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Entrevista/Capoeira ES
Por: José Salucci – Jornalista e diretor do Merkato
O Merkato continua a sequência das entrevistas realizadas em 31 de janeiro a 02 de fevereiro, em Cachoeiro de Itapemirim, no Hotel Caiçara, onde aconteceu o “3º Encontro Estadual de Salvaguarda da Roda de Capoeira e Ofício das Mestras e dos Mestres de Capoeira no Espírito Santo”.
O evento reuniu detentores da capoeira, além de agentes culturais, com o intuito de formular o Plano de Salvaguarda do bem cultural no estado do Espírito Santo.
Merkato apresenta o penúltimo entrevistado: Luiz Mauro Pinheiro de Souza, 63 anos de idade, ingressou na capoeira ainda criança, aos 5 anos, em 1966. É conhecido na capoeiragem como Mestre Militão, que conversou com a reportagem e foi direto ao assunto criticando o machismo na capoeira, a soberba dos mestres, a falta de respeito com a musicalidade na capoeira, a ausência do presidente da Federação de Capoeira do Espírito Santo (Fecaes) no evento, o Me. Nagô, e, também teceu críticas à gestão passada da Fecaes. Além de opinar incisivamente sobre alguns assuntos discutidos nos Grupos de Trabalho (GTs).
Leia a entrevista!
1 – Mestre Militão, o evento de Salvaguarda da Capoeira é relevante para o avanço, não só dos capoeiristas, mas também à cultura popular brasileira. O senhor já participou de algumas ações desse formato, tanto dentro do ES ou em outros estados?

Sim, relacionado à Salvaguarda da Capoeira, participei desde o início, em São Mateus e Vitória.
E, também, em 1974, no Campo dos Afonsos, bairro da Zona Oeste do RJ, onde se localiza a Base Aérea dos Afonsos, na região militar, participei da última reunião para definir as graduações dos cordéis.
Eu era muito jovem aluno, foi na questão da organização do sistema de graduação cordéis. E com detalhe, em pleno regime militar, então, tudo que se organizava era feito em locais militares, porque tudo que se organizava era visto como subversivo pelo regime militar. Então, essas graduações custaram muito sangue, muitos que apareceram nessas reuniões e não voltaram mais, eu nunca mais tive notícia deles.
2 – Qual a importância de participar desse evento da Salvaguarda da Capoeira do ES na região Sul do estado, que valoriza, registra e formaliza as demandas da capoeira?
Seria bem melhor se houvesse a preocupação de maior participação em todo esse processo para chegar nesse terceiro encontro, mas muitos até tentaram, mas não deixaram acontecer.
Por exemplo, a Fecaes, ela atrapalhou desde o primeiro momento através de sua diretoria, principalmente com o Mestre Cabral. E, depois não atrapalhou mais, porque ela ficou no descrédito de tudo, mas ela sempre tentou atrapalhar. Mas com a diretoria de hoje, não atrapalha.
Mas se a diretoria atual não vier, ela que se atrapalha, porque os outros capoeiristas têm a vivência, o conhecimento de tudo.
Eu tô direcionando meu discurso a todos aqueles que não participaram, aqueles que dificultaram, e também provocar aqueles que não vieram por imposição dos outros, que têm muitos também que não estão dentro porque são proibidos de participarem.

