Eleições 2026: estratégias para conquistar confiança e transformar votos em um projeto de desenvolvimento regional

(Imagem: IA)
Coluna Polítikus
Por: Samuel Messias – Consultor Empresarial
contato@gnosisconsultoria.com.br

As Eleições 2026 ocorrerão em um ambiente de elevada exigência social. O eleitor não deseja apenas slogans, presença digital ou promessas genéricas: espera capacidade de escuta, respeito, previsibilidade e soluções que melhorem a vida cotidiana.

De acordo com o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o primeiro turno está previsto para 4 de outubro de 2026; a propaganda eleitoral e os comícios foram autorizados em 16 de agosto, enquanto o registro das candidaturas teve prazo até o dia 15 do mesmo mês. A data é relevante, mas não deve ser confundida com o início da construção de uma candidatura. A confiança é acumulada muito antes do período legal de propaganda.

A melhor estratégia para um candidato ser eleito, portanto, não é descobrir uma fórmula de persuasão instantânea, mas apresentar um projeto público coerente, viável, territorializado e verificável. A campanha precisa responder a três perguntas: quais problemas serão enfrentados, como serão financiadas as soluções e quais indicadores permitirão à sociedade acompanhar os resultados. Em uma democracia madura, o voto não deve ser tratado como mercadoria, nem o eleitor como alvo de manipulação. Deve ser compreendido como uma escolha baseada em reconhecimento, diálogo e esperança realista.

Essa visão dialoga com Aristóteles, para quem a política se relaciona à vida comum e à busca do bem coletivo, e com Hannah Arendt, que compreendeu a esfera pública como espaço de ação e palavra entre cidadãos. Também se aproxima de Paulo Freire: quem pretende representar a sociedade precisa substituir a lógica de “falar para” pela disposição de “construir com”. O candidato contemporâneo deve ser menos um emissor de respostas prontas e mais um articulador de capacidades sociais.

Uma nova abordagem ao eleitor: da propaganda à escuta pública

A comunicação eleitoral precisa superar a divisão entre televisão, redes sociais e eventos presenciais. O eleitor vive em múltiplos territórios: o bairro, o trabalho, a escola dos filhos, a comunidade religiosa, a associação, o grupo de mensagens e as plataformas digitais. A nova abordagem consiste em integrar esses espaços sem transformar a população em mera audiência. Isso exige escuta ativa, linguagem acessível, prestação de contas e devolutiva: o cidadão apresenta uma demanda, a equipe sistematiza o problema, o candidato explica as alternativas e, depois, retorna para informar o que pode ou não ser feito.

Uma campanha de confiança deve criar círculos territoriais de diálogo, com reuniões presenciais e canais digitais acessíveis, garantindo participação de mulheres, jovens, pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência, trabalhadores informais, empreendedores, agricultores, comunidades tradicionais e moradores de periferias. A tecnologia pode organizar contribuições e visualizar prioridades, mas não substitui a presença humana. O uso de dados deve respeitar a privacidade, a legislação eleitoral e a autonomia do eleitor; não se deve recorrer a desinformação, disparos abusivos, deepfakes ou segmentação destinada a explorar medo e vulnerabilidade.

O método de gestão conhecido como ciclo PDCA — planejar, executar, verificar e agir corretivamente — pode ser adaptado à campanha e ao mandato. Primeiro, realiza-se um diagnóstico público; depois, definem-se compromissos; em seguida, estabelecem-se metas e orçamento; por fim, divulgam-se resultados e correções. A abordagem do balanced scorecard, por sua vez, ajuda a conectar visão estratégica, processos, aprendizagem institucional e resultados para a população. O eleitor tende a confiar mais quando percebe que o candidato sabe diferenciar desejo, competência administrativa e responsabilidade fiscal.

As demandas transversais do eleitor

As demandas do eleitor são transversais porque não cabem em uma única secretaria ou área de governo. Segurança pública, por exemplo, relaciona-se à prevenção da violência, à iluminação urbana, à educação, à saúde mental, à geração de renda, à justiça e à urbanização. Da mesma forma, a pobreza não se resolve apenas com transferência de renda: requer educação, qualificação, crédito, conectividade, mobilidade, creches, saúde e oportunidades econômicas.

O candidato deve organizar seu programa em torno de uma matriz de problemas e resultados, evitando a fragmentação de promessas. Em primeiro lugar, o eixo “cuidar das pessoas” deve traduzir-se em atenção básica à saúde, saúde mental, proteção social, políticas para a primeira infância e acessibilidade. O cidadão precisa estar no centro das decisões, com atenção especial a quem enfrenta barreiras de renda, raça, gênero, idade, deficiência ou localização.

Em segundo lugar, educação e cultura devem ser tratadas como políticas de aprendizagem, pertencimento e desenvolvimento humano. Isso envolve alfabetização, permanência escolar, formação profissional, bibliotecas, esporte, valorização da produção cultural e acesso às artes. Em terceiro lugar, a sustentabilidade deve orientar o crescimento econômico, com segurança hídrica, saneamento, mobilidade limpa, prevenção de riscos climáticos, recuperação ambiental e economia circular.

Em quarto lugar, ciência, tecnologia e inovação precisam transformar conhecimento em serviços melhores, produtividade e renda. Isso inclui governo digital inclusivo, conectividade, pesquisa aplicada, laboratórios, formação tecnológica e apoio a startups e negócios de impacto. Em quinto lugar, trabalho e prosperidade devem ser promovidos por meio de qualificação, compras públicas, crédito, apoio aos pequenos negócios e fortalecimento das cadeias produtivas locais. Por fim, democracia e integridade exigem transparência, metas, dados abertos, participação social e avaliação independente.

