Das águas à arte: a resistência da ACAOA

Sem poder exercer a pesca artesanal, comunidade de Aracruz transforma tradição em cultura, artesanato e turismo comunitário para manter viva sua história, conta a presidente Jóeci Lopes Miranda. (Imagem: Retirada da rede social da ACAOA)
Entrevista
Por: José Salucci

O portal Merkato entrevistou Jóeci Benedita dos Santos Lopes Miranda, presidente da Associação dos Cultivadores de Algas/Aquicultura da Orla de Aracruz (ACAOA). Fundada por trabalhadores que têm na pesca artesanal sua vocação, a associação busca no cultivo de algas e em atividades complementares a garantia de renda e qualidade de vida para as famílias da região.

Historicamente, o saber tradicional sustentava as comunidades de Barra do Riacho e Barra do Sahy. No entanto, essa rotina foi severamente impactada pelo desastre ambiental da Samarco, em Mariana (MG), além do avanço de grandes empreendimentos industriais e portuários. As perdas territoriais e a contaminação das águas resultaram na paralisação da atividade pesqueira local.

Diante do cenário de crise, a ACAOA encontrou no fortalecimento comunitário um novo caminho. Com o objetivo de recriar o sonho de cuidar do território e garantir a sustentabilidade financeira do grupo, a entidade passou a incorporar o viés cultural em suas ações, apostando no artesanato, no Turismo de Base Comunitária e nas manifestações culturais.

Na entrevista a seguir, Jóeci conta como a comunidade tem transformado perdas em arte e resistência.

A presidente da ACAOA, Jóeci Lopes Miranda, em evento com lideranças internacionais para tratar de políticas protetivas aos ativistas defensores do clima. O fórum aconteceu na Inglaterra, Londres, em 2022. (Foto: Divulgação)
1 – Jóeci, conte-nos sobre suas raízes. Como a pesca artesanal entrou na sua vida e qual é a memória mais marcante dos aprendizados com seus pais nas águas de Aracruz?

Nossa família sempre viveu da pesca e da agricultura. Quando criança, eu ia com meus irmãos, minha mãe e minhas tias para a água. Para mim, eram os melhores dias. Além de ajudar a direcionar os peixes para a rede, nós nos divertíamos nos banhos de rio.

2 – Sua família e outras comunidades locais ocupavam a faixa entre Barra do Riacho e Barra do Sahy há mais de 50 anos. O que significava viver do mar naquela época?

O mar, a praia, o mangue e o estuário sempre foram o nosso local de trabalho. Lembro-me dos meus pais e avós contando histórias sobre a passagem de Dom Pedro II pela região, das frutas nativas, dos coquinhos doces, das pitangas e dos ouriços assados à beira da praia. Para mim, não era apenas um lugar, mas um legado histórico de extrema importância. É muito doloroso ver esse espaço ser ocupado gradativamente por grandes indústrias.

3 – O que motivou a criação formal da ACAOA e como se deu esse processo até a consolidação da associação?

Até 2010, o território ainda garantia o sustento dos pescadores e marisqueiras. A partir dali, com a chegada do Estaleiro Jurong Aracruz (EJA), percebemos que o tráfego de navios mudaria nossa rotina para sempre. Mobilizamo-nos para exigir direitos, o que resultou na Condicionante nº 33 do licenciamento do estaleiro, criada para garantir meios de subsistência às famílias.

Com o passar dos anos e a demora nas respostas do empreendimento e dos órgãos ambientais, decidimos nos formalizar. A ACAOA nasceu oficialmente em 19 de agosto de 2014. Registramos o estatuto em 2018 e, em 2019, ingressamos com um processo judicial. Desde 2015, acumulamos prejuízos e enfrentamos o descaso dos responsáveis pelas reparações do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana.

Ateliê de artesanato que expõe peças a partir de madeira de reuso com temas da pesca artesanal. (Foto: Divulgação)
4 – Com a chegada dos grandes empreendimentos portuários na região, como a rotina dos associados foi alterada?

É impressionante como o poder do capital financeiro atropela as comunidades tradicionais. Barra do Riacho sempre foi um bairro de tradição pesqueira, mas, desde o início das instalações industriais, o setor vem sendo encurralado, perdendo espaço, identidade e modo de vida.

