Coluna Polítikus
Por: Samuel J. Messias – Mestre em Educação
Em uma era marcada por complexas dinâmicas sociais e por uma crescente polarização, a reflexão sobre o papel do indivíduo na esfera pública torna-se não apenas relevante, mas fundamental. É nesse contexto que a obra “Política: Para não ser idiota”, de autoria dos renomados filósofos brasileiros Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro, emerge como um farol, convidando o leitor a uma profunda imersão nos significados e implicações da participação política.
Publicado originalmente em 2010, o livro transcende a análise partidária superficial e mergulha na essência do que significa ser um cidadão ativo e consciente. Este artigo propõe-se a analisar os principais conceitos e argumentos apresentados na obra, destacando sua contribuição para o resgate da política como um exercício indispensável à vida em comunidade e como um antídoto contra a alienação cívica.
A tese central do livro, que serve como fio condutor para toda a discussão, reside no resgate etimológico e semântico de conceitos fundamentais. O termo “idiota”, por exemplo, é resgatado de sua origem grega (idiṓtēs), onde designava não um indivíduo com pouca capacidade intelectual, mas aquele que se dedicava exclusivamente aos seus interesses privados, abstendo-se da vida na pólis ‒ o espaço público por excelência. A recusa em participar da política, portanto, é apresentada como uma forma de autoalienação e renúncia à cidadania plena.
Da mesma forma, o conceito de “política” (politiká) é reconectado à sua raiz, referindo-se a todos os assuntos relativos à vida em comunidade, e não apenas às estruturas partidárias ou governamentais. Ao reintroduzir essas concepções, Cortella e Ribeiro estabelecem uma poderosa provocação: a verdadeira “idiotice” política contemporânea não é a falta de conhecimento técnico, mas a omissão, a indiferença e a recusa em participar dos debates e decisões que moldam o destino coletivo. O livro, portanto, é um chamado à ação, um convite para que cada cidadão abandone a posição de espectador passivo e assuma seu protagonismo na construção de uma sociedade mais justa e democrática.
O resgate do “idiota” político e a onipresença da política
A principal contribuição de “Política: Para não ser idiota” é, sem dúvida, a desconstrução do estereótipo moderno associado ao termo “idiota” e a sua ressignificação no contexto cívico.
Os autores nos transportam para a Grécia Antiga, onde a distinção entre a esfera pública (pólis) e a privada (oikos) era fundamental. O idiṓtēs era o indivíduo que, por escolha ou indiferença, se fechava em seu mundo particular, abdicando de seu direito e dever de participar das assembleias, dos tribunais e das decisões que afetavam toda a comunidade. Como aponta a pesquisa sobre a obra, “só é livre aquele que se envolve na vida pública, na vida coletiva”. Essa perspectiva é revolucionária porque inverte a lógica contemporânea que muitas vezes vê a política como algo sujo, distante e indesejável, da qual o cidadão “esperto” deveria se afastar.
Cortella e Ribeiro argumentam que essa visão é uma perigosa ilusão. A política, defendem eles, não é uma atividade setorial confinada aos palácios de Brasília ou às câmaras municipais; ela é onipresente e intrínseca à condição humana em sociedade. Fazemos política o tempo todo: nas relações familiares, no ambiente de trabalho, na negociação com vizinhos no condomínio, na escolha da escola dos filhos. Cada uma dessas interações envolve a gestão de interesses, a busca por consensos e a administração de conflitos ‒ a matéria-prima da política. Um dos comentadores da obra sintetiza bem essa ideia: “querer separar a nossa política versus a política ʻsuja’ partidária, é deixar que outras pessoas tomem conta da sua vida, diretamente!”.
“A omissão ‒ a chamada neutralidade ‒ significa apoiar aquele que obviamente vencerá. Penso que nossa sociedade tem bem acentuada essa marca: é uma falta de responsabilização, como se a coisa pública e o aparelho de Estado fossem externos a nós.”
Essa citação, extraída de uma resenha sobre o livro, encapsula outro argumento central dos autores: a falácia da neutralidade. Em um sistema interconectado, a decisão de não participar já é, em si, uma tomada de posição. Ao se omitir, o cidadão não se torna neutro; ele simplesmente delega seu poder de decisão a outros, fortalecendo o status quo ou o grupo que detém maior poder. A obra conclama o leitor a reconhecer sua corresponsabilidade pelos rumos da sociedade, entendendo que o Estado e a “coisa pública” não são entidades abstratas, mas construções coletivas das quais todos fazemos parte.
Educação e cidadania ativa: ferramentas contra a alienação
Se a alienação e a omissão são as características do “idiota” político, qual seria o caminho para a superação dessa condição? Para Cortella e Ribeiro, a resposta reside, em grande medida, na educação. O livro não propõe uma cartilha de ideologias ou um manual de filiação partidária, mas defende a importância de uma educação para a cidadania, que capacite os indivíduos a pensar criticamente, a dialogar, a construir consensos e a resolver conflitos de forma pacífica e democrática.
Os autores abordam com preocupação o crescente desinteresse dos jovens pela política institucional, mas enxergam nesse fenômeno não apenas apatia, mas também uma possível “saturação do que já conhecemos e maturação de novas formas de organização social e política”.
A solução não estaria em forçar modelos antigos, mas em trabalhar a política nas escolas de forma transversal e engajadora, conectando os grandes temas nacionais com o cotidiano dos alunos. Trata-se de desenvolver habilidades essenciais para a vida em democracia, como a escuta ativa, a argumentação fundamentada e a capacidade de negociar e ceder em busca do bem comum.
O livro distingue, por exemplo, a confrontação, que visa anular o outro, do consenso, que emerge da negociação e da construção de uma nova posição a partir de diferentes pontos de vista.
Além da educação formal, a obra inspira uma autoeducação contínua. Ao desmistificar a política e demonstrar sua presença em todos os aspectos da vida, os autores incentivam o leitor a se informar, a debater e a se envolver nas questões de sua comunidade, seja através de associações de bairro, conselhos escolares ou outras formas de participação social. A ecocidadania, por exemplo, é citada como um campo crucial de atuação, onde as decisões individuais sobre consumo e descarte têm um impacto coletivo direto, evidenciando a indissociabilidade entre o privado e o público.
Conclusão
“Política: Para não ser idiota” é uma obra de fôlego, que cumpre com maestria seu propósito de ser um “livro indispensável ao exercício diário da cidadania”. Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro oferecem uma reflexão acessível, porém profunda, que resgata a nobreza da política como a arte de construir a vida em comum. Ao redefinir o conceito de “idiota” não como um incapaz intelectual, mas como um autoexilado da vida pública, os autores nos confrontam com nossa própria responsabilidade na manutenção ou na transformação da realidade social.
O livro nos ensina que a política não é uma opção, mas uma condição inerente à existência coletiva. A escolha que nos cabe não é entre participar ou não participar, mas entre participar de forma consciente, crítica e ativa, ou deixar que outros decidam por nós, tornando-nos, na acepção clássica e poderosa do termo, verdadeiros “idiotas”. Em um mundo que clama por mais diálogo, engajamento e responsabilidade cívica, a leitura e a reflexão propostas por Cortella e Ribeiro são mais urgentes e necessárias do que nunca.
*O texto é de livre pensamento do colunista*
