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Coluna Letrados
Por: Samuel J. Messias – Especialista em Docência no Ensino Superior e Me. em Educação
Olá, leitor da coluna Letrados! Neste artigo exploro as complexidades e contradições do sistema educacional contemporâneo, analisando como as pressões acadêmicas, desafios socioemocionais e limitações estruturais afetam o desenvolvimento dos estudantes. Apresento uma visão crítica sobre o ambiente escolar, seus impactos psicológicos e proponho caminhos para uma transformação educacional significativa.
Pressões e expectativas
O ambiente escolar contemporâneo tornou-se um cenário de pressões crescentes que impactam profundamente a saúde mental dos estudantes. As expectativas acadêmicas elevadas, frequentemente impostas por familiares, professores e pela sociedade em geral, criam uma atmosfera de constante tensão. Os jovens são repetidamente lembrados da importância do desempenho acadêmico para seu futuro, sem que haja um equilíbrio adequado entre expectativas e suporte emocional.
A comparação constante entre estudantes intensifica essa pressão. Notas, classificações e rankings transformam a aprendizagem em uma competição interminável, onde o valor do estudante parece ser determinado exclusivamente por seus resultados acadêmicos. Esta competitividade exacerbada não apenas prejudica o processo de aprendizagem genuína, mas também corrói a autoestima e o bem-estar psicológico dos jovens.
A síndrome do impostor manifesta-se de forma preocupante no ambiente escolar. Muitos estudantes, mesmo aqueles com bom desempenho, experimentam sentimentos persistentes de inadequação e fraudulência. Eles atribuem seus sucessos à sorte ou a fatores externos, enquanto internalizam profundamente seus fracassos, criando um ciclo devastador de autodepreciação.

O estresse e a ansiedade tornaram-se quase normativos entre jovens estudantes brasileiros. Pesquisas recentes indicam um aumento alarmante nos níveis de distúrbios de ansiedade relacionados à escola, manifestando-se em sintomas físicos como insônia, dores de cabeça e problemas digestivos. Muitos estudantes relatam sentir-se constantemente sobrecarregados, sem tempo adequado para atividades essenciais ao seu desenvolvimento integral, como lazer, socialização e autoconhecimento. Esta sobrecarga crônica não apenas compromete o aprendizado efetivo, mas também estabelece padrões prejudiciais de relacionamento com o conhecimento e com o próprio processo educativo.
“O sistema educacional atual frequentemente transforma a luz do conhecimento em um brilho insuportável, ofuscante e opressor, que mais cega do que ilumina os caminhos de desenvolvimento dos jovens.” (Olga Pombo)
Desafios sociais e emocionais
A escola representa muito mais que um espaço de aprendizagem acadêmica; constitui um microcosmo social onde adolescentes navegam complexas dinâmicas de relacionamento que moldarão suas habilidades interpessoais futuras. Neste ambiente, formam-se hierarquias sociais intrincadas, frequentemente baseadas em critérios superficiais ou arbitrários, que podem ter impactos duradouros na autoestima e no sentimento de pertencimento dos jovens.
O bullying permanece como uma realidade devastadora nas escolas brasileiras, manifestando-se de formas cada vez mais sofisticadas, inclusive no ambiente digital. As consequências psicológicas deste fenômeno são profundas e potencialmente duradouras: ansiedade social, depressão, ideação suicida e transtornos de personalidade têm sido documentados como possíveis resultados da vitimização prolongada. O mais preocupante é que muitas escolas ainda tratam o bullying como um “rito de passagem” inevitável, sem implementar intervenções eficazes para combatê-lo.
Formação da Identidade
O ambiente escolar funciona como um laboratório crucial para a formação da identidade adolescente. Neste espaço, os jovens experimentam diferentes papéis sociais, valores e comportamentos, buscando definir quem são e quem desejam ser. Contudo, pressões por conformidade e padronização frequentemente sufocam este processo, limitando a expressão autêntica e a diversidade de identidades.
Crises de Pertencimento
Muitos estudantes enfrentam intensos desafios de adaptação e integração, especialmente aqueles que de alguma forma divergem dos padrões majoritários. Diferenças socioeconômicas, raciais, de gênero, orientação sexual ou necessidades educacionais especiais frequentemente se tornam bases para exclusão e discriminação, gerando profundo sofrimento.
