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A voz do quilombo comunitário

Crislayne Zeferina, 31, pedagoga e educadora social.

Primeira mulher negra favelada que presidiu o Conselho Municipal de Juventude de Vitória (Conjuvi) representando a sociedade civil em 2019/2020. Atualmente, é a presidente
nacional da Nova Frente Negra Brasileira. / (Imagem capa: Divulgação).

O Jornal Merkato continua a sequência da série “Mulheres do Bem”. Na ocasião, mulheres pertencentes as comunidades do Bairro da Penha, São Benedito, Itararé, Bonfim, Consolação, Gurigica, Jaburu, Floresta e Engenharia terão suas memórias e feitos narrados, no que tange à colaboração dos seus trabalhos comunitários, resultando em transformações sociais no passado e presente do Território do Bem.

A nossa segunda entrevistada, é ativista e pedagoga social. Moradora do Bairro da Penha, Crislayne Zeferina, 31, é uma representante da sua comunidade na busca por direitos e avanços sociais. Por curiosidade, a menina nasceu no dia sete (07) de maio, em que se comemora o “Dia do Silêncio”, porém essa voz que vocês irão conhecer tem em seu coração e mente um plural de palavras, que aliás, por muito tempo já conta sua própria história e de sua ancestralidade, a partir da perspectiva periférica e com o olhar territorial.

Crislayne trabalha na Secretaria Estadual das Mulheres, na Gerência de Empreendedorismo como subgerente de Inclusão Digital e Acesso ao Mercado de Trabalho. Além de cursar Direito e ser Pós-Graduada em Pedagogia Social, a ativista pratica um esporte que se orgulha muito: o muay thai.

Confira uma parte da história dessa falante ativa comunitária, fundadora da instituição “Conexão Perifa” e cofundadora do “Coletivo Beco” e do “Fórum de Juventudes do Território do Bem” (FJTB).

1 – Crislayne Zeferiana, faça um breve relato de sua infância e adolescência; o que foi marcante para você; o que carrega consigo de bons frutos e o que foi sofrido nesse período?

A minha infância foi como de qualquer mulher negra e periférica: muitos desafios e poucas oportunidades, mas a felicidade e o sorriso estampado no rosto. Me lembro quando brincava de bolinha de gude, brincava de soltar pipa e adorava correr na pedra. Bonecas nunca foram meu forte, mas sim o futebol, a pipa e o pique-pega. Todas essas brincadeiras são minhas lembranças que me fazem sorrir até hoje. O que carrego está ligado a valorização da vida, ao afeto entre a família e o beco como lazer. Já a falta de água, é a lembrança mais triste que tenho como direito básico.

2 – Crislayne, você é uma pedagoga, educadora social, mobilizadora e articuladora comunitária, além de estudante de Direito; para onde você tem direcionado o seu futuro profissional?

Meu futuro profissional está ligado diretamente a ajuda humanitária. Eu posso fornecer às pessoas, a partir do vínculo entre estado e sociedade civil, na construção das políticas públicas para periferia, garantias de direitos.

“A chave é se aquilombar. É a importância da união entre nós negros e periféricos”. / Foto: Divulgação.

3 – Como foi seu encontro com a política no momento em que se deu conta da força de sua negritude, e o que significa essa negritude?

Negritude para nós do movimento negro é um processo identitário de reconhecimento do nosso corpo, enquanto corpo preto, corpo negro. Quando você nasce com o corpo preto e periférico e, não aceitando as desigualdades sociais, e raciais que existem, você já é um corpo que se encontra fazendo política a todo o momento. Mas foi aos 15 anos de idade que eu comecei a ajudar minha vó na Pastoral da Criança. A força da minha negritude, eu me dei conta, depois de terminar a minha primeira graduação, a Pedagogia, e depois ter entrado no movimento social .

4 – Você realiza muitas palestras sobre o fortalecimento, o empoderamento de mulheres negras periféricas. Essa sua paixão, missão e mobilização, tudo isso faz você se articular por qual motivo? Quando foi o start em sua vida a chegar a pensar: ‘Preciso de fazer alguma coisa pela minha comunidade’.

A luta pelo fim do racismo. Ela se dá através da participação social, primeiramente, e segundo, na formação de olhares críticos, pra que a gente não deixe que nossos meninos e meninas reproduzem, que infelizmente, o livro didático traz: que a Isabel, a grande princesa, é a libertadora dos escravizados. Essas pessoas precisam de entender que existiram abolicionistas, mulheres e homens pretos, que estavam lutando e forçando que essa libertação chegasse no Brasil, o último país a libertar o povo negro.

