Terceiro Setor
Por: José Salucci – Jornalista
O empreendedorismo feminino no Espírito Santo encontra no Terceiro Setor um poderoso catalisador de transformação social e econômica. Fortalecendo essa curva de crescimento, a loja colaborativa do projeto “EmpoderaEla Colab IOB” está de portas abertas no Shopping Vila Velha até o dia 31 de outubro.
A ação une o poder de tração do varejo de shopping center à causa de instituições sociais, oferecendo ao público capixaba uma experiência de consumo consciente e impacto direto na ponta.
A chegada e consolidação dessa modalidade de loja colaborativa no Estado reforça a maturidade de iniciativas que transcendem a caridade tradicional. Em Vila Velha, a união entre os setores privado e social posiciona o município como referência na aceleração de pequenos negócios sociais liderados por mulheres. Mais do que comercializar produtos, a iniciativa estabelece uma ponte sólida entre a Organização da Sociedade Civil (OSC), a qual atua diariamente na promoção de oportunidades no território capixaba.
Estrutura corporativa e alcance nacional do projeto
Para garantir peso e sustentabilidade comercial ao espaço, a iniciativa conta com o suporte de uma sólida diretriz corporativa. O EmpoderaEla é um projeto nacional da ALLOS, empresa administradora e proprietária de shopping centers. A ação foi idealizada, em 2019, por Kamila Carvalho, atual gerente de marketing do Shopping Vila Velha.

Quando atuava no interior do estado do Rio de Janeiro, em Campos dos Goytacazes, Kamila estruturou a proposta inicial para responder às demandas do Dia Internacional da Mulher, percebendo que a principal moeda de um shopping center, a locação diária do espaço comercial, poderia ser cedida como impulso real a pequenas empreendedoras.
“Trata-se de um projeto corporativo de holding, presente em mais de 50 shoppings por todas as regiões e estados do Brasil. Desde 2019, mais de mil mulheres já passaram pelo ‘EmpoderaEla’. O objetivo é ceder espaço de alto fluxo para dar visibilidade e proporcionar uma experiência profissionalizante real de varejo a essas empreendedoras socialmente engajadas,” destaca Kamila, idealizadora do projeto e gerente de marketing do Shopping Vila Velha.
O Terceiro Setor na prática: sustentabilidade, engajamento e voluntariado
A edição capixaba ganhou um desenho inédito ao unir o projeto nacional à demanda de sustentabilidade financeira das entidades locais. Verônica Lopes de Jesus, presidente do Instituto Oportunidade Brasil (IOB), explica que a ideia da colaboração surgiu da urgência vivida por pequenas instituições.
“No Brasil, 59% das chamadas ‘nano instituições’ não conseguem acesso a editais. Diante disso, desenhei o projeto explicando ao shopping nossa motivação de ter um ponto de venda para o Terceiro Setor e bati na porta. A Kamila acolheu a ideia e integramos o IOB ao EmpoderaEla”, relata Verônica.
A partir dessa sinergia, o IOB assumiu a gestão operacional da loja junto ao shopping e abriu uma chamada pública em um grupo do Terceiro Setor capixaba no WhatsApp — canal que reúne mais de 250 lideranças de todo o Estado do Espírito Santo.
Nas prateleiras de exposição dos produtos, o IOB apresenta um consumo consciente: camisas com frases de impacto, linhas de aromatizadores exclusivos, livros autorais publicados por alunos do IOB e cerâmicas artesanais produzidas no programa Oportunidade Tech, em parceria com a Chácara, comprovam qualidade e consciência de um trabalho. As peças contam com estampas doadas por designers renomadas, como Adriana Del Maestro e a carioca Fernanda Rodrigues.

“O terceiro setor tem uma importância enorme para a economia; no ano passado, empregamos mais pessoas do que a construção civil. A importância de vir à loja e consumir produtos a partir de R$ 10 é ajudar essas instituições a fazerem caixa para continuar operando. E quem não puder doar financeiramente pode se candidatar como voluntário. Sem voluntários, a engrenagem não gira,” enfatiza Verônica.

Histórias de transformação: a confecção artesanal e o resgate da educação
Entre as lideranças presentes no espaço está Armicinha Leone, contabilista aposentada de 72 anos, fundadora e presidente do Instituto Conectados com Educação e Ação Social (ICEAS).
Com uma trajetória comunitária iniciada ainda em 1994 no município de Cariacica, Armicinha trouxe seu trabalho social para o bairro Cidade Continental, na Serra, onde atua há mais de 30 anos. No espaço do Shopping Vila Velha, ela expõe e comercializa as “Bonecas Palmas”, produzidas manualmente com retalhos de tecidos doados por costureiras.

O nome da linha artesanal carrega um significado afetivo profundo. Quando trabalhava fora, Armicinha confeccionava bonecas pretas e coloridas para levar a crianças em tratamento contra o câncer no Hospital Infantil. Ao chegar com os brinquedos de cores vivas, as crianças celebravam batendo palmas. Hoje, a venda das peças na loja “EmpoderaEla Colab IOB” é o caminho encontrado pela presidente para captar recursos e reestruturar as aulas do programa “Conectados com Educação” — projeto de reforço escolar focado em alfabetização, português e matemática no contraturno escolar de 40 crianças da Serra.
“Eu criei as bonecas pretas porque, na época em que minha filha nasceu, não existiam bonecas negras no mercado e eu precisava pintá-las. Hoje uso retalhos doados para fazer esse artesanato com fuxico. Estar no shopping vendendo as bonecas é a oportunidade que tenho de divulgar o instituto e arrecadar recursos para colocar nossas aulas de reforço escolar para funcionar novamente. A necessidade de ajudar essas crianças é gigante,” relata Armicinha.

Articulação entre institutos e o gargalo do trabalho voluntário
A operação da loja colaborativa no Shopping Vila Velha é estruturada por meio da participação direta de quatro instituições sociais: o Instituto Oportunidade Brasil (IOB) — que responde pela gestão e tratativa do espaço —, o Instituto Conectados com Educação e Ação Social (ICEAS), a Associação Capixaba de Combate ao Câncer Infantil (ACACCI) e a Associação Voluntários para a Vida (AVOI).

Apesar de a estrutura da loja comportar até cinco instituições parceiras, a quinta vaga do projeto não pôde ser preenchida. O motivo escancara um dos gargalos mais críticos do Terceiro Setor no país: a escassez de trabalho voluntário contínuo para cumprir escalas operacionais exigidas pelo varejo de shopping center, que opera diariamente das 10h às 22h.
Como aponta Verônica, a maioria das instituições de pequeno porte opera com equipes extremamente enxutas, divididas em jornadas duplas de trabalho para garantir o sustento pessoal.

“Dividimos 11 escalas por mês para cada instituição. O IOB tem dedicação exclusiva, mas em muitas ONGs os gestores têm segundo emprego e dependem 100% de voluntários. Quando não há braços disponíveis para cobrir o horário de funcionamento do shopping, a conta operacional não fecha. Isso mostra o quanto precisamos fortalecer a cultura do voluntariado no Espírito Santo”, conclui a presidente do IOB.


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