Coluna Letrados
Por: Giovandre Silvatece – Roteirista
Olá, leitor(a) da coluna Letrados! Estamos nos aproximando da final da Copa do Mundo de 2026. Infelizmente, nossa seleção saiu nas oitavas-de-final, o que pode ser considerada uma saída precoce em face das conquistas que a seleção canarinho obteve nestes quase cem anos de Copa do Mundo, tendo sua primeira participação relevante na Copa da França, de 1938, quando o Brasil derrotou a Suécia por 4 a 2 na disputa pelo terceiro lugar. Devido à Segunda Guerra Mundial, as edições subsequentes não foram realizadas, que seriam as de 1942 e 1946. Mas o Cinema deu um jeito de contar a história da Copa de 1942 através do filme “A Copa esquecida” (Il Mundial Dimenticato, 2011), que, na realidade, trata-se de um falso documentário baseado num livro repleto de acontecimentos inventados pelo autor. Contudo, ainda que extra-oficialmente, houve sim a disputa pela Copa de 1942.
O futebol no cinema
O cinema e o futebol mantêm uma relação histórica desde o surgimento da sétima arte. Ao longo do tempo, filmes passaram a retratar o esporte como cenário para histórias de ficção, biografias e temas sociais, refletindo a paixão que o futebol desperta em diferentes culturas, especialmente no Brasil. Essa aproximação entre as duas manifestações culturais começou ainda no final do século XIX, quando as primeiras produções cinematográficas registravam apenas imagens do cotidiano, sem uma narrativa estruturada. Entre esses registros está a primeira filmagem conhecida de uma partida de futebol, realizada na Inglaterra, em 24 de setembro de 1898. Com apenas 51 segundos de duração, o filme mostra um estádio repleto de torcedores, jogadores vestindo calções compridos e camisas sem numeração, além de um goleiro entediado e aparentemente pouco exigido durante a partida. Embora simples, essas imagens ganharam grande valor histórico por preservarem aspectos do futebol em seus primeiros anos e demonstrarem a antiga ligação entre esporte e Cinema. Mas foi a partir do século seguinte que o Cinema retratou inúmeros eventos envolvendo a temática futebol, além de criar suas próprias histórias.
Dentre essas histórias, está o documentário “Brasil 2002 – Os bastidores do penta”, lançado em 2022, mostrando a rotina e os acontecimentos internos em torno da seleção brasileira vencedora daquela Copa do Mundo. Junta-se a este, inúmeros outros documentários que têm a Copa do Mundo como tema central da obra. Já o filme “Duelo de Campeões” (The Game of Their Lives, 2005), que tem o ator Gerard Butler no elenco principal, apresenta-se como uma obra de ficção, ainda que baseada em uma história real que deságua no duelo, ocorrido na Copa de 1950, entre a desacreditada seleção dos Estados Unidos e a poderosa Inglaterra. O jogo foi realizado no Estádio Independência e com a atuação brilhante do goleiro Frank Borghi e o gol de Joe Gaetjens, os Estados Unidos derrotaram os ingleses numa partida que foi conhecida como “O Milagre de Belo Horizonte”.
A Copa cancelada
Após a Itália sagrar-se bi-campeã e o Brasil ter conseguido o seu melhor resultado em Copas na já mencionada edição de 1938, como de praxe, a próxima Copa do Mundo estava prevista para ocorrer em 1942. Em face do sucesso das Olimpíadas realizadas na Alemanha dois anos antes, esta se candidatou para sediar a próxima Copa, entretanto, alegando que a Copa deveria voltar a ser realizada na América do Sul, tendo em vista que as duas últimas edições haviam sido disputadas na Europa, Brasil e Argentina reivindicaram o direito de sediar a Copa seguinte. Jules Rimet chegou a visitar as instalações para a Copa nos três países, sendo que, posteriormente, a Alemanha permitiu que as seleções dos países invadidos pelo seu exército atravessassem o Atlântico para disputar a Copa, mas devido ao caos instalado na Europa em face da guerra, Rimet decidiu cancelar o evento.
Apesar da Copa do Mundo de 1942 não ter sido realizada, tal fato não impediu que a sétima arte criasse algo a respeito, afinal o Cinema não consegue parar de inventar histórias.
“A Copa esquecida”
“O Filho de Butch Cassidy” (El Hijo de Butch Cassidy) é um conto escrito pelo jornalista e escritor argentino Osvaldo Soriano. A história narra uma suposta Copa do Mundo clandestina, realizada em 1942 numa região desértica da Patagônia, organizada pelo Terceiro Reich, cujo objetivo era transmitir a vitória da Alemanha nazista. O árbitro desse evento insólito é William Brett, o temido e auto-denominado filho de Butch Cassidy, que apita o jogo com uma pistola na mão, marcando lances livres, penalidades e distribuindo cartões vermelhos ao léu, dando assim a sua contribuição para as bizarrices que ocorrem nas partidas, como goeladas absurdas e viradas extraordinárias.
Baseado no conto de Soriano, os italianos Lorenzo Garzella e Filippo Macelloni produziram e dirigiram o filme “A Copa Esquecida” (Il Mundial Dimenticato, 2011), cuja essência extravagante da história original encontra-se preservada no filme. A narrativa se desenvolve a partir da recuperação de uma câmera encontrada na região, cujas gravações revelariam um campeonato esquecido pela história. Utilizando um estilo de falso documentário, a obra reúne imagens reais e simuladas, animações e entrevistas com personalidades de verdade em meio a relatos absurdos, construindo, assim, uma narrativa que confunde realidade e ficção.
Ainda em relação à Copa de 1942, existe também o livro “Copa 42 – O Simbólico Mundial Nazi-Fascista”, do jornalista e escritor Ernani Buchmann, que cria uma história baseada em dados e estatísticas, sendo assim muito mais verossímil que o fantasioso conto de Soriano.
A final de uma Copa inexistente
Como já mencionei, houve uma disputa pela Copa do Mundo de 1942, ainda que não reconhecida pela FIFA. Tudo tem início no dia 20 de abril de 1942. Em um amistoso organizado para comemorar o aniversário de Adolf Hitler, a Alemanha sofreu uma derrota inesperada por 2 a 1 para a Suíça, um revés que enfureceu o líder nazista. Posteriormente, animados com as vitórias em amistosos contra a Hungria, Bulgária e Romênia, o regime organizou um amistoso contra a Suécia, considerada a melhor seleção da Europa, no Estádio Olímpico de Berlim. A partida, vista por muitos como a “final não oficial” da Copa de 1942, reuniu cerca de 98 mil torcedores. Após ter levado o primeiro gol, a Alemanha virou o jogo, mas após levar o gol de empate ainda no primeiro tempo, na etapa final, o gol de Malte Martensson garantiu a vitória sueca por 3 a 2.
Depois da derrota, Adolf Hitler dissolveu a seleção alemã e enviou diversos jogadores para a guerra, dentre eles o atacante August Klingler, que acabou morto em combate. Anos mais tarde, Fritz Walter e Sepp Herberger liderariam a reconstrução do futebol alemão, conquistando a Copa do Mundo de 1954.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo ainda vivia os reflexos do conflito. A destruição de cidades, a falta de recursos e o esforço para reconstruir os países impediram a realização da Copa do Mundo de 1946. Diante desse contexto, a FIFA optou por cancelar o torneio, concentrando as atenções na recuperação internacional. No entanto, durante o Congresso da FIFA, realizado em julho de 1946, na cidade de Luxemburgo, o Brasil garantiu o direito de sediar a Copa de 1950.
*O texto é de livre pensamento do colunista*



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