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28 de fevereiro de 2024

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“Foi amor à primeira vista”

Pitú foi graduada à Mestra de capoeira em 2004. Ela começou a prática da capoeiragem em 1987. / Foto: Arquivo pessoal.

Invista no Jornal Merkato! – Pix: 47.964.551/0001-39.


Mistura de talento, vocação, disciplina e muita resiliência. A menina foi pra roda de capoeira escondida, porque a mãe proibia. A roda a encantou, o berimbau a chamou, os olhos brilharam, o coração bateu e nesse momento, mal ela sabia, a magia da capoeiragem tinha acabado de escolher sua futura mestra. Pronto, pode trazer a corda e batizá-la! Espera aí! Não é bem assim! Muitos foram chamados, poucos são os escolhidos, já disse um grande mestre.

Iris Regina da Conceição Lopes, 49, natural de Vitória, nasceu em 04 de maio de 1974. Curiosidades nesse ano, o Mestre Gato foi convidado pela Bahiatursa pela primeira vez para ir à São Paulo apresentar capoeira, maculelê e samba de roda.

No mesmo ano, em 5 de fevereiro, morreu em Goiânia, o Mestre Bimba, expoente da capoeira Regional e representante da cultura afro-brasileira. A morte de um mestre é nascimento para outro (a).

O ano de 1974 traz outra curiosidade. Iris tem como time de coração, o Clube de Regatas Vasco da Gama, coincidência ou não, a equipe cruzmaltina conquistou nesse ano o seu primeiro Campeonato Brasileiro, comandado pelo mestre Roberto Dinamite. Aí dá pano pra manga pra eu poder escrever meu Jornalismo Literário. Ela pode nunca ter pensado no significado do número 74 em sua vida, mas tô aqui pra dizer que ele representa: Nascimento e morte. Chegada e partida. Vocação e escolha. Título e conquista.

Sabe outra curiosidade? Ela nasceu no bairro Vasco da Gama, em Vila Velha-ES, além de ter morado em Portugal, terra do navegador Vasco da Gama. E esta entrevista foi produzida por um jornalista vascaíno. Enfim, saindo das curiosidades vamos ao que interessa.

Eu apresento a vocês a Mestra Pitú, a primeira mulher a conquistar esse título na capoeira no estado do Espírito Santo. Esse nascimento para a capoeira e título de maestria é vocação mais resultado de disciplina.

A série “Capoeira Capixaba: relatos e vivências” teve a honra, a dignidade de bater um papo de capoeiragem com a Ma. Pitú. Reconheci na entrevista, no olhar dela que, de fato, a capoeira a chamou para o ofício. Entra na roda, leitor!

1 – Olá, Mestra Pitú! Prazer em recebê-la nessa série de entrevistas. Me fala um pouco sobre você… Sua infância, sua convivência familiar e outras curiosidades.

Eu vim de uma família de classe média baixa, pais humildes. Somos uma família de sete (07) irmãs, eu sou a penúltima… Tive um irmão de criação, esse foi o oitavo, mas faleceu… Na infância eu brincava muito com os meninos, eu tive infância. Eu era a Mônica da rua, porque eu batia nos meninos (risos)… Na escola eu me envolvia com os esportes… A luta não tinha passado pela minha cabeça, até mesmo porque não tínhamos contato com essa realidade.

Mas teve o lado árduo. Meu pai era ausente, então minha mãe teve que criar sete meninas aos trancos e barrancos. Às vezes, tinha dois pães para dividir pra nós sete.

2 – Seu encontro com a capoeira foi na adolescência, conta essa história mágica e proibida para o leitor.