E aí, a partir de um estudo, eu comecei a ver a periferia como um novo quilombo. A verdadeira democracia só vai existir quando essa periferia conhecer, de fato, o que é uma democracia representativa, que traz elementos centrais da periferia pra dentro do orçamento e pra dentro do debate político. A partir daí, eu percebi que a gente precisava voltar e ter esse olhar pra comunidade.

5 – O termo racismo estrutural, cunhado pelo professor e filósofo Silvio Luiz de Almeida, atual ministro dos Direitos Humanos, trouxe uma nova perspectiva de reflexão para o combate ao racismo. Uma parte da ala da direita conservadora brasileira não se agrada muito dessa expressão, e dizem ser um certo exagero, não que esta negue o racismo no Brasil. Pontue, na sua opinião, sendo mulher negra periférica, que sabe exatamente a estrutura do aparelho ideológico racial, o que mais você luta para que esse muro de preconceito e racismo venha a ser demolido?

A gente demonstra através de narrativas e olhares pretos (as) e favelados que existe uma estrutura que favorece um corpo e desfavorece o outro corpo, e a partir daí, a gente começa a desconstruir um olhar eurocêntrico trazendo uma perspectiva negrecida para um país, que é formado dentro de um pacto de uma branquitude. Quando o Silvio Almeida pontua o racismo estrutural, ele tá dizendo que a raiz do nosso problema e de todas essas opressões está no racismo estrutural: o machismo e o sexismo como uma única aliança opressora que precisa ser derrotada.

6 – Exemplificando a questão do racismo estrutural, o caso Marielle Franco está vindo à tona. Há uma emergência em se combater o racismo e a violência política em nosso país. O que você pontuaria nesse caso como racismo estrutural?

Importante pontuar que o caso da Marielle… a violência política de gênero, ela nasce para além, né? Quando a gente tem várias pessoas de comunidade que são líderes e ativistas sociais, que são mortos por vários fascistas no Brasil…, então a gente precisa deixar isso bem pontuado. Existe uma violência política de gênero desde quando Maria Carolina de Jesus ocupou as periferias e construiu as suas casas com papelão. E aí a gente precisa se perguntar… é… como a gente faz pra derrotar essa emergência de racismo e de violência política que tá hoje de forma aflorada na narrativa no debate político?

Eu acho que a primeira coisa é o presidente Lula nos falar quem matou Marielle. A segunda coisa é criar um pacto com movimentos sociais, com entidades e organizações antirracistas pra entender a importância da derrota do racismo estrutural.

E outra coisa, a gente não debate um grande vilão opressor, que é o racismo; sem recursos; sem política pública; sem pessoas no Executivo e no Legislativo. A gente precisa fazer que o Brasil nasça de novo. Esse racismo estrutural é nítido e está permeando em nossa sociedade. Eu tô dizendo… Quando a gente tem uma Câmara de deputados federais, que majoritariamente é branca… A gente tá dizendo que quando a Câmara do município de Vitória, a capital do Espírito Santo… Você só tem o vereador André de pessoa negra e não tem mais uma mulher negra, então é sobre isso que a gente tá dizendo.

7 – Você é uma mulher do bem que mora no Território do Bem. Deixa uma palavra para essa juventude entender o que significa política social comunitária. Que tudo começa daqui, para que depois, chegue lá no Congresso Nacional.

Quando a gente fala de trabalho de base que foi perdido, sempre me pergunto: Foi perdido pra quem? Porque o meu corpo, o corpo da minha vó, o corpo dos meus amigos, que tem um coletivo em território, eles sempre estiveram presentes no território. Então, a gente sempre foi um agente político. A juventude é a revolução do nosso passado, do nosso presente e do nosso futuro.

E pra isso… pra chegar nesse Congresso… pra chegar nas Câmaras, a gente vai precisar se aquilombar… Porque só com estratégia, com pensamento de captação de recursos financeiros pra eleger os nossos, é que a gente vai chegar nesses espaços… Esse espaço que se diz que derrotou a monarquia, mas você sempre vê os filhos dos reis. E quem são esses reis? Os ex-prefeitos, os ex-presidentes, o ex-tudo, menos a… a ex-faxineira… os filhos das ex-faxineiras ocupando esses lugares. Então é sobre isso: fortalecer a juventude é pensar nessa perspectiva de aquilombamento, de se fortalecer em grupo e de entender que a gente precisa, urgentemente, sabotar os sabotadores pra que nós não sejamos sabotados.

Crislayne Zeferina tem sua história de mobilizadora social e cultural narrada no livro “A essência dos dias: Histórias de vida do Território do Bem”, da jornalista Laís Rocio, à direita na foto. / Foto: Thais Gobbo.

 

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