Título de grife

(Imagem: Editado do post do Instagram do veículo de comunicação)
Coluna Polítikus
Por: José Salucci – Jornalista

No campo da linguagem, pequenos conceitos mudam completamente o rumo da comunicação. A diferença entre as palavras “escândalo” e “polêmica”, por exemplo, carrega significados distintos. Polêmica é quando um tema divide opiniões e gera debate acalorado. Já o escândalo envolve fatos comprovados de quebra de regras éticas ou legais. Confundir os dois ao batizar uma coluna de opinião não é apenas um deslize técnico; é uma escolha de narrativa.

É exatamente isso que analiso aqui, na Coluna Polítkus: o recente título assinado pela jornalista Letícia Gonçalves, em A Gazeta: “Em meio ao escândalo do caso Vorcaro, Flávio Bolsonaro deve vir ao ES em julho.

A troca da palavra “escândalo” por “polêmica” restabeleceria a justiça técnica. Mas sabemos que a grande imprensa prefere a primeira opção quando o alvo é a oposição, pois ela atua como um tribunal prévio de assassinato de reputações, enquanto seus autores posam de guardiões absolutos da democracia.

O título do artigo já sentenciou o senador Flávio Bolsonaro como sujeito ativo no escândalo do Banco Master, antes mesmo de qualquer julgamento judicial. A manchete vende um apocalipse moral. O texto, contudo, apenas informa a possível vinda do parlamentar ao solo capixaba. Não era necessário um título de grife, no qual a primeira oração tenciona a reputação de Flávio Bolsonaro e a segunda apenas informa sua vinda. Qual a relação semântica desse título com a verdade? Qual a subjetividade jornalística quando pensamos em redação?

Essa insistência em martelar narrativas enviesadas me faz lembrar de uma história dos meus tempos de faculdade. Uma professora de redação jornalística estava em sua mesa recolhendo os trabalhos. Uma aluna se aproximou e entregou sua folha. A professora bateu o olho no título, devolveu o papel na hora e declarou: “Pode voltar. Nem quero ler o resto da matéria. O título já está horrível, imagine o texto!”. É exatamente esse o sentimento, Letícia Gonçalves.

Enquanto a grande imprensa foca suas lupas em investimentos legítimos de Flávio Bolsonaro em produções cinematográficas, nas quais o senador aportou recursos esperando lucro posterior, dentro do interesse legítimo de um trabalho, os bastidores de Brasília e do mercado financeiro escondem os verdadeiros escândalos políticos.

Olhemos para a novela do Banco Master. O roteiro começa nos caminhos do PT da Bahia, onde o senador Jaques Wagner e um atual ministro em potencial operam em compasso afinado. O ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi indicado para receber uma ‘boquinha’ de R$ 1 milhão mensais para prestar serviço de consultoria à instituição financeira.

Mas o enredo dessa trama não para por aí: o atual Ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, consolidou contratos com o mesmo Banco Master antes de assumir a cadeira ministerial. Ao assumi-la, passou o bastão diretamente para as mãos de seu filho. É como uma prova de atletismo nas Olimpíadas: cada membro da família corre seus 100 metros rasos carregando a influência política e cruza a linha de chegada sabendo o resultado final antes mesmo da largada.

E o que dizer das reuniões secretas e fora da agenda oficial da Presidência da República? Lula se encontrou às escondidas com Gabriel Galípolo (à época, futuro presidente do Banco Central), acompanhado de Daniel Vorcaro, Guido Mantega e a comitiva petista. No melhor estilo “jogo entre amigos”, o atual mandatário sugeriu, gentilmente, que o Banco Master não fosse vendido ao Banco BTG Pactual. O conselho do “estadista democrático” foi aceito com afeto político e, logo depois, o Grupo Fictor comprou o banco (transação que esbarra nos interesses e nas misteriosas mesadas financeiras de Lulinha).

Para fechar a lista de escândalos, Letícia Gonçalves, a delação mais recente do banqueiro Daniel Vorcaro apontou que o senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal, teria recebido a impressionante cifra de US$ 30 milhões do fundador do Banco Master. O valor equivale a aproximadamente R$ 153 milhões e, segundo reportagem da Veja, a bagatela foi depositada em uma conta no exterior. Alcolumbre nega! Claro, gente! Vai estragar o esquema do escândalo? Isto é apenas uma ‘polêmica’, né, Letícia?

E saber que a Polícia Federal apreendeu oito mil vídeos em nove celulares do banqueiro. Pergunto aos nobres colegas: se o senador Flávio Bolsonaro estivesse no centro de um escândalo desse calibre, o ministro Alexandre de Moraes ou qualquer outra alma democrática já não teria trazido esses vídeos a público, com ampla cobertura no horário nobre? Mas contra a oposição basta um título punitivo. E aí, Letícia Gonçalves, qual seria o título se essa grana tivesse sido depositada na conta do filho do Bolsonaro?

Um texto puramente informativo não precisava de um título arbitrário. Essa postura, que revela um eterno espírito de “estagiária” ou uma “militância” que tenta catequizar leitores, apenas confirma que o jornalismo brasileiro está em estado de falência.

*O texto é de livre pensamento do colunista*
José Salucci – *Reside em Serra *Jornalista *Diretor-presidente do Merkato (Foto: Thais Gobbo)
Facebook
WhatsApp
Telegram
Telegram
Shopping Basket