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Danielle Laudino: à caminho da educação

Danielle Laudino é assistente social e fundadora do Instituto Laudino. / Foto: Yuri Brain.

No Dia Internacional da Mulher, o Jornal Merkato honra personalidades femininas que já escreveram uma história de contribuição para o emblema do 8 de março.

Nossa entrevistada é uma mulher que não cabe nesse jornal, nessa entrevista, nessa realidade de tempo e espaço. Ela veio do futuro.

Você vai ler uma história de amor, disciplina, respeito, valorização e altruísmo. Foi precioso entrevistá-la e difícil resumir seus feitos heroicos.

Acompanhe a trajetória de Danielle Laudino, 39, assistente social; professora; Ma. em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local pela Emescam, com formação em três pós-graduações na área de humanas, e, fundadora do Instituto Laudino. Todo esse caminho percorrido à educação começou literalmente caminhando a pé para ir à escola em sua infância.

1 – Danielle, me conta um pouco de sua infância, de suas vivências.

Minha infância foi aqui em Vitória, mas sou carioca. Comecei meus estudos a partir dos cinco anos de idade. Eu saía da Serra até a Praia do Canto pra estudar no jardim de infância. Essa ida, durante um ano, pra essa creche, fez com que eu amadurecesse muito rápido. Então a consciência de distância de educação me amadureceu muito cedo.

Da 5ª a 8ª série estudei em um bairro vizinho que não tinha ônibus, morava no bairro de Divinópolis, então o meu primeiro desafio foi ser liberada, junto com outras crianças, a partir dos 10 anos de idade, ir à escola, à margem da BR 101, sozinhas. Meus pais trabalhavam fora e nós cuidávamos de nós mesmos.

A partir da 8ª série fui pra um bairro um pouquinho mais longe, Serra Sede. Também não tinha ônibus ligando um bairro ao outro e nem passagem pra estudante gratuita como hoje. Íamos andando de Divinópolis a Serra Sede.

2 – Como você justifica suas escolhas nos estudos?

Eu acredito que as vivências e o meio decidem nossas profissões e desenvolvem habilidades necessárias pra que possamos realizar as coisas. Por exemplo, o serviço social não seria a primeira opção se eu estivesse em outro espaço e vivências. Eu iria pro lado da inovação, da tecnologia, de minhas habilidades naturais. Mas convivendo em um bairro que faltava tudo, precisava de um transporte público pra ir à escola, por estar no espaço de faltas, você acaba se identificando com profissões que poderiam se tornar ferramentas para sair daquela situação e contribuir pra outros também.

“Juntando a família dos meus pais, eu fui a primeira a ingressar no ensino superior e também fui a primeira a ter ensino médio”.

3 – A profissão de assistente social, quem a escolhe, é porque de algum modo, passou por muita necessidade na vida?

Realmente é por essa linha. As pessoas que se definem pelo serviço social ou a área de garantia de direitos, geralmente, tem experiências de faltas de espaços e querem lutar pra enfrentar as desigualdades sociais.

Eu fiz o serviço social em uma faculdade de classe média, a Emescam, e realmente, você identificava quem era pobre e quem não era exatamente pelo curso. Tanto que o curso era ofertado no turno noturno e, os outros cursos de saúde eram diurnos, ou seja, o serviço social era para trabalhador estudante. Acredito também que existem pessoas de outras classes sociais que são sensíveis as garantias de direitos.

4 – Me fala de uma conquista que você considera marcante em sua vida?

Juntando a família dos meus pais, a parte de netos e primos, eu fui a primeira a ingressar no ensino superior e também fui a primeira a ter ensino médio. É uma realidade difícil porque você fica sem referência. Se ninguém nunca tentou e nunca teve, é muito difícil você sonhar com isso. Não sabia outra maneira de mudar a minha realidade socioeconômica que não fosse via à educação. Desde os 13 anos eu já era voluntária na associação dos moradores do bairro. Era por esses caminhos legais que via a oportunidade de acessos à direitos.