Entre 12 pra 13 anos eu ouvi falar da capoeira. Eu morava em um condomínio, no Ibes, no bairro Nossa Senhora da Penha. Uma vez, brincando com as crianças, vi dois meninos jogando capoeira. Até então eu não sabia o que era capoeira. Eu comecei a imitar o que eles estavam fazendo, depois eu perguntei pra eles onde que eles faziam capoeira. Me disseram que era em uma escola, onde o Me. Caio Cezar Resende era o professor de capoeira. Eu fui lá pra conhecer. Foi amor à primeira vista! Eu fui escondida da minha mãe porque eu não podia sair. Fui embora e depois voltei.

Na segunda vez que fui, no final do treino, o mestre me abordou e me perguntou se eu tinha gostado e se eu tinha o interesse de treinar. Falei que sim, mas que a minha mãe não iria pagar. Ele me disse que me daria uma bolsa. Fui pra casa feliz… Minha mãe, infelizmente… ela foi super negativa e falou que não ia deixar, porque era coisa de preto, de pobre e de vagabundo. Mas eu desobedeci. Fui treinar e também não contei a história pro mestre, com medo dele não me deixar treinar.

3 – E o desenrolar dessa história, como foi?

Nesse momento começou o desafio de ir escondida. Meu primeiro uniforme foi meu mestre quem me deu. Depois, com um tempo, eu contei pra ele a verdade, que minha mãe não queria que eu fizesse capoeira, expliquei o porquê… Ele deixou… Aí até a minha mãe achar meu uniforme e queimar e me dar uma surra daquelas.

…Eu morava no primeiro andar do prédio… Eu fugi… Uma vez eu amarrei um lençol no outro e fugi pela varanda pra poder treinar… Voltei e tomei outra surra… Quando ela viu que não tinha mais jeito, me deixou treinar.

Minha mãe, na primeira vez que ela me viu jogando capoeira, eu já tinha quatro anos de graduada como professora. Ela foi me ver no Teatro Carmélia. Foi muito bacana. Com muito custo eu convenci meu pai pra levá-la. Quando ela me viu jogando, me disse: “Se eu imaginasse o que era a capoeira, o que ela significava pra você teria te apoiado”.

“A capoeira é um corpo que tem diferentes órgãos, mas que todos eles precisam estar em sintonia para que ela funcione bem”. / Foto: Arquivo pessoal.

4 – Qual foi a formação que a capoeira proporcionou em sua vida?

Responsabilidade. Disciplina. Ter mais comprometimento. Foco… Daí ela foi abrindo um leque… A capoeira foi me moldando pra eu chegar num lugar, pra eu lidar com as coisas, lidar com o outro, saber me comportar. Pela capoeira viajei quase todos os estados do Brasil.

5 – Então vamos falar dessas viagens que você realizou. Qual foi a sua primeira viagem?

A minha primeira viagem minha mãe interrompeu, que foi São Luiz do Maranhão, que eu ia participar do meu primeiro campeonato. Eu tinha 14 anos. A delegação foi quase toda lá em casa… Precisava da autorização dela… Dessa vez não teve como fugir. A minha primeira viagem, de fato, foi à Brasília, eu tinha 15 anos. Foi ótimo. O que me levou ao campeonato foi ter sido selecionada pelo destaque de primeiro lugar na seletiva.

Nessa viagem, não participei da categoria individual. Não consegui competir porque eu tava com 200 gramas acima do peso. Pensa você correr em Brasília! Lá o clima é meio seco… e o Me. Luiz Paulo, que foi um dos treinadores, me fazia correr aqueles quarteirões, lá, pra perder peso. Mesmo assim faltaram 200 gramas… Fiquei de maiô e não consegui passar.

6 – Outras viagens que te marcaram?

Viagens que marcaram minha vida foram as que fiz para o Rio de Janeiro, Bahia… Fiz muitos eventos… Essa questão de fazer novas amizades pela capoeira é muito bacana. Eu sempre fui tarada por uma roda de capoeira. Eu sempre viajei sozinha, por conta própria.

