Entrevista
Por: José Salucci – Jornalista
Natural de São Paulo, mas com raízes fincadas no interior de Pernambuco, Ronildo Galdino Guimarães traz na pele a essência do trabalho árduo e da disciplina. Eletrotécnico de profissão, foi na infância e na juventude que construiu os valores de simplicidade e respeito que hoje regem sua vida. Nessa trajetória, o destino o convidou para conhecer a capoeira em 1994, quando, aos 14 anos, assistiu a uma apresentação da arte afro-brasileira dentro de uma igreja em Embu das Artes (SP). Ali nascia a paixão que o acompanharia por toda a vida.
Sua caminhada começou no projeto social do grupo Berimbau de Prata. Mais tarde, em 1998, ao retornar a São Paulo para trabalhar, deu sequência aos treinos no grupo Águia Dourada, sob o comando do Mestre Tigre. Contudo, foi no ano de 2002 que Chapolin encontrou a sua principal casa: a tradicional Academia Cordão de Ouro, em Osasco. Sob a orientação inicial do Mestre Rubão, frequentando também as históricas rodas da matriz de Santa Cecília com o Mestre Suassuna.
Mesmo diante de severos problemas de saúde na coluna e no joelho — que o afastaram da capoeira por quase cinco anos em um período de intensa recuperação —, o capoeirista nunca desistiu. O retorno às rodas consagrou a sua persistência. A caminhada culminou no dia 20 de novembro de 2023, quando recebeu a graduação de Mestre de 1º Grau (cordão branco e verde) da Cordão de Ouro.

Hoje, além de manter sua rotina profissional fora dos treinos, Mestre Chapolin lidera um projeto social no bairro do Butantã, em São Paulo.
Com o trabalho social em plena expansão, o Mestre Chapolin já se prepara para um grande marco: no dia 28 de novembro, o Parque Chácara do Jóquei (SP) será palco do 1º Batizado e Troca de Cordão da Cordão de Ouro Butantã / Capoeira no Parque. Além de apresentações especiais dos alunos novos, a celebração contará com aulões de capoeira, maculelê e puxada de rede ministrados por mestres convidados, reunindo referências históricas da arte-luta, como o Mestre Suassuna, para saudar a renovação e a tradição nas rodas.
Quem poderá nos defender? Mestre Chapolin — conheça, nesta entrevista, um pouco mais da história e da trajetória de um herói simples e servo.
1 – Quem é o Mestre Chapolin no dia a dia e como a capoeira entrou no seu caminho?
Meu nome completo é Ronildo Galdino Guimarães, nasci em 29 de março de 1979 e sou eletrotécnico por formação. Sou casado com a Patrícia, tenho dois filhos, o Samuel, de 18 anos, a Isabele de 12. Conheci a capoeira aos 14 anos, no final de 1993, assistindo a uma apresentação de um projeto social do grupo Berimbau de Prata dentro de uma igreja em Embu das Artes (SP). Fiquei maravilhado, enchi o saco da minha mãe e comecei a treinar. Mais tarde, em 1998, passei pelo grupo Águia Dourada, do Mestre Tigre, e em 2002 entrei na Cordão de Ouro de Osasco, sob a orientação do Mestre Rubão e acompanhando as rodas da matriz na Santa Cecília com o Mestre Suassuna. Desde então, a capoeira é essencial para mim, é feito respirar: não consigo viver sem.
2 – De onde vem as suas raízes e como foi a sua infância?
Eu nasci em São Paulo, mas fui criado no interior de Pernambuco, numa cidadezinha chamada Itapetim. Meu pai viajava para São Paulo no começo do ano para trabalhar, quando o tempo não ia ser bom para a agricultura lá. Como eu era o mais velho de dois irmãos, desde muito cedo assumi a responsabilidade de cuidar das coisas junto com meus avós paternos. Vivi a minha infância no sítio: trabalhava na roça com meu avô, cuidava dos bichos, estudava com minha avó — que foi professora pioneira na região — e brincava no terreiro de cavalo de pau com os amigos.
3 – Por que o apelido “Chapolin”, vem da capoeira?
Esse apelido é bem depois que eu já treinava capoeira. Eu tinha uns 18 ou 19 anos, e o Mestre Tigre, do grupo Águia Dourada, gostava de dar apelidos aos alunos.
Um dia, depois da aula, estávamos na frente da academia zoando uns aos outros. Eu estava usando uma camisa vermelha com um raio amarelo na frente, de uma academia chamada WBA. Uma menina olhou para mim e falou: “Sai daqui que você tá parecendo o Chapolin”. A brincadeira pegou e o apelido ficou. Hoje em dia, tem gente que nem sabe o meu nome verdadeiro por causa disso.
4 – Chapolin, você sente que a capoeira mudou o rumo da sua vida?
Com certeza. A gente vive uma rotina muito corrida e estressante aqui em São Paulo. Desde o primeiro dia em que vi a capoeira, sinto aquele brilho no olho. Ela é o meu escape. Depois de um dia estressante, você vai para a academia, dá aquele treino e volta outra pessoa. Como o Mestre Suassuna sempre fala para a gente, a capoeira é a arte de fazer amigos. Quando um aluno minha volta de um evento, eu não quero saber de quantos ele ganhou, quero saber quantos amigos ele fez. A capoeira hoje é essencial para mim, é feito respirar: não consigo viver sem.