3 – Seu comentário se dirige ao atual presidente da Fecaes, Me. Nagô? O que tem a dizer sobre a ausência dele nesse evento?
Eu não estou discordando e não quero aqui dizer, afirmar que ele não tem os problemas dele pessoais. Mas quando esse evento foi feito, o IPHAN divulgou a data. A data saiu, então o capoeirista podia vir, entendeu?
É a obrigação dele, porque se ele é o presidente, ele foi eleito pelo voto. E quantos acreditaram e elegeram ele como representante? Então, ele é um representante. Ele era pra tá aqui. Nada justificativa. Só não tem problema quem não tá vivo.
Se eu estou representando um grupo, tem hora que eu tenho que deixar o meu eu de lado e ser o eles. É esse o momento que ele tinha que estar. Não é ele, é eles, ele tem que ser o eles aqui.
4 – Mudando de assunto, vamos falar do ofício dos mestres e das mestras; o que o senhor pôde aprender mais um pouco sobre esse ofício?
Primeiramente, a dificuldade de todos quando se fala em capoeira. Eu vejo que muitos Mestres falam que sabem, então cai nessa hora, porque ele tem que dar o braço a torcer, que ele não sabe, ele tá aprendendo. E é isso que eu faço, eu ensino e aprendo ao mesmo tempo. Então é troca de saber, troca de conhecimento… Muitos falam que eu não tenho um discurso… A minha oralidade não pede nenhum discurso técnico, não pede nada disso, pede a realidade, a verdade.
A minha cultura me permite que eu seja assim, que eu seja oral, que eu esteja buscando a minha ancestralidade, não falando por alguém que fez um curso técnico, porque identifico que a maioria daqueles que são muito técnicos, eles falham na base dos fundamentos. Porque muitos mestres acham que não precisam aprender mais. Aí que ele tem que aprender mais para ensinar mais. E tem que se aprimorar.
5 – O senhor, que mora na região Norte do estado, na sua concepção, qual a importância desse Plano de Salvaguarda ter sido debatido fora do eixo da capital?
Isso é muito importante porque você tá descentralizando e tá combatendo até uma forma de discriminação. Porque eu volto um passado lá atrás de 1982 como eu cheguei.
Eu sofri essa discriminação, né! Que sofre no Norte, sofre no Sul. Capoeira só existia na capital. Eles achavam que só existia capoeira na capital. Mas eles contrariam a própria história, eles esqueceram da capoeira no interior.
Eu consegui levar a capoeira em muitos lugares em que não tinha e plantar uma semente ali e deixar germinar. Então, é muito importante ver a minha história, valeu a pena. Em 1982, eu comecei a plantar. Tô plantando até hoje e tô vendo os frutos.

6 – Vamos falar dos GTs. Sobre a polêmica capoeira como esporte em forma de campeonato, o que tem a dizer?
Eu não gosto muito da questão do esporte, da palavra esporte, porque a capoeira é muito ampla, até na questão do esporte.
Só que me vem o medo da capoeira se tornar um esporte olímpico, ela vai sofrer uma degradação da cultura porque vai tirar a alma dela, a essência dela, como aconteceu com o karatê, como aconteceu com o taekwondo, com todas as artes marciais que se tornaram um esporte olímpico, perdeu a sua essência, perdeu o seu encanto, perdeu a sua base, se tornando uma coisa automática.
7 – E o que destaca no “GT Racismo Religioso”?
A musicalidade. Tem que se aprofundar na cultura, na história da cultura da capoeira. Se aprofundarem, vão descobrir que a musicalidade da capoeira é de raiz.
E a raiz é o jongo, ou o caxambu. Ou em outras regiões que tem o derivado dessa cultura de base, de raiz mesmo, que é princípio da África, que está na base toda da população, da negrada mesmo… A musicalidade ela vem de uma resistência, de espiritualidade, ancestralidade, isso não se separa.
Então, vá buscar toda a essência da musicalidade, tem um porquê. Então, não se canta besteirol e nem se canta demandas das religiões dentro da capoeira. Porque religião cada um tem o direito de ter a sua nesse país. A capoeira, se ela tem que ter louvação, tem que fazer no seu silêncio. A sua conexão tem que ser silenciosa, com o seu eu, não é fazer ostentação.

8 – Sobre o “GT Mulher na Capoeira”, deixe sua opinião.
A verdade que o machismo é muito presente na capoeira, e é isso que eu combato também. Eu tive situações que, tive que intervir e ser até grosso com muitos Mestres por causa disso.
Vamos respeitar o direito delas também, respeitar o direito das mulheres. Burro é um homem que acha que a mulher não pode jogar capoeira, dominar uma roda… Ele tem que dividir o poder com ela. Muitos não querem jogar em roda de mulher, eles não sabem contribuir. Só sabem usufruir, mas não sabem contribuir.
Eu, a vida toda, eu reforcei a ascensão da mulher, o espaço da mulher dentro da capoeira, ela tem que estar onde está o homem, onde cabe o homem, cabe a mulher.
9 – Para finalizar, pontue algumas coisas que a capoeira precisa de mudar, urgentemente, para avançar no estado no Espírito Santo?
Simplesmente o pessoal deixar de copiar e deixar de ouvir muitas mentiras de muitos grupos grandes, né! Falar assim: ‘Ah, eu criei isso, eu fiz isso.’ Na verdade, eles não criaram, só sistematizaram.
Então, tem que parar de sistematizar, e fazer da capoeira uma cultura pujante, mas com a realidade local do Espírito Santo, essa realidade tá ali dentro para a salvaguarda nacional.
Outra falha na capoeira Capixaba: não buscar o conhecimento aprofundado, o regional do Espírito Santo, da historiografia. Não é ficar ouvindo mentiras. Isso eu falo por dentro da própria musicalidade, é o maior exemplo disso.
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