Regulação Emocional
A escola raramente oferece ferramentas adequadas para que os jovens desenvolvam habilidades de regulação emocional. Como resultado, muitos estudantes encontram dificuldades para lidar com a frustração, gerenciar conflitos interpessoais e processar emoções complexas, o que impacta tanto seu desempenho acadêmico quanto seu bem-estar geral.
Estas questões socioemocionais são frequentemente tratadas como secundárias ou completamente desconectadas do processo educacional, quando na verdade constituem sua base fundamental. Um estudante emocionalmente desestabilizado ou socialmente isolado enfrentará obstáculos significativos em seu desenvolvimento cognitivo e acadêmico, evidenciando a indissociabilidade entre aprendizagem e bem-estar emocional.
Sistema educacional e suas contradições
Métodos de Ensino Anacrônicos
Os métodos de ensino tradicionais ainda predominantes nas escolas brasileiras – baseados em aulas expositivas, memorização e avaliações padronizadas – mostram-se cada vez mais desconectados das necessidades dos estudantes contemporâneos. Nascidos na era digital, estes jovens desenvolveram formas diferentes de processar informações e construir conhecimento, evidenciando a urgência de uma renovação metodológica profunda.
Desconexão Curricular
Existe uma preocupante desconexão entre o currículo escolar e a realidade social. Muitos conteúdos são ensinados de forma descontextualizada, sem estabelecer conexões significativas com questões contemporâneas relevantes ou com a vida cotidiana dos estudantes, resultando em aprendizado superficial e falta de engajamento.
Padronização Excessiva
A padronização excessiva do ensino e das avaliações ignora as diferenças individuais no ritmo e estilo de aprendizagem, transformando a diversidade cognitiva em problema quando deveria ser valorizada como riqueza. Estudantes são forçados a se adequar a um modelo único, frequentemente sendo rotulados como deficientes quando seus perfis cognitivos divergem do padrão esperado.
Limitações Estruturais
O modelo tradicional de educação apresenta limitações estruturais graves: divisão artificial do conhecimento em disciplinas estanques, organização rígida do tempo escolar, ênfase excessiva em conteúdos em detrimento de habilidades e competências, e infraestruturas físicas que não favorecem interações colaborativas ou experiências educativas diversificadas.
Estas contradições são agravadas por questões sociopolíticas mais amplas que afetam o sistema educacional brasileiro: subfinanciamento crônico, desvalorização profissional dos educadores, desigualdades estruturais no acesso a recursos educacionais de qualidade e políticas educacionais frequentemente descontínuas ou baseadas em interesses ideológicos mais que em evidências científicas sobre aprendizagem efetiva.
Paradoxalmente, enquanto o discurso oficial celebra a importância da educação para o desenvolvimento nacional, as práticas efetivas revelam um sistema que parece projetado mais para classificar e selecionar que para desenvolver plenamente o potencial humano. Esta contradição fundamental gera frustração tanto em educadores comprometidos quanto em estudantes que percebem a dissonância entre o discurso e a realidade educacional que vivenciam diariamente.
Caminhos para a transformação
Diante dos desafios identificados, torna-se imperativo explorar caminhos viáveis para uma transformação profunda do sistema educacional. Esta mudança não pode limitar-se a reformas superficiais ou à incorporação de novas tecnologias em velhas estruturas, mas deve questionar e repensar os fundamentos e propósitos da educação contemporânea.
Apoio Psicológico Integrado
Implementação de serviços de apoio psicológico acessíveis e desestigmatizados nas escolas, com profissionais capacitados para atender às necessidades emocionais dos estudantes
Educação Socioemocional
Incorporação sistemática da educação socioemocional no currículo, desenvolvendo competências essenciais como autoconhecimento, empatia e resolução de conflitos
Metodologias Alternativas
Adoção de abordagens pedagógicas inovadoras que respeitem diferentes estilos de aprendizagem e fomentem a autonomia e o protagonismo estudantil
Educação Comunitária
Fortalecimento das parcerias entre escola, família e comunidade para criar redes de apoio e ampliar os espaços e experiências educativas
A implementação efetiva de estratégias de apoio psicológico nas escolas representa uma necessidade urgente no contexto educacional brasileiro. Isso inclui não apenas a presença de psicólogos escolares, mas também a capacitação de professores para identificar sinais de sofrimento psíquico e a criação de espaços seguros para diálogo e expressão emocional. Estudos demonstram que escolas que investem em saúde mental não apenas reduzem problemas comportamentais e evasão, mas também melhoram significativamente o desempenho acadêmico geral.