5 – Como foi o seu ingresso no Grupo Cordão de Ouro?
Eu treinava no grupo do Mestre Tigre e já ajudava a dar aulas em projetos. Quando o mestre teve problemas de visão e precisou voltar para a Bahia, os alunos não puderam dar continuidade ao grupo. Eu decidi que queria treinar em um grupo grande.
À época, gostava muito de ver o pessoal da Cordão de Ouro jogar. Minha namorada — hoje minha esposa — me indicou a academia do Mestre Rubão, em Osasco. Peguei o ônibus com meu abadá no corpo, fui para lá em 2002 e entrei para o grupo. Também treinava na matriz, na Santa Cecília, com o Mestre Kibe e pegava treino e rodas das quintas com o Mestre Suassuna para evoluir o meu jogo. Desde então, levo essa bandeira.
6 – Em que ano você se tornou Mestre e o que sentiu ao receber essa graduação?
Me tornei mestre no dia 20 de novembro de 2023. Atualmente sou Mestre de 1º Grau (cordão branco e verde) na Cordão de Ouro. O mestre fala que esse cordão significa que a gente está aprendendo a ser mestre.
Eu nunca treinei buscando graduação, meu alvo sempre foi apenas aprender e melhorar a minha movimentação. Quando recebi o cordão, com o aval dos mestres que acompanham a minha trajetória desde a primeira corda, assumi essa responsabilidade com muita humildade. Sigo aquele ditado: “Só sei que nada sei”, porque é assim que a gente mantém a mente aberta para aprender coisas novas.
7 – Na sua visão, o que é ser um Mestre de Capoeira de fato?
Para mim, a mestria vai muito além da roda, do jogo ou de tocar um berimbau bonito. O principal é o exemplo que você dá. É a humildade e o respeito por todos, desde o faxineiro até o aluno iniciante. É saber atender uma criança que pede para tirar uma foto com você num evento, pois elas são o futuro da capoeira. Não adianta jogar bonito se você não tiver humildade e respeito pelas pessoas.

8 – Como é a experiência de entender que, no topo da hierarquia, o aprendizado nunca acaba?
A grande lição é entender que você é um eterno aprendiz. Na mestria, você aprende a adaptar metodologias para cada aluno e passa a ser procurado para orientar coisas que vão além do treino físico. A magia acontece quando você ensina um aluno que não sabia nem gingar e, um belo dia, ele chega para você e mostra uma sequência própria que ele mesmo criou. Você vê a mente dele se desenvolvendo a partir do que você transmitiu. Aí entra aquela música do Mestre Saci: “Foi no balanço do meu mestre que eu vi meu movimento mais ligeiro”. Ver o crescimento do aluno é a verdadeira lição.
9 – Como surgiu a ideia do seu projeto social no Butantã?
O projeto surgiu de uma reflexão. Assisti a uma entrevista onde o convidado perguntava: “A capoeira te deu tanto, o que você está fazendo em troca por ela?”. Aquilo me marcou. Decidi que precisava deixar um legado. Como já costumo ajudar as pessoas no meu dia a dia, decidi criar o projeto social.
Ele começou em Osasco e recentemente trouxe para a Chácara do Jóquei, no Butantã, com o nome Capoeira no Parque., completando um ano neste mês de setembro. Fazemos tudo com a cara e a coragem, sem patrocínio, tirando do próprio bolso e com a ajuda dos próprios alunos, que se unem para pagar a condução ou o batizado de quem não tem condições.
É um trabalho voluntário para divulgar a capoeira e todas as suas manifestações culturais — como o maculelê, a dança afro, a puxada de rede e o samba de roda — para quem não tem condições de pagar. Fazemos tudo com a cara e a coragem, tirando do próprio bolso e com os alunos se ajudando mutuamente.

10 – Qual é o principal objetivo desse projeto social para a comunidade?
O objetivo é tirar a molecada da rua, das telas e das drogas, trazendo-os para o ambiente saudável da capoeira e abrindo a mente deles. Quero mostrar que, através da capoeira, eles podem ter horizontes, praticar uma arte e até viajar pelo mundo, como muitos amigos meus que hoje dão aula na Rússia, nos Estados Unidos e no México. Hoje temos cerca de 35 a 40 alunos matriculados. O foco é cuidar uns dos outros e mostrar que eles têm valor.

11 – Mestre, você lembra de alguma história marcante de aluno impactado pelo projeto?
Tive um aluno com transtorno do espectro autista que tinha crises severas de comportamento e se machucava na rua. Ele também estava com excesso de peso. Aos poucos, fui orientando-o a canalizar essa frustração para a capoeira: quando sentisse a crise chegando, em vez de se machucar, ele deveria ir treinar meia-lua, armada, chutar, extravasar de forma positiva. Ele perdeu mais de 30 quilos, aprendeu a controlar os picos e mudou completamente a convivência em casa. A mãe dele contou essa história chorando no nosso batizado. A capoeira salva e transforma vidas.
12 – Mestre, para concluir, deixe uma fala final sobre um lema que te guia na vida e algum conselho para os capoeiristas?
Minha frase principal é: “Eu só sei que nada sei”. Quando penso assim, mantenho a mente aberta para aprender coisas novas todos os dias. E tenho outra frase que gosto muito e deixo no meu perfil: “Quem só de capoeira sabe, nada sabe sobre a capoeira”.
Sobre conselho, pra quem quer seguir o caminho da capoeira, gigo para não terem pressa e não se preocuparem com graduação. A capoeira é uma escada. Quem pula etapas chega a professor sem saber tocar um berimbau. Sejam honestos com seus mestres e com suas academias. Se um dia precisarem mudar de caminho, saiam sempre pela porta da frente, mantendo o respeito e a gratidão.



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