E também teve as viagens internacionais, em 2006. Eu fui pra Portugal, Espanha, Inglaterra e Itália. Eu sempre tive um sonho em rodar o mundo jogando capoeira. Quando fui para à Europa, não foi através da capoeira, foi por questões particulares. Em Portugal, o primeiro país que cheguei, eu consegui fazer contatos, reencontrando amigos de longas datas e alguns mestres que eu fui conhecendo nos eventos de capoeira. Eles foram me convidando pra ir no evento deles… e… um deles me convidou pra ir à Itália… todo ano eu tava lá dando workshop, também na Espanha e na Inglaterra.

7 – Mestra Pitú, quando você foi morar na Europa, já tinha sido graduada como mestra aqui no Brasil. Lá atrás, quando você começou a praticar capoeira, era um sonho ser mestra ou as coisas foram acontecendo?

Eu não tinha foco em graduação, meu foco era ser boa de capoeira. A graduação só foi resultado daquilo que me dediquei. O Me. Caio já tinha deixado o diploma pronto… a corda… que a intenção dele, que me formou em Contramestra, em 1994, era me formar mestra em 95, porém foi o ano que ele veio a falecer. Parece que ele sabia o que iria acontecer. Ele dizia que eu era completa. Aos 19 anos, ele me formou Contramestra, uma responsabilidade muito grande.

Eu me destaquei muito cedo na capoeira. Porque carregar uma corda por carregar, jogar capoeira por jogar… Eu acho que tudo tem que fazer um sentido e, eu já tinha essa consciência, que pra cada graduação tinha um peso grande, não há essa consciência hoje, a graduação foi banalizada.

8 – O que te formou mestra?

Algumas pessoas já me chamavam de mestra antes deu receber a graduação. O que me formou mestra foi a disciplina, minha vontade, minha obediência, ter ficado calada quando eu fui caluniada e buscar minha associação. Depois que o Me. Caio faleceu, o Me. Bininha assumiu o Grupo Quilombo do Queimado, que era do Me. Caio. Eu fui caluniada e expulsa do grupo; montei a Associação Desportiva e Cultural Arte da Capoeira. Eu tive que crescer na marra, é como se eu fosse uma criança que tivesse os pais, ali do lado, e de repente, eu me vi sem eles e tive que enfrentar o mundo sozinha. Agora eu tenho uma família e vou ter que ensinar, educar, e ter algo de qualidade, algo que eu sempre prezei, e não quantidade.

9 – E nesse caminho de mestria, o que mais você gostaria de compartilhar?

O Me. Bininha me procurou depois de tudo. Me convidou pra ir em um evento do grupo dele… fazer uma apresentação. À época, eu tava fazendo capoeira Show – um grupo da parte do maculelê, montei uma equipe com facão, cuspir fogo e com figurino com movimentações complexas -, perguntou o que eu achava, se eu me sentia pronta para graduação, até mesmo porque eu não queria graduação. Eu disse que acabava ali… porque eu já era Contramestra e tinha sido graduada pelo meu mestre e que minha associação não ia existir mestre (a), só Contramestre (a).

Aí no dia do evento, que foi na orla da Praia de Coqueiral de Itaparica, o Me. Bininha contou toda a história que aconteceu… Ele abriu pra todo mundo que ele errou… Me pediu desculpa… Falou a respeito da graduação, mas eu quase não aceitei, mas eu estaria fazendo uma desfeita muito grande… Não é pela graduação… Existiam outros valores. E ali fui graduada a mestra.

Nunca parei de treinar e de viajar. Eu acho que o trabalho, o tempo, a maturidade, tudo isso, o Bininha foi vendo… Eu não parei. Ao invés de recuar, pelo contrário, eu avancei mais. O trabalho expandiu mais… Continuei a viajar… Busquei ser melhor do que eu já era.

Ministro aula em um espaço em Vila Velha… Eu estudei a capoeira literalmente… Estudei para buscá-la a ser uma verdadeira capoeirista… Sentei com mestres antigos…

“Jogar com homem é melhor, é mais meu estilo, acho mais desafiador. Meu jogo é muito expressivo”. / Foto: Arquivo pessoal.

