Camillo e gol de placa: Comenda Geovani Silva

Em entrevista exclusiva, Camillo Neves esmiúça a aprovação da Comenda Geovani Silva e defende a urgência de dar palanque institucional aos técnicos anônimos e atletas das periferias de Vitória. (Foto: Assessoria do parlamentar)
Entrevista
Por: José Salucci – Jornalista

Na última quarta-feira (27), a Câmara Municipal de Vitória cravou um marco histórico para o cenário esportivo e social capixaba ao aprovar, por unanimidade, a Comenda Geovani Silva.

Proposta pelo vereador Camillo Neves (PP), a honraria imortaliza o nome de um dos maiores ídolos do futebol do Espírito Santo, afastando-se do modelo tradicional dos gabinetes políticos ao propor uma verdadeira descentralização do reconhecimento institucional.  O foco é nítido: homenagear atletas, ex-atletas, “técnicos invisíveis”, e lideranças comunitárias que utilizam a prática esportiva como passaporte para a transformação social e inclusão de jovens nas periferias da Grande Vitória.

Em uma entrevista exclusiva concedida ao Merkato, o parlamentar — e idealizador do Instituto Camillo Neves — assume seu lugar de fala como agente do Terceiro Setor e do Primeiro Setor, para detalhar o engajamento político de união suprapartidária em torno do esporte, tratando a comenda como justiça histórica, além de desenhar os próximos passos práticos para combater a vulnerabilidade juvenil por meio do esporte.

1 – Vereador Camillo Neves, a aprovação da Comenda Geovani Silva, nessa quarta-feira (27), pela Câmara Municipal de Vitória representa um momento histórico para o esporte capixaba. Como nasceu a ideia de criar essa honraria e de que forma o senhor articulou o apoio político dentro da Câmara Municipal para que o projeto fosse aprovado?

A ideia da criação veio logo quando soube do falecimento do Geovani Silva. Ele deixou um legado imensurável no esporte e quem o conheceu, inclusive quando emprestou seus serviços à política, sabe o grande cidadão que ele foi.

Eu pensei muito nessa caminhada esportiva dele, até porque, pelas regras da Câmara, só podemos criar essas homenagens após o falecimento da personalidade. É algo de que eu até discordo, né? Acho que deveríamos poder homenagear as pessoas em vida. Mas os ritos da Casa existem, foram respeitados, e agora essa comenda poderá ser entregue a pessoas físicas e jurídicas que realmente fazem a diferença pelo esporte e pela inclusão social.

Quanto à articulação política, foi um processo muito natural, porque a trajetória do Geovani fala por si só. Conseguimos unir o apoio da esquerda, do centro e da direita, pois todos entenderam a relevância e a justiça dessa homenagem.

A memória do ‘Pequeno Príncipe’ virou lei e ferramenta política nas mãos do vereador Camillo Neves para oportunizar os atletas e técnicos das periferias da Grande Vitória. (Imagem: VTV News)
2 – A criação de uma comenda vai além da homenagem; ela sinaliza as prioridades de um mandato. Em análise política, como a aprovação dessa matéria fortalece a cobrança por políticas públicas mais robustas voltadas ao esporte de base e de periferia em Vitória? O que a capital ganha, politicamente e culturalmente, ao ter uma honraria com o nome do “Pequeno Príncipe”?

A criação dessa honraria sinaliza a grande prioridade do meu mandato, que é o esporte. Não tenho como desassociar minha vida pública da minha trajetória esportiva; elas estão completamente aliadas e entrelaçadas, e tenho muito orgulho disso.

Algumas propostas eu já tento trazer para o município de Vitória, como a Lei de Incentivo ao Esporte, permitindo que a municipalidade renuncie a uma parcela da captação fiscal para fortalecer os projetos esportivos nas comunidades, sejam eles voltados ao alto rendimento, à formação ou à iniciação de base.

É isso o que muda a vida das pessoas, e é para isso que estou aqui trabalhando. Trazendo a Comenda Geovani Silva, nós vamos conseguir estimular pessoas que fazem pelo esporte e que, às vezes, acham que estão invisibilizadas. Nós estamos enxergando essas pessoas!

A comenda vai, com toda a certeza, fazer os nossos olhares chegarem até esses projetos tão vitais para a nossa capital.

3 – A Comenda Geovani Silva traz um diferencial importante: a descentralização do reconhecimento, focando em quem atua nas quadras e campos das comunidades. O senhor, que é idealizador do Instituto Camillo Neves, sabe muito bem o potencial do Terceiro Setor para “técnicos e atletas invisíveis”, de que forma esse título honorífico pode dar visibilidade e atrair novos apoios para empreendedores sociais e beneficiários?

Existem muitos técnicos, muitos apoiadores e companheiros nas comunidades que vão a campo com o único intuito de dar força, de estimular a continuidade do jovem no esporte, de demonstrar que há

alguém ali que torce e acredita naquele potencial. São essas as pessoas que nós queremos para homenagear a partir de agora.

