de ensino e a comunidade capoeirística para que juntos possamos planejar ações efetivas.

A capoeira, como ferramenta pedagógica, ela é indiscutível, porém é necessário sistematizar os conhecimentos, envolver os profissionais da área, promover a funcionalidade da legislação.

Também é necessário a discussão de quem será a responsabilidade de ministrar as aulas, os conhecimentos de capoeira dos participantes, uma vez que, muitos não possuem graduação superior, pois o fazer cultural é passado através da oralidade e dos conhecimentos dos antepassados.

Então assim, isso precisa ser levado em consideração para que a Lei não venha ser instrumento de exclusão daqueles que, justamente, batalharam para que hoje ela pudesse ser aprovada.

7 – Além de ministrar aulas em escolas você atua em projetos sociais. Você é idealizadora do “Projeto Capoeira Transformando Vidas” realizado desde 1999. Conte essa experiência marcante.

Esse meu primeiro trabalho foi na Associação da Águia Branca, que fica em Cariacica, em Vila Palestina. Nessa associação eu só podia atender os funcionários e os filhos de funcionários da empresa, só que, diariamente, durante as minhas aulas, ficavam várias crianças da comunidade, que não eram associadas, querendo entrar pra assistir as aulas e outras para praticarem, porém o clube era só para os associados.

E aí pensando uma forma de atender a todos eu mudei pra Associação de Moradores de Vila Palestina, que fica ao lado da Associação da Águia Branca. Assim, eu poderia atender tanto os associados da Águia Branca, tanto, os interessados da comunidade.

E assim eu iniciei o projeto, porque nesse novo espaço eu pude atender a todos. E até hoje esse projeto existe de forma gratuita. Através do Capoeira Transformando Vidas já têm alunos que são instrutores, professores, monitores de capoeira, então já tem aí um trabalho espalhado por toda a Grande Vitória.

Também posso dizer que foi esse projeto que me levou a conhecer outros países, outros estados para ministrar aulas. Esse projeto me deu filhos do coração. Vários jovens e adultos me chamam de mãe. Nosso vínculo vai para além de um jogo de capoeira, um vínculo familiar.

Mestra Baixinha ministrando aula na Suíça em 2016. / Foto: Divulgação.

8 – O “Capoeira Lapidando Diamantes” é outra marca do seu trabalho social, qual é o diferencial desse trabalho?

Esse projeto foi pensado um pouquinho antes da pandemia, né? Conversando com meu esposo… da importância de levarmos a capoeira a lugares de extrema vulnerabilidade social e tirar crianças e adolescentes das ruas… dar voz a eles e torná-los protagonistas… E assim fizemos… Levamos pra duas comunidades, aqui do município de Cariacica…  A diferença desse trabalho para os outros é que nesse meu esposo atua comigo… São dois grupos de capoeira atuando juntos no mesmo projeto em prol da comunidade… Eu pensei em levar o projeto para um lugar que a comunidade tivesse acesso a essa cultura.

9 – O assunto agora é competição. No ambiente da capoeira há uma polêmica que envolve discordância entre os grupos: os que são a favor da competição e os que são contra. Qual é sua visão? Como deve ser balizada uma competição de capoeira?

A capoeira é plural, né? Ela é multifacetada, portanto, reduzir a capoeira a uma única vertente, seja ela esportiva ou cultural, é limitar algo que não precisa ser limitado. Eu entendo que há espaço para todas as faces da capoeira, e que ambas podem viver em harmonia e aproveitando o melhor de cada intencionalidade.

A capoeira obteve inúmeras contribuições ao longo da história nos quesitos culturais, de luta, de arte. Enfim, e se a capoeira também é esporte, por que não à promoção de competições?

Agora, é claro, com regulamento que favoreça para além de um campeão… A formação pessoal, social, educacional de todos os participantes. Para a realização da competição eu considero necessário um planejamento específico para as faixas etárias diferentes com a promoção do respeito, da cultura, das tradições. Eu concordo com as realizações das competições, desde que feitas para promover a capoeira na sua magnitude, de maneira voluntária e não impositiva, com a responsabilidade de todos os participantes. E com regulamento bem feito, inclusive podendo abranger desafios relacionados a habilidades como tocar berimbau e demais instrumentos, a composição de cantigas, a cantoria e etc.

Inclusive, eu sou grata à competição, que graças a uma que participei, abriu as portas para minha formação acadêmica. Eu fazia faculdade e competi por essa faculdade. Ganhei. E tive bolsa de 100%. Então oportunizou minha formação acadêmica e também de outras pessoas, através dessas competições de capoeira.

           Mestra Baixinha ministrando aula para mulheres em Ulm-Alemanha, 2016. / Foto: Divulgação.

10 – Mestra Baixinha, muito obrigado por sua participação nessa série da Capoeira Capixaba. Deixe seu recado para o mundo da capoeiragem.

A capoeira é vida, é saúde, é cura, alegria, é resistência. Todos nós capoeiristas somos zeladores dessa ancestralidade a partir do momento que aceitamos a capoeira em nossas vidas com responsabilidade, com comprometimento e respeito.

Vamos oportunizar as novas gerações com essa vivência! Difundir as diversas classes sociais. Ajudar outras pessoas a terem suas vidas transformadas.

Desejo mais empatia nos relacionamentos. Vamos juntos combater o racismo! O machismo! E promover a inclusão de todos, sem exceção. Se nós unirmos uns aos outros poderemos chegar inda mais longe.

Por fim, um recadinho especial para as mulheres guerreiras da capoeira. Que permaneçam firmes, apesar de todas as lutas. Somos exemplo de força, coragem e resistência. Seguimos a missão de fomentar a capoeira com amor, responsabilidade e sabedoria, então ninguém solta a mão de ninguém. Avante, capoeiras!

Mestra Baixinha ministrando aula na obra social Cristo Rei. Atualmente, o seu aluno Maikon Bruno Castro Lamarca realiza a continuidade do trabalho. / Foto: Divulgação.


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Parceiro do Jornal Merkato: Bar tradicional do Mauro Pé de Galinha, em Valparaíso, Serra. Marca registrada do bar: petiscos, comida de boteco, cerveja gelada, karaokê famoso.

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