10 – Mestra, você tem um título muito honroso dentro da capoeira, que te impõe muita responsabilidade. Faz um panorama do que é ser mestra e deixa uma crítica para os mestres (as) que ainda tem dificuldade de entender o propósito dessa vocação.

Vamos falar da técnica. Tem que dominar tudo. Toda a musicalidade. O berimbau gunga, médio e viola. Pra ser mestre (a) você tem que saber cantar, tocar e jogar.

Outra coisa, eu sou Regional, mas tive que aprender a jogar Angola. Pra ser mestra acho que é importante. Você tem que entender que dentro do mundo da capoeira existe a questão instrumental, musical, e a parte técnica.

E uma crítica… Nós jogamos o que o berimbau toca. Se a instrumentação não tiver de acordo, não vai fluir o jogo. Se o instrumento tiver atravessado… parece que minha movimentação fica torta. Eu conheço mestre que não sabe tocar berimbau.

11- Pitú, o preconceito do homem em relação a mulher praticar a capoeira, tem alguma história? E outra coisa, como deve ser a postura da mulher na roda de capoeira?

Ser barbie na capoeira, ser uma lady, atrapalha. Se ela não mantiver essa postura firme não vai ter aquele potencial de uma linha de frente, de força, ginga. É um conjunto. Têm muitas mulheres que são superiores aos homens na capoeira, que tem mais técnica, mas quando eles veem isso, fazem o quê? Querem oprimir, querem apertar. Jogam pra machucar. Aí muitas não aguentam a pressão. E dentre essas mulheres, eu encarei isso… fui pra dentro… não abaixei a cabeça. Eu vim pra isso. Eu meço 1,58… Tem roda que eu ia que 90% era formado por homens… Tinha uma mulher lá atrás batendo palma, aí quando eu chegava na roda os caras ficavam doido… Eu vi muitas rodas… Eu jogo de cabelo preso… se eu jogar de cabelo solto tem homem abusado que quer pegar meu cabelo. O primeiro que fez isso comigo eu quebrei o nariz dele… dei uma cabeçada de costas… ele não quis soltar meu cabelo.

12 – Pitú, que tipo de capoeirista é você e o que seria desrespeito em uma roda na capoeiragem?

Eu sou o tipo de capoeirista que quando o berimbau toca eu busco saber onde é que é, me aproximo, peço autorização. Me autorizou, eu entro. Eu não quero saber se o grupo é A se é Z, se é ‘porradeiro’, se é capoeira balé… não me importo com isso, eu sou capoeirista: o que o berimbau tocar eu jogo.

Eu treino para todas as eventualidades das rodas de capoeira, para todos os tipos de toque do berimbau: Angola, Regional, os toques atuais. A única coisa que eu nunca fiz, e que o Me. Caio me ensinou muito bem, é quando você chegar em uma roda de alguém, não chega chegando como se você fosse o dono da roda. Se identifica, procure saber quem é o responsável e peça licença pra entrar, isso eu sempre fiz até hoje.

13 – Fechando essa papoeira maravilhosa, deixa seu último recado pra toda a galera da capoeiragem.

A capoeira é maravilhosa. É minha vida particular, o ar que eu respiro, mas você tem que buscar. O sonho só é realizado quando buscamos. Eu cheguei à mestria não foi da noite pro dia… foi com muito trabalho, embora precoce, muitos poderiam dizer, mas eu levei a sério. Deixo um conselho: treinar, treinar, treinar, mas é treinar tudo. Cantar, tocar e jogar… Ir pra roda… não fica só dentro de casa. Ser mestre não é só colocar uma corda pra segurar a calça, é a responsabilidade, de realmente, você entender o peso que ela tem dentro da sociedade capoeirística. Minha corda foi suada, não foi comprada.


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