Falar sobre o Terceiro Setor é algo muito simples para mim, porque foi nele que eu realizei a maior obra e o maior gol da minha vida. Um gol de placa, né?  O Terceiro Setor chega onde o poder público não consegue chegar; alcança aquelas pessoas que, de fato, necessitam de um serviço essencial.

Hoje, no nosso instituto, nós perpassamos não apenas o esporte, mas também a saúde, com atendimento de fisioterapia, o bem-estar e o lazer. Tudo isso tendo o Terceiro Setor à frente.

Inclusive, defendo que precisamos orientar essas pessoas para que saiam da informalidade, criem seu CNPJ e transformem suas iniciativas em entidades oficiais. Essa é mais uma luta que travo aqui na Câmara, e em breve realizarei uma audiência pública para capacitar esses agentes que já trabalham por puro amor.

4 – Na prática, o que essa comenda trará de benefício real para as lideranças comunitárias e projetos sociais que hoje operam com ou sem recursos? O senhor acredita que este reconhecimento institucional pode funcionar como uma credencial para que esses projetos sejam radares de novos investimentos, emendas ou parcerias com a iniciativa privada?

Em termos financeiros imediatos, o ganho palpável direto pode não aparecer na hora, mas vejo essa pessoa saindo definitivamente da invisibilidade ao vir até o poder público para ser homenageada.

A partir desse momento, ela entra no radar e atrai os olhares dos agentes públicos para o serviço que já realiza. Isso é um passo gigantesco para estimulá-la a crescer e caminhar para a frente.

Caso o projeto seja informal, esse reconhecimento dá forças para que a liderança procure a regularização, sabendo que ela muda vidas de fato. O reconhecimento é uma mola propulsoríssima para subirmos um degrau na caminhada.

“O Terceiro Setor é onde fiz o maior gol da minha vida. Um gol de placa… porque chega onde o poder público não consegue chegar”, disse o vereador. Com 11 anos de carreira no Fut7, Neves acumulou passagens por clubes como Flamengo, Fluminense, Coritiba, entre outros. Conquistou títulos pela seleção brasileira: duas Copas América, duas Copas Intercontinentais, um Mundialito e uma Copa do Mundo. (Foto: Tribuna Online)
5 – O esporte é, historicamente, um dos principais passaportes para a inclusão social e o combate à vulnerabilidade de jovens da periferia. Qual é a relevância e o valor memorial que uma comenda com o nome de Geovani Silva — um jovem de Vitória que conquistou o mundo — tem para inspirar a nova geração de atletas e os colaboradores que os guiam?

Esta pergunta é fundamental. Eu busco sempre dialogar com os jovens para desconstruir a ideia de que o esporte serve apenas para formar atletas de sucesso absoluto. O esporte é, antes de tudo, o início da formação de caráter. Queremos entregar cidadãos formados para a escola, mais disciplinados, e preparados para o mercado de trabalho.

Mas sabemos que o tráfico e o poder paralelo estão muito próximos da nossa juventude; por isso, precisamos atuar de forma incisiva para fazer

esse contrapeso, mostrando que o caminho do bem, embora dificultoso e sem facilidades imediatas, vale muito a pena.

Então, quando inspiramos essa criançada mostrando exemplos reais de quem deu certo pelo esporte e pelo talento, como o Geovani, o meu próprio caso, ou o do vereador Bruno Malias, que também é um parlamentar eleito nesta Casa, isso entra na cabeça deles.

Tento transmitir a mensagem que os jovens nos olhem como exemplos a serem seguidos, e não apenas como ídolos distantes. O Geovani foi esse espelho: um ídolo nacional e internacional, brilhando inclusive na Itália, país onde eu também tive a oportunidade de defender a seleção de Beach Soccer.

Ele era querido por todos por seu talento, mas, acima de tudo, por sua disciplina e comportamento exemplar como atleta.

O vereador disputou a Copa do Mundo FIFA, pela seleção da Itália, em 2025. (Foto: Divulgação)
6 – Com a aprovação da Comenda, a expectativa agora se volta para a entrega das honrarias. O que já está sendo tratado para a próxima sessão solene e como a Câmara Municipal pretende examinar e aplicar os critérios técnicos e sociais para a escolha dos atletas, ex-atletas, técnicos e líderes que receberão a primeira edição da Comenda Giovani Silva?

O impacto tem sido extraordinário e estou feliz à beça com a receptividade. Para você ter uma ideia, a atual presidente da OAB, Érica, mencionou que deseja indicar um nome; e o Pierre, grande goleiro do nosso Beach Soccer, também expressou o desejo de ver esse reconhecimento acontecer.

Eu brinco que não sei se, sozinho, terei cotas de comendas suficientes para atender a tantos projetos maravilhosos que começaram a surgir. Mas a honraria está totalmente à disposição de todos os vereadores da Casa que queiram homenagear quem faz pelo esporte e pela inclusão social nas comunidades.

Tenho certeza absoluta de que essa comenda será entregue em mãos que realmente merecem.

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