Coluna Polítikus
Por: Samuel J. Messias – Me. em Educação
As eleições presidenciais brasileiras de 2026 ocorrem em um cenário de intensa transformação geopolítica global, onde China, Estados Unidos e Rússia disputam influência sobre o resultado das urnas. Além das interferências externas, o Brasil enfrenta um dilema ideológico profundo: qual modelo de desenvolvimento deve guiar o país?
Aqui, na Coluna Polítikus, analiso as estratégias de interferência das potências globais, examino as tensões filosóficas entre perspectivas conservadoras e progressistas, e discuto as consequências devastadoras para a população brasileira, destacando a necessidade de um desenvolvimento autônomo que combine eficiência econômica com justiça social.
A encruzilhada geopolítica e ideológica
O Brasil encontra-se em 2026 no centro de uma disputa de poder global e, simultaneamente, em uma encruzilhada profundamente ideológica. As eleições presidenciais deixaram de ser um evento doméstico para se tornarem um dos principais tabuleiros da geopolítica internacional. A alternância ou continuidade do poder em Brasília possui implicações diretas na governança ambiental global, na segurança alimentar e energética mundial e no equilíbrio de forças entre o bloco ocidental e o Sul Global.
A soberania nacional é testada pela atuação de três gigantes globais: os Estados Unidos, a China e a Rússia. Cada uma adota estratégias distintas para influenciar os rumos políticos do país, utilizando desde coerção tarifária e endosso político direto até campanhas cibernéticas de desinformação. Conforme alerta Marcela Rios Tobar, diretora para América Latina do Instituto Internacional para Democracia e Assistência Eleitoral (International Idea):
“Temos visto tentativas ativas dos Estados Unidos de ter um papel nas eleições na América Latina. Então é possível que tenhamos tentativas tanto dessa potência como de outras dispostas a financiar campanhas e a promover desinformação”.
Contudo, além das interferências externas, o Brasil enfrenta uma questão existencial: qual modelo de desenvolvimento deve guiar o país? Trata-se de uma questão que transcende o debate eleitoral convencional e toca nas raízes filosóficas da organização social, econômica e política.
As tensões ideológicas fundamentais e o tabuleiro geopolítico
Perspectivas conservadora e progressista
A tradição conservadora defende um modelo fundamentado na livre iniciativa, redução da interferência estatal e responsabilidade individual como motor do progresso. O mercado é visto como mecanismo eficiente de alocação de recursos, e a iniciativa privada como principal agente de geração de trabalho e renda. A segurança institucional e a educação técnica são consideradas pré-requisitos para o desenvolvimento econômico. A crítica conservadora ao assistencialismo eleitoreiro é contundente: políticas de transferência de renda sem contrapartida de trabalho ou educação mantêm populações em dependência, minando sua capacidade de autos superação.
A perspectiva progressista, por sua vez, enfatiza a responsabilidade coletiva na construção de uma sociedade igualitária. Reconhece que desigualdades estruturais resultam de processos históricos de exploração e acesso desigual a recursos. O Estado deve atuar como agente redistributivo, garantindo acesso a direitos fundamentais como educação, saúde, moradia e segurança alimentar. A educação de qualidade é um direito humano fundamental, não um privilégio de mercado. Políticas de transferência de renda são vistas como reconhecimento de direitos sociais e ferramentas de estabilização econômica. A crítica progressista observa que mercados deixados a si mesmos concentram riqueza e poder, criando desigualdades que comprometem a igualdade de oportunidades.
A realidade brasileira não se encaixa perfeitamente em nenhum extremo. O dilema fundamental é: como conciliar eficiência econômica com justiça social? Como gerar trabalho e renda sustentáveis sem criar dependência política? Como garantir educação de qualidade que prepare para o mercado sem reduzir a educação a mero treinamento técnico? A resposta não reside em escolher entre liberalismo puro e estatismo, mas em reconhecer que ambas as dimensões — eficiência econômica e justiça social — são necessárias para um desenvolvimento humano integral.
As estratégias de interferência geopolítica
Os Estados Unidos, sob liderança transacional, buscam reafirmar sua hegemonia em um mundo que se multipolariza. A interferência americana não é meramente econômica, mas profundamente ideológica. Washington busca aliados que compartilhem sua visão de um mundo organizado sob liderança ocidental. A imposição de tarifas punitivas de até 50% sobre produtos brasileiros serve como ferramenta de pressão para forçar mudanças políticas. Essa estratégia reflete uma visão de que a economia deve ser subordinada aos objetivos de poder geopolítico — posição que contradiz os próprios princípios do liberalismo econômico que os EUA proclamam defender.
