Momentos únicos do rock em nosso estado

(Imagem: Gemini)
Coluna Letrados
Por: Giovandre Silvatece – Roteirista

Olá, leitor(a) da coluna Letrados! No último mês de abril, a lendária banda Guns N’ Roses apresentou-se no Estádio Kleber Andrade, em Cariacica, diante de um público estimado em 45 mil pessoas. Liderado por Axl Rose e tendo Slash à frente na guitarra solo, o grupo reuniu fãs de diferentes gerações em uma noite marcada pela energia contagiante que envolveu o evento. Nem mesmo a chuva foi capaz de diminuir o entusiasmo dos presentes, ao contrário, ela acabou contribuindo para a atmosfera especial do espetáculo, como na execução de “November Rain”, quando milhares de celulares iluminados transformaram o estádio em um verdadeiro mar de luzes, compondo uma cena inesquecível. E assim, mais uma vez, tivemos a apresentação de uma grande banda internacional aqui no nosso estado.

A realização de shows de artistas e bandas de renome internacional em solo capixaba costuma despertar a sensação de que estamos diante de uma oportunidade única, difícil de se repetir. A percepção de que aquele momento talvez não volte a acontecer alimenta uma espécie de urgência coletiva, transformando a ida ao espetáculo em algo que transcende o simples lazer. Mais do que uma opção de entretenimento, o evento passa a ser encarado como uma experiência imperdível. Esse sentimento, combinado com a própria magnitude do show, ajuda a explicar o expressivo sucesso de público que tem marcado as grandes apresentações realizadas no Espírito Santo.

Fora da mídia

Em um passado não tão distante, o Espírito Santo parecia viver uma espécie de invisibilidade midiática. Mesmo acontecimentos de grande relevância para os capixabas raramente encontravam espaço nos telejornais de alcance nacional, como se o Espírito Santo permanecesse sempre à margem das atenções do restante do país. Essa percepção alimentava uma sensação de invisibilidade que, embora muitas vezes silenciosa, provocava certo desconforto entre aqueles que acompanhavam diariamente o noticiário. Afinal, quando observamos que nossas histórias raramente são contadas, tornava-se inevitável a sensação de que o restante do país pouco sabe, ou pouco se importa, com o que acontece por aqui.

Se o Espírito Santo frequentemente se via relegado a um papel secundário nos noticiários nacionais, algo semelhante ocorria com o próprio Brasil no cenário internacional. A escassez de informações sobre o país contribuía para a perpetuação de visões simplificadas e estereotipadas entre os estrangeiros, que muitas vezes reduziam a complexidade da realidade brasileira a alguns poucos clichês amplamente difundidos.

Essa condição de relativo isolamento também se refletia no campo cultural. Durante as décadas de 1970 e 1980, a presença de grandes artistas internacionais em solo brasileiro configurava-se deveras esporádica. Entre as raras exceções destacaram-se as apresentações de Alice Cooper e dos Jackson Five, em 1974; o histórico show de Frank Sinatra, em 1980, transmitido pela Rede Globo para diversos países da América do Sul; a memorável passagem do Queen pelo Brasil, em 1981; e os shows do Van Halen, em 1983.

Embora gêneros como o samba e a bossa nova já desfrutassem de reconhecimento internacional, o potencial do mercado brasileiro ainda era amplamente subestimado pela indústria do entretenimento. A paixão do público nacional pela música, sua capacidade de mobilização e seu poder de consumo permaneciam, em grande medida, ignorados pelos grandes agentes do mercado fonográfico mundial.

E o Brasil entra no circuito internacional das grandes turnês

Após um longo período de relativo ostracismo, eis que surge a primeira edição do Rock in Rio. Realizada entre os dias 11 e 20 de janeiro de 1985, essa primeira edição representou um verdadeiro divisor de águas na história cultural brasileira. Mais do que um festival de música, o evento simbolizou a transição entre um período de relativo isolamento cultural e a inserção definitiva do Brasil no circuito internacional do entretenimento, ao mesmo tempo em que consolidou o protagonismo do rock nacional, então em seu auge criativo e comercial.

Ao longo de dez dias, mais de um milhão de pessoas passaram pela “Cidade do Rock” para assistir às apresentações de alguns dos maiores nomes da música mundial, dentre eles estavam o Iron Maiden, Queen, Scorpions, AC/DC, Ozzy Osbourne, James Taylor e George Benson. O festival também abriu espaço para importantes representantes da música brasileira, como Barão Vermelho, Blitz, Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens, Rita Lee, Alceu Valença, Ney Matogrosso e Eduardo Dussek.

Embora a segunda edição do Rock in Rio só tenha ocorrido seis anos depois, em 1991, o impacto do festival foi imediato e duradouro. O evento demonstrou à indústria internacional do entretenimento que o Brasil possuía um público numeroso, apaixonado e disposto a consumir os mais diversos produtos e experiências ligados à música. Além disso, evidenciou a capacidade do país de planejar e executar espetáculos de grande porte, contribuindo para que o mercado brasileiro passasse a ser visto com maior interesse pelos promotores de shows e pelos empresários de artistas de renome internacional.

Em terras capixabas

Ainda na década 1980, a realização de um show de um artista nacional de grande projeção no Espírito Santo já era considerada um acontecimento raro, porém impensável mesmo seria assistir a um show de um artista de fama internacional em solo capixaba. Mas não é que o impensável aconteceu!

