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28 de fevereiro de 2024

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Cachorro de papelão

Eu hoje vi aquele mendigo novamente… Aquele lembra, puxando uma caixa de papelão pelas ruas? Desta vez eu não me contive, fiquei a observá-lo, quase a segui-lo, pelas ruas do centro de Belo Horizonte. Ele andava ziguezagueando, puxando por uma corda tão ensebada quanto a sua barba e seus cabelos meio grisalhos, ou, talvez de uma cor indefinida que a sujeira cobria com abundância, uma caixa de papelão que trazia escrita na lateral rasgada uma meia palavra: Cley… Parecia ser o nome de uma marca antiga de margarina, cortado ao meio, mas poderia ser também o nome de um cachorro, se alguém quisesse adotá-lo, soaria bem! Cley, Cley, pega, pega! (Voltando para o bom português).

De vez em quando parava, sentava ao lado da caixa de papelão e a acariciava, conversava com ela assim, disfarçadamente, como se não quisesse que as pessoas o ouvissem. Depois prosseguia puxando a cordinha imunda, sendo seguido pela caixa de papelão, que, coitada, impossibilitada de fazer o contrário, nunca parava para descansar, exceto quando o andarilho o fazia.

Eu, que o observava com a minha curiosidade peculiar já tinha certeza que ele puxava um cachorro e não uma caixa, tal o cuidado que ele tinha ao atravessar a rua, sempre preocupado com a coisa ou animal – na sua consciência – que ele puxava. Parava, voltava a andar, apressava-se, andava mais devagar, tudo para que o seu “amigo” não perdesse o compasso ou fosse atropelado por um veículo preocupado em reduzir o tempo, como se fosse possível, afinal o tempo tem sempre o mesmo tamanho, só é mais curto por causa do stress nosso de todo dia.

O mendigo com suas roupas encardidas, um sobretudo preto – seria preto mesmo se não estivesse tão sujo – uma calça jeans rasgada nas pernas, com um pedaço solto que era puxado pelo seu andar, tal como sua caixa, que parecia de estimação. Sentou mais uma vez no paralelepípedo e agora sorria escancaradamente para sua caixa de papelão e o seu sorriso era diferente de suas vestes, era limpo, gostoso, esplêndido!

Depois de observá-lo tanto e de tanto andar, já que minhas pernas me pediam auxílio, resolvi parar junto ao andarilho e conversar com ele para saber o que pensava do objeto que puxava, sentei-me ao seu lado, assim, desavisadamente e disparei:

– Bom dia, Seu Moço, o que o Senhor está puxando, ai? Ele disse, com ar severo:

– Não tá vendo não, sô? É uma caixa de papelão, sim senhor!

Para falar a verdade fiquei com ares de idiota e decepcionado, aquele mendigo apesar de sujo era bastante lúcido e me respondeu com tanta veemência que me senti constrangido em imaginar que ele pudesse achar que estivesse puxando um cachorro! Levantei, me preparando para ir embora e já batia nos calcanhares quando ele me chamou de volta:

– Moço, ô moço!

Olhou para mim, colocou a mão direita próxima dos olhos e acenou para que eu chegasse mais perto, como se fosse me contar um segredo:

– Na verdade, o que estou puxando é um cachorro, só que eu não posso contar para qualquer pessoa, tenho medo que me chamem de louco! E sorriu para mim um sorriso cúmplice. Eu virei as costas e fui embora, agradecido pela sua confiança.


Jefferson Tiradentes – Escritor e poeta. / Conheça o livro do autor: “Vestígios”. 

 

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