Entrevista
Por: José Salucci – Jornalista
O Jornal Merkato esteve recentemente na sede da Titans Combat, em Laranjeiras, na Serra, para acompanhar de perto a rotina de treinos de uma promessa da luta capixaba e brasileira: Dauster Martins. Com apenas 20 anos e uma maturidade impressionante, o jovem talento não chama atenção de seus técnicos apenas pela força física, mas por uma trajetória marcada pela coragem.
Mineiro de Teófilo Otoni, criado em Carlos Chagas e Ataléia, municípios vizinhos de sua cidade natal, Dauster tomou a audaciosa decisão de deixar a casa dos pais aos 16 anos para buscar sua independência e sua formação técnica na cidade de Serra. O que era para ser uma jornada de trabalho na indústria, transformou-se em um fenômeno esportivo de alto rendimento.
Em uma conversa descontraída, embalada por risadas sobre seus tempos de “brigão que sempre apanhava”, o lutador declarou sua paixão pelo Flamengo, por estrogonofe e o gosto de ser caseiro. O atleta revelou a faceta de um jovem focado, humilde, família, e, profundamente conectado com a fé. Pra vida, carrega o lema: “Nunca pare de lutar”. Isto revela sua obsessão pela disciplina, tanto que declarou dar crédito a frase: “A obsessão vence o talento”.
Com pensamento fundamentado nessas filosofias, o impacto da sua carreira de atleta só podia mesmo evidenciar uma impressionante estatística: com apenas oito meses de competições ativas, Dauster já ostenta cerca de 30 medalhas e títulos de peso, como três campeonatos mundiais, um Sul-Americano e Pan-Americano, ambos (CBLP), além do recente cinturão no Brasileiro de Grappling, conquistado após vencer atletas mais graduados. Acompanhe toda a entrevista para saber de mais títulos.
Por trás dos números expressivos, há uma rotina espartana de 15 treinos semanais que se funde ao cansaço diário do trabalho de mecânico industrial e os compromissos da faculdade de Educação Física na Multivix.
Filho de Dean Lisboa e Lílian Martins, a parte materna plantou força e coragem no menino, foi ela que o inseriu no mundo do Muay Thai, na tutela do professor Igor, em Ataléia. Antes, Dauster não gostava de frequentar os treinos, era por obrigação, mas aos poucos correspondeu o incentivo de sua mestra.

O resumo da filosofia de Dauster é claro e serve como um cartão de visitas para marcas que queiram apoiar um verdadeiro campeão: ele não conta com a sorte ou com o talento bruto; sua vida é baseada na obsessão pelo trabalho duro, tanto que nos fins de semana ainda se dedica a duas atividades: de segurança e moto Uber.
Com tanta força para vencer na vida e no tatame, a certeza é de que o topo do mundo, especificamente o octógono do UFC, é logo ali. E detalhe, simbologia ou apenas mera coincidência, Dauster Martins nasceu em 2006, ano que Anderson Silva conquistou o cinturão dos pesos-médios do UFC.
Vem pro tatame dessa entrevista, leitor!
1 – Dauster, para começarmos, você nasceu e cresceu no interior de Minas Gerais. Como foi a sua criação em termos de valores familiares que você trouxe na bagagem para o Espírito Santo e para dentro do tatame?
Eu nasci em 2006, sou filho único de comerciante com professora, e tive uma criação em uma cidade muito simples do interior de MG, onde todo mundo se conhece. Dessa infância, eu trago principalmente o valor de saber de onde vim; valorizar a minha raiz. Eu vim do pouco e do simples, e isso me dá a humildade de manter os pés no chão.
Já para o tatame, os principais valores que trago da minha família são: disciplina e honra. Dessas duas, honra a quem está acima de mim, hierarquicamente falando, é o principal para mim.

2 – O que deu na cabeça de um adolescente de apenas 16 anos para deixar o conforto da casa dos pais e desembarcar sozinho na Serra? Como foi lidar com esse choque de realidade?
Surgiu uma oportunidade de trabalho e de ter uma formação: um curso técnico em mecânica industrial, aqui, na Serra. Como eu sempre quis sair da casa da minha mãe para ter a minha própria vida, ter o meu dinheiro e a minha condição, eu aceitei. Nunca gostei de deixar uma oportunidade passar. Eu vim para cá sozinho, morar no bairro de Valparaíso, conciliar o ensino médio, os treinos, o trabalho e o curso técnico.
O que mudou de lá para cá é que, hoje, eu me sinto um verdadeiro homem. Sair do interior para morar na Grande Vitória, sem amigos e sem família por perto, me fez amadurecer muito cedo. Para a minha família e conhecidos em Minas, quando eu vim para cá, eles disseram que era uma loucura. Foi um verdadeiro nocaute de realidade, mas foi o que me formou e tem me formado.
3 – Ao chegar aqui, você encontrou a equipe Titans e o Mestre Ricardo Nery. De que forma a arte marcial e o ambiente da academia ajudaram a preencher o vazio e a saudade de casa?
Eu vim direto para a academia Titans, estava procurando uma academia justamente para treinar e ter contato com a arte marcial, algo que peguei gosto no interior de minha cidade, mas que não tinha oportunidade de crescer. Foi aí que tive o meu primeiro contato real com o MMA através do professor Ricardo Nery, que se tornou uma das minhas grandes referências.
Eu comecei no MMA porque queria algo bem explosivo e intenso para me desgastar fisicamente e preencher o vazio e a saudade que sentia da minha família.
De imediato, o mestre começou a trabalhar no meu caráter o respeito e a disciplina. A Titans virou a minha segunda família, porque eles me abraçaram quando eu mais precisava. Virou o meu segundo berço.