Em 1984, em meio ao sucesso mundial da canção “Reggae Night”, o cantor jamaicano Jimmy Cliff desembarcou em Vitória, sendo recepcionado pela tradicional banda de congo Amores da Lua. O artista reuniu cerca de 15 mil pessoas no Ginásio do Álvares Cabral, chegando a vestir a camisa do Rio Branco e protagonizando um dos momentos mais marcantes da história cultural do estado. Curiosamente, a abertura do espetáculo ficou por conta de uma jovem banda que começava a despontar no cenário nacional: os Paralamas do Sucesso. Apesar do impacto daquela visita, o Espírito Santo precisaria aguardar duas décadas para receber o que poderia ser considerado o primeiro show de uma grande banda internacional de rock. Em maio de 2004, o Motörhead, liderado pelo lendário baixista e vocalista Lemmy Kilmister, apresentou-se no Ginásio do Álvares Cabral.

No ano seguinte, foi a vez dos alemães da banda Scorpions subirem ao palco na Praça do Papa. Em 2006, o mesmo espaço recebeu outra lenda do rock mundial: o Deep Purple.

Parecia, então, que o Espírito Santo finalmente havia ingressado na rota das grandes turnês internacionais. A expectativa era de que apresentações desse porte passassem a ocorrer com frequência cada vez maior. No entanto, a realidade mostrou-se diferente. Após o show do Deep Purple, em 2006, instalou-se um longo período de espera, pois somente em 2014, oito anos depois, o estado voltou a sediar um espetáculo internacional de grande magnitude.

Coube a Paul McCartney protagonizar esse retorno histórico, reunindo milhares de pessoas no Estádio Kleber Andrade em uma apresentação que passeou por diferentes fases de sua trajetória artística, incluindo clássicos dos Beatles, dos Wings e de sua carreira solo.

No entanto, mais uma vez, o entusiasmo foi seguido por um novo intervalo. Apenas em 2026 os capixabas tiveram a oportunidade de receber outra banda de alcance mundial: o Guns N’ Roses. Contudo, é possível conjeturar que o sucesso do show no Kleber Andrade tenha reforçado a importância do Espírito Santo no circuito nacional e internacional de grandes eventos.

Nesse sentido, surpreendentemente, este ano ainda reserva mais uma atração de peso. No dia 16 de julho, a lendária banda escocesa Nazareth tem apresentação prevista na Praça do Papa. Embora o grupo já não conte com a presença de seu vocalista e cofundador Dan McCafferty, falecido em 2022, o baixista Pete Agnew permanece como guardião da história da banda e único integrante remanescente da formação original. Desse modo, o ano de 2026 entra para a história por oferecer, em um mesmo ano, apresentações de duas bandas lendárias do rock mundial em terras capixabas.

Os velhos e os não tão velhos

A presença no palco de bandas de rock que alcançaram enorme sucesso em décadas passadas continua sendo uma constante, tanto no cenário internacional quanto no nacional. O próprio show do Guns N’ Roses ofereceu dois exemplos emblemáticos dessa permanência. A abertura ficou a cargo dos Raimundos, músicos veteranos que demonstraram vigor e entrosamento diante de um público receptivo, enquanto a atração principal reviveu clássicos que atravessaram gerações sem perder sua capacidade de mobilização.

Fenômeno semelhante pode ser observado em grupos internacionais como AC/DC, Rush e Iron Maiden, assim como em nomes consagrados do rock nacional, dentre eles Titãs e Paralamas do Sucesso. Mesmo após décadas de carreira, essas bandas continuam lotando arenas, estádios e festivais, comprovando que a força de suas canções resiste ao tempo.

É impossível abordar esse tema sem mencionar os Rolling Stones. Contemporâneos dos Beatles, os britânicos ainda contam com a presença dos chamados “Glimmer Twins”, Mick Jagger e Keith Richards. Ver os dois octogenários dividindo o palco com energia e entusiasmo impressionantes constitui, por si só, um dos capítulos mais extraordinários da história do rock.

No cenário capixaba, de forma paradoxal, a relativa escassez de grandes espetáculos internacionais no Espírito Santo acaba tornando cada apresentação ainda mais especial. Assistir a uma lenda do hard rock como o Deep Purple, presenciar um ex-Beatle interpretando canções que marcaram a trajetória da mais famosa banda de rock que já existiu ou participar de uma noite memorável como a do recente show do Guns N’ Roses são experiências que transcendem o simples entretenimento. São momentos que despertam emoções profundas e alimentam um legítimo sentimento de orgulho ao vermos artistas que ajudaram a escrever a história da música se apresentando em nosso estado.

Para nós, amantes do rock, resta agradecer àqueles que, com empenho e dedicação, tornam possíveis esses encontros memoráveis entre o público capixaba e os gigantes que revolucionaram a indústria musical. E permanecemos na expectativa de que novas atrações continuem chegando ao nosso estado, especialmente as bandas da velha guarda que ainda se encontram em atividade.

Ao mesmo tempo, embora a minha preferência recaia sobre o rock clássico, também torço para que artistas e grupos de gerações mais recentes sejam contemplados, incluindo bandas como Coldplay e Green Day, que apesar de já possuírem um considerável tempo de estrada, seguem se apresentando com suas formações originais e mantendo forte conexão com o público.

*O texto é de livre pensamento do colunista*
Giovandre Silvatece – *Reside em Vitória-ES *Roteirista (Imagem: Divulgação)
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