A China adota estratégia radicalmente distinta, pautada no pragmatismo econômico. Sendo o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009 — destino de aproximadamente 38% das exportações nacionais. Pequim não busca impor um modelo ideológico específico, mas garantir estabilidade das relações comerciais e acesso a recursos estratégicos. A abordagem chinesa reflete uma visão de que a economia é fundamento da política internacional e que cooperação econômica mútua é mais sustentável que coerção.
A Rússia atua nas sombras do ecossistema digital brasileiro, utilizando campanhas sofisticadas de desinformação e guerra cibernética. Isolada pelas sanções ocidentais, Moscou não busca um resultado eleitoral específico, mas enfraquecer a coesão interna das democracias e criar ambiente de desconfiança. Utilizando redes de notícias falsas, fazendas de trolls e robôs em redes sociais privadas, agentes ligados ao Kremlin aprofundam fraturas sociais brasileiras e disseminam desconfiança no sistema eleitoral.
Consequências para a população brasileira: o custo da disputa geopolítica
As interferências externas impactam diretamente a vida cotidiana do cidadão comum. A guerra tarifária norte-americana representa a ameaça mais severa ao bem-estar econômico. A imposição de sobretaxas de 50% sobre exportações brasileiras inviabiliza setores industriais inteiros, particularmente siderurgia e manufatura de autopeças. Estudos indicam perdas econômicas de R$ 175 bilhões em uma década, resultando na destruição de mais de 1 milhão de postos de trabalho diretos e indiretos.
Esse desemprego massivo afeta desproporcionalmente trabalhadores de baixa renda, dependentes do setor industrial e agrícola. Cidades inteiras enfrentarão colapso econômico, com consequências devastadoras: aumento da pobreza, redução do consumo, fechamento de pequenos negócios e deterioração dos serviços públicos. A questão que emerge é profundamente filosófica: qual é a responsabilidade do Estado em cenário de desemprego massivo?
A verdadeira solução exigiria um Estado que criasse condições para o setor privado gerar oportunidades de trabalho digno e, quando o mercado falha, oferecesse programas de requalificação profissional, educação técnica e transferência de renda transitória, não como fim em si, mas como meio para reposicionamento no mercado de trabalho.
A instabilidade econômica compromete a capacidade do Estado de investir em educação de qualidade. Contudo, educação é o fundamento sobre o qual repousa tanto o desenvolvimento econômico quanto a democracia substantiva. Uma população educada compreende questões complexas, resiste à manipulação informativa e participa ativamente da vida política. Uma população sem acesso a educação de qualidade é vulnerável à desinformação, exploração econômica e autoritarismo político.
No âmbito político e social, campanhas coordenadas de desinformação aprofundam a polarização ideológica a níveis alarmantes. A população é bombardeada por narrativas falsas que atacam a integridade das urnas eletrônicas e a idoneidade do Tribunal Superior Eleitoral. Essa contaminação informacional reduz a capacidade de debate público racional e mina a confiança nas regras do jogo democrático. Quando a população desconfia do árbitro eleitoral, o risco de convulsões sociais pós-eleitorais e contestação violenta dos resultados aumenta drasticamente, ameaçando a estabilidade democrática que sustenta políticas públicas de proteção social.
Reclamando a soberania
As eleições de 2026 expõem a vulnerabilidade do Brasil diante da nova partilha do poder global. Enquanto os Estados Unidos utilizam força bruta das tarifas para reaver hegemonia na região, a China age para blindar seus ativos comerciais e a Rússia explora divisões internas por meio da guerra de informação.
Para a população brasileira, o custo dessa disputa é medido em desemprego, perda de poder de compra, erosão da confiança institucional e aprofundamento de desigualdades sociais. A interferência externa não apenas ameaça à soberania nacional, mas compromete diretamente bem-estar, segurança e direitos fundamentais dos cidadãos.
A questão existencial que emerge é: qual Brasil queremos construir? Um Brasil que se subordina aos interesses geopolíticos de potências externas, ou um Brasil que reivindica autonomia para definir seu próprio modelo de desenvolvimento?
Um Brasil que escolhe entre liberalismo selvagem e assistencialismo eleitoreiro, ou um Brasil que constrói uma terceira via, um modelo que combine eficiência econômica com justiça social, que gere trabalho e renda dignos, que invista em educação de qualidade como ferramenta de emancipação, que mantenha segurança institucional sem sacrificar liberdades democráticas?
Superar esse cenário exige das instituições nacionais uma postura firme de defesa da integridade do pleito e a busca por uma inserção internacional pragmática, que rejeite alinhamentos automáticos e priorize o desenvolvimento socioeconômico autônomo do país. Somente através da reafirmação da soberania democrática e da autonomia política será possível proteger a população brasileira das consequências devastadoras dessa disputa geopolítica e construir um futuro baseado na dignidade humana, na oportunidade e na justiça social.
*O texto é de livre pensamento do colunista*



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