4 – Você comentou rindo que na infância era “brigão, mas sempre apanhava”. Como a filosofia da luta mudou o seu temperamento no dia a dia?
É verdade, eu sempre apanhava! (Risos). Mas hoje, graças a Deus e a arte marcial, eu tenho um temperamento muito mais pacífico. A luta me ensina, principalmente, a fugir de problemas, de confusões e de querer provar algo para os outros. Você não precisa provar nada para ninguém, isso é o principal.
Indiretamente, o esporte te ajuda a ser calmo, a evitar o conflito. Hoje, eu sei que posso intervir em uma situação de conflito, mas de forma pacífica, apenas para separar, sem violência.
5 – Atualmente, você enfrenta rotinas intensas: trabalha com serviços pesados na indústria, trabalho pós-expediente, fins de semana e ainda cumpri cerca de 15 treinos por semana. Como o seu corpo e a sua mente lidam com o cansaço de toda essa jornada de trabalho e a exigência do esporte de alto rendimento?
O cansaço, para ser bem sincero, vem todos os dias. O trabalho na área industrial é muito puxado, braçal e operacional, lidando com máquinas e peças pesadas de aço. Mas, mesmo chegando ao final do dia exausto, eu sinto que preciso vir para a academia.
O treino funciona como uma recuperação mental para mim. Lá na indústria, o que mais me desgasta é a mente, porque trabalhamos com peças milimétricas, coisas de centésimos de milímetro… exige atenção total… se você errar uma medida após oito horas de foco, você perde a peça e toma uma chamada de atenção do supervisor.
Então, eu preciso da atividade explosiva da luta depois do expediente justamente para dar uma revigorada na mente.

6 – Vamos falar das lutas. Você começou a competir há apenas 8 meses e já acumula impressionantes 30 medalhas, incluindo títulos mundiais e sul-americanos, além de um cinturão brasileiro de Grappling enfrentando atletas mais graduados. Qual é o segredo para uma evolução tão avassaladora?
Eu gosto muito daquela frase: “A obsessão vence o talento”. Eu acho que não sou um cara 100% talentoso por natureza, mas eu sou extremamente esforçado.
Se fôssemos comparar com o futebol, eu sou mais Cristiano Ronaldo e menos Messi. Às vezes eu tenho um pouco de dificuldade para aprender alguma técnica de primeira, mas eu vou persistindo, batalhando ali até conseguir aprender.
Eu aplico, aplico e aplico até de fato memorizar e estar pronto para executar perfeitamente. É pura dedicação e repetição. Ninguém se torna um atleta de ponta apenas batendo; este é um esporte de contato e a gente toma muita porrada para evoluir.

7 – Além dos treinos e do trabalho, você acaba de ingressar na faculdade de Educação Física, na Multivix, através de uma bolsa conquistada pelo Wrestling (Luta Olímpica). Como você enxerga essa aliança entre o livro e o esporte para o seu futuro?
Essa oportunidade na Multivix é uma nova conquista e a realização de um grande sonho, que surgiu graças ao Wrestling e à ponte feita pelo Clube Capixaba e pelo professor Oliveira.
No futuro, eu me vejo sendo atleta profissional, mas dividindo o meu tempo com a função de professor, porque eu realmente gosto de ensinar. Além disso, tenho o sonho de criar projetos sociais, principalmente na cidade onde fui criado. Quero levar o esporte e abrir uma academia lá, porque os jovens daquela região não têm oportunidades, nem acesso às artes marciais. Acho que a minha terra precisa disso.
8 – O seu professor Oliveira te define como uma das maiores promessas do MMA do estado do ES. Onde o Dauster Martins quer estar daqui a 3 ou 5 anos? O UFC está nos planos?
Eu me sinto pronto para esse peso. Encaro como uma responsabilidade grande; muitos acreditam em mim e eu acredito ainda mais. Com o foco e a disciplina que tenho, eu me vejo no topo do cenário mundial, tanto no Jiu-Jitsu quanto no MMA.
Já me vejo no UFC, sim, e conquistando títulos importantes como o Brasileiro da CBJJ, que vou lutar agora no dia 27 de junho, no Rio de Janeiro.
Eu sei que estou no caminho certo, fazendo a minha parte com 15 treinos por semana. O principal que falta agora para concretizar e acelerar esse processo de me tornar uma realidade internacional é o incentivo financeiro. O patrocínio é o que faz falta no momento, pois o atleta, no Brasil, precisa de suporte para submeter o corpo a esse nível de entrega. Quem apostar na minha carreira, agora, com certeza, colherá os frutos comigo no topo do mundo. Meu lema de vida é claro: “Nunca pare de lutar”.

Principais conquistas de Dauster Martins
🥇Campeão Estadual de Wrestling Greco Romana
🥈Vice campeão de Wrestling Estilo Livre
🥇Campeão Copa Pepê
🥇Campeão Internacional XCombat CBLP
🥇Campeão Mundial CBLP NO -Gi – Categoria
🥇Campeão Mundial CBLP Gi
🥈Vice campeão Mundial CBLP GI (absoluto)
🥇Campeão Sul Americano CBLP (categoria e absoluto)
🥇Campeão Pan Americano CBLP (categoria e absoluto)
🥇Campeão Brasileiro de Grappling
🥈Vice campeão Estadual Fejjes
🥉Copa Pódio (absoluto e categoria)


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