Além da contaminação causada pelos rejeitos da Samarco/Vale — que proibiu a pesca de Barra do Riacho a Degredo —, enfrentamos agora a ocupação da porção Sul pelo Porto Imetame. Isso retirou nosso último ponto de pesca liberado, agravando conflitos e prejuízos que se arrastam desde a década de 1980.

5 – Qual é a realidade operacional de vocês hoje no trecho entre Barra do Riacho e a comunidade quilombola de Degredo?

Vivemos em uma área com pesca expressamente proibida pelos órgãos ambientais, pela Marinha e pela Justiça, devido à contaminação dos rios, estuários e manguezal, além de toda a faixa litorânea de Aracruz. Fomos impossibilitados de exercer nossa atividade e manter nossa história. No entanto, recusamo-nos a ficar paralisados. Decidimos nos reinventar e buscar novas alternativas de renda e sustentabilidade. A partir de 2024, iniciamos projetos de artesanato, turismo de base comunitária e a produção de quadros que contam nossa história por meio da arte.

Comitiva da Associação dos Cultivadores de Algas/Aquicultura da Orla de Aracruz (ACAOA) em reunião com empresários para fins culturais. (Foto: Divulgação)
6 – Como nasceu a decisão de integrar serviços culturais e artesanais às atividades da associação?

Sentimos a necessidade de registrar e mostrar o nosso modo de vida e a nossa história em forma de arte, garantindo que a memória do território não se perca. Nossa proposta inclui a criação de roteiros turísticos, vídeos e documentários. Para isso, contamos com parcerias de pessoas engajadas no setor cultural. Queremos resgatar a cultura da pesca artesanal e mostrar que é possível ressurgir mantendo nossas raízes.

7 – Quais trabalhos artesanais e projetos culturais a ACAOA vem desenvolvendo com a comunidade?

Reaproveitamos materiais que o mar e a pesca nos fornecem, como conchas, madeiras, cordas e redes de pesca. Transformamos esses itens em quadros, suportes, peças decorativas e elementos narrativos. Também produzimos vídeos com relatos de pescadores antigos, construindo aos poucos esse novo projeto.

Participação de atividade cultural como convidado. (Imagem: Divulgação)
8 – Quantas famílias a ACAOA representa atualmente e como a associação se mantém ativa?

Somos cerca de 14 associados. Todos nativos, apaixonados por onde vivem e determinados a preservar esse legado. Mantemos uma taxa mensal simbólica de contribuição para custear os compromissos administrativos da associação. Permanecemos unidos e buscamos, na arte, uma nova fonte de renda. Além disso, seguimos representados em fóruns importantes, como o 1º ODS Nacional, onde apresentamos e aprovamos propostas e moções voltadas para a realidade da pesca artesanal.

Nosso trabalho é de sobrevivência, realizamos uma mostra cultural na sede da ACAOA no mês de julho de 2026. Produzimos o documentário “Barra do Sahy, a Pesca e a Nossa História”, com patrocínio da SUZANO, no ano de 2021, o qual está publicado no youtube. O documentário trata de relatos da história dos pescadores mais antigos da nossa orla.

E, pensando no futuro, temos um projeto de Turismo de Base Comunitária, o qual já está em participação do edital Rio Doce, porque já fazemos este trabalho há mais de 20 anos, porém era de forma voluntária, com a crise ambiental da pesca, a partir de 2022 intensificamos uma ideia econômica de trabalho.

E, por fim, em fevereiro de 2026, criamos um ateliê de artesanato que expõe peças a partir de madeira de reuso com temas da pesca artesanal.

Atividade cultural da ACAOA. (Imagem: Divulgação)
9 – Qual é a mensagem que a associação deixa sobre a força da comunidade em transformar perdas em preservação cultural e sustentabilidade?

A ACAOA nasceu da luta de famílias pesqueiras que possuem saberes e história, mas que hoje enfrentam o desemprego e a escassez de oportunidades. Queremos transformar essa realidade. Embora o cultivo sustentável de algas e a aquicultura sigam como objetivos centrais, buscamos gerar renda, dignidade e autonomia — especialmente para as mulheres do território — por meio da economia solidária, do viés cultural e da preservação ambiental.

Não estamos começando do zero: temos organização, pertencimento e pessoas prontas para trabalhar. O que buscamos agora é estruturar e ampliar essa iniciativa cultural para gerar ainda mais impacto em nossa comunidade.

Clique, aqui, e assista o documentário “Barra do Sahy, a Pesca e a Nossa História”.

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