A educação socioemocional emerge como pilar fundamental de uma formação integral. Através de programas estruturados, os estudantes podem desenvolver habilidades cruciais para a vida contemporânea: inteligência emocional, comunicação assertiva, trabalho em equipe e resiliência. Estas competências, frequentemente negligenciadas pelo currículo tradicional, mostram-se determinantes não apenas para o sucesso acadêmico e profissional, mas principalmente para a construção de uma vida equilibrada e significativa.
Os métodos alternativos de aprendizagem – como aprendizagem baseada em projetos, ensino híbrido, gamificação e abordagens inspiradas em pedagogias como Montessori, Waldorf e Freinet – oferecem caminhos promissores para superar as limitações do modelo tradicional. Estas metodologias compartilham princípios fundamentais: respeito à autonomia do estudante, valorização da experiência concreta, integração entre diferentes áreas do conhecimento e reconhecimento da dimensão colaborativa da aprendizagem.
Por fim, é essencial reconhecer que a transformação educacional não pode ocorrer isoladamente dentro dos muros escolares. O engajamento ativo das famílias e da comunidade amplia e enriquece as possibilidades educativas, criando uma rede de suporte fundamental para o desenvolvimento integral dos estudantes. Escolas que se abrem à comunidade e estabelecem parcerias com diferentes atores sociais conseguem oferecer experiências educativas mais diversificadas e significativas, aproximando a educação das realidades e necessidades concretas dos seus estudantes.
Conclusões e perspectivas futuras
Ao longo deste artigo, exploramos as múltiplas facetas do que denominamos “o insuportável brilho da escola” – um sistema que, paradoxalmente, ao tentar iluminar caminhos através do conhecimento, frequentemente ofusca e oprime aqueles a quem deveria servir. As pressões excessivas, os desafios socioemocionais não atendidos e as contradições estruturais do sistema educacional criam um ambiente que, para muitos estudantes, torna-se mais um obstáculo que um facilitador do desenvolvimento pleno.
Reconhecimento da Crise
O primeiro passo para a transformação educacional é reconhecer honestamente as limitações e contradições do modelo vigente, superando resistências institucionais e ideológicas à mudança.
Fundamentação Científica
As reformas educacionais devem basear-se em evidências científicas sólidas sobre desenvolvimento humano, aprendizagem e bem-estar, não em modismos pedagógicos ou interesses políticos temporários.
Construção Colaborativa
A reinvenção da escola deve ser um processo democrático envolvendo todos os atores: estudantes, educadores, famílias, especialistas e comunidade.
Implementação Sustentável
As transformações devem ocorrer de forma gradual, mas consistente, com suporte adequado de recursos, formação continuada e acompanhamento de resultados.
Como destaca Olga Pombo em seus trabalhos sobre filosofia da educação, precisamos resgatar o sentido original da escola como scholé – palavra grega que significa “tempo livre”, não no sentido de ociosidade, mas como espaço privilegiado para pensar, questionar e criar sem as pressões imediatistas da produtividade. A transformação que propomos não visa apenas melhorar indicadores acadêmicos, mas recuperar esta dimensão fundamental da educação como prática de liberdade e expansão do potencial humano.
O futuro da educação brasileira dependerá de nossa capacidade coletiva de transformar críticas em propostas concretas, de superar a inércia institucional e de priorizar genuinamente o desenvolvimento integral dos estudantes. Este não é um desafio apenas técnico ou pedagógico, mas fundamentalmente ético e político, pois questiona que tipo de sociedade desejamos construir através de nossas práticas educativas.
Se conseguirmos transformar o “insuportável brilho” em uma luz acolhedora que ilumina sem ofuscar, que aquece sem queimar, teremos dado um passo fundamental não apenas para melhorar a qualidade da educação, mas para humanizá-la. Este é o convite que deixamos aos educadores, gestores, famílias e à sociedade como um todo: repensar a escola não como espaço de reprodução de desigualdades e sofrimentos, mas como território de possibilidades, crescimento e emancipação.
*O texto é de livre pensamento do colunista*
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