5 – Você ingressou no serviço social por meio de processos seletivos de bolsa de estudos, me conte o desafio. 

Eu termino o ensino médio sem perspectiva de trabalho, de renda, nem de estágio. Então eu procurei cursinhos de pré-vestibular gratuitos. Passo em suplente em um cursinho popular, que visava nivelar o conhecimento de alunos de baixa renda e ter uma competição de entrar na Ufes. Passei como suplente, porém a minha classificação era quase chegando no número 600, ou seja, suplente pra fazer pré-vestibular e ainda com uma chance quase zero de ser chamada. Fui chamada por insistência. De tanto ir todos os dias na escola.

Então, o pessoal viu que eu queria. Então ingressei nesse pré-vestibular. Seis meses depois teve a prova pra Emescam. Concorri à vaga pra serviço social. Eu fiz a prova e fiquei entre os 10 primeiros colocados, entre 10 vagas para bolsistas.

6 – Cite uma voz e vez do 8 de março?

O Brasil é conhecido por um país com suas riquezas em diversidades, seja de etnia, de raças, culturas e religiões. Mas quando você vai pra cargos diretivos, seja conselhos de empresas, cargo de analista especialista, você vê que mulheres e negros (as), os tidos minorias, não aparecem nesses espaços chamados de decisão. E por não estarem nesses espaços de decisões as suas demandas não o são contempladas.

Então quando se fala de voz e vez, penso, por exemplo, em um congresso de aleitamento materno, somente com médicos homens. Não seria interessante ter ali mulheres que pudessem aproximar a discussão e homens que se especializaram nisso? Mas quando você vê uma banca, com seis médicos, sendo homens brancos, falando de aleitamento materno, que é uma coisa que o outro vive, ou a outra, então a voz e a vez, ali, estão silenciadas.

Quando vamos falar de políticas públicas temos que ter todos os extratos da sociedade de etnias, raças e gêneros.

Danielle Laudino é assistente social, Ma. em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local, e, fundadora do Instituto Laudino. / Foto: Yuri Braian.

7 – Faça uma análise crítica de mulher para outra mulher que precisa aprender apoiar as causas sociais que envolva os seus próprios direitos.

Tem uma frase que diz: “Ninguém larga a mão de ninguém”. E tem essa questão pra mulheres, né. A questão relacionada às mulheres que apoiam umas as outras. Terem esse olhar mais amplo de demandas que são diferentes, mas que são inerentes a questão de gênero ou não. Por exemplo, quando se fala ‘ninguém larga a mão de ninguém’, mas quando vão brigar pelos direitos trabalhistas das domésticas, já voltaram atrás dos diretos delas. E quem mais sentiu o peso dos direitos trabalhistas domésticos foram as donas de casa. Então, na hora de ter de pagar por esses serviços as próprias irmãs falam: “Pera aí, essa lei pesou meu orçamento!”.

Então se é para ninguém largar a mão de ninguém, as próprias mulheres brancas de classe média, as quais trabalham fora, brigariam pelas domésticas terem seus direitos garantidos em pleno século XXI.

8 – O oito de março é luta de gênero ou por individualidade humana?

O 8 de março vai para além de bombons e flores vermelhas, mas também estamos aceitando bombons e flores vermelhas, porque é uma data de celebrar, sim. É data de celebrar tudo que já se construiu; os espaços que já foram ocupados. Então se a gente for pensar nos nossos avós, nossas mães, tem coisas que hoje você vê mulheres acessando com pouco mais de propriedade.

A data te lembra que para você estar nesse ponto teve lutas, teve conversas, teve construções para se chegar à realidade que se tem hoje. Agora, essa discussão precisa continuar sem desconsiderar o contexto histórico. Lembrar essa mulher o que ela é na sociedade, e a mulher que um dia já foi inviabilizada.


Foto (capa): Yuri Braian.

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