“Cuidar das pessoas” deve ser o princípio integrador. A prosperidade não pode ser medida apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto; deve incluir segurança, tempo de deslocamento, qualidade ambiental, aprendizagem, saúde e possibilidade de construir um futuro no próprio território.

Desenvolvimento regional: governar a diversidade do território

Uma candidatura competitiva precisa abandonar a ideia de que uma política uniforme serve igualmente para todas as regiões. Municípios e microrregiões têm vocações, déficits e oportunidades distintas. O desenvolvimento regional deve combinar planejamento territorial, infraestrutura, conectividade, logística, educação profissional, serviços de saúde e fortalecimento das economias locais. A referência não deve ser somente a capital ou os grandes centros, mas também os pequenos municípios, as áreas rurais e os territórios historicamente menos atendidos.

A experiência do Espírito Santo oferece um caso de estudo relevante. O projeto Desenvolvimento Regional Sustentável do Espírito Santo (DRS-ES), segundo o Instituto Jones dos Santos Neves, estrutura-se em Conselhos de Desenvolvimento Regional Sustentável e em planos de desenvolvimento, buscando articular ações para a prosperidade das microrregiões. A lição estratégica não é copiar programas de maneira automática, mas compreender que o planejamento regional precisa ser pactuado com os territórios e apoiado por informação, governança e continuidade.

A gestão capixaba também foi destacada em publicação oficial de maio de 2026, que atribui ao Espírito Santo a liderança na dimensão Gestão Pública do Ranking de Competitividade dos Estados — Eleições 2026, do Centro de Liderança Pública, e o maior avanço na dimensão Economia entre 2023 e 2025. A publicação relaciona os resultados a eficiência administrativa, solidez fiscal, capital humano, infraestrutura, inovação e potencial de mercado. Como toda avaliação institucional, o ranking deve ser lido criticamente e cotejado com indicadores sociais, mas oferece uma hipótese importante: equilíbrio fiscal e capacidade de investimento podem funcionar como meios para políticas públicas, e não como fins isolados.

No projeto eleitoral, essa pauta pode ser convertida em uma agenda de pactos regionais. Cada região deve possuir um diagnóstico, uma carteira de projetos prioritários, fontes de financiamento, cronograma e indicadores. A infraestrutura — estradas, saneamento, energia, internet e equipamentos públicos — precisa estar ligada a uma estratégia de educação, inovação e geração de trabalho. Uma obra sem manutenção, conexão produtiva ou impacto social mensurável não constitui desenvolvimento sustentável.

ADERES e a inclusão socioeconômica pela pequena economia

O caso da Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (ADERES) é particularmente útil porque demonstra como a inclusão pode ser organizada por meio de instituições permanentes. Conforme o Governo do Espírito Santo, a agência foi constituída originalmente como empresa pública em 1996, transformada em autarquia em 2007 e, a partir de 2012, passou a atuar com a missão de estimular o desenvolvimento estadual a partir dos pequenos negócios, incluindo micro e pequenas empresas, microempreendedores individuais, associativismo, cooperativismo, economia solidária e agroindústria familiar.

A principal lição para um candidato é que geração de trabalho e renda exige mais do que anunciar crédito. É necessário combinar orientação, simplificação, qualificação, acesso a mercados, compras públicas, inovação, formalização responsável e acompanhamento. Uma política inspirada nesse modelo poderia criar redes locais de atendimento ao empreendedor, conectar escolas técnicas a demandas produtivas, apoiar cooperativas e incentivar que o poder público compre de pequenos fornecedores, sempre com transparência e respeito à legislação.

A ADERES também mostra que empreendedorismo não deve ser apresentado como solução individual para problemas estruturais. O empreendedor precisa de infraestrutura, demanda, crédito adequado, segurança jurídica, internet, capacitação e proteção social. O papel do Estado é construir um ambiente favorável para que a iniciativa econômica se converta em inclusão, produtividade e autonomia. Esse é um ponto de encontro entre prosperidade, tecnologia, cultura, sustentabilidade e cuidado com as pessoas.

Agricultura familiar: produção, cuidado e prosperidade no território

A agricultura familiar deve ocupar posição estratégica no projeto de desenvolvimento socioeconômico porque conecta alimentação, trabalho, cultura, sustentabilidade e permanência das famílias no território. Não se trata apenas de uma política setorial para o campo. Quando o poder público amplia assistência técnica, crédito orientado, conectividade rural, estradas vicinais, armazenamento, irrigação eficiente e acesso a mercados, ele fortalece a renda das famílias, a segurança alimentar e a economia dos municípios.

Uma agenda eleitoral consistente pode articular a agricultura familiar às compras públicas para escolas, hospitais e equipamentos sociais; ao incentivo à agroindustrialização de pequena escala; à certificação e à comercialização direta; ao cooperativismo e ao associativismo; à formação profissional de jovens; e ao turismo rural e à valorização dos saberes culturais. A sustentabilidade deve estar presente na conservação do solo, na proteção das nascentes, no uso responsável da água, na agroecologia, na recuperação de áreas degradadas e na adaptação às mudanças climáticas. A tecnologia, por sua vez, pode apoiar o planejamento da produção, a rastreabilidade, a previsão climática e a venda por canais digitais, sem excluir quem tem menor acesso à internet.

Essa correlação mostra que políticas para micro e pequenas empresas, empreendedorismo e agricultura familiar devem operar de maneira integrada. A pequena agroindústria pode agregar valor à produção; a escola técnica pode oferecer formação em gestão, alimentos e tecnologias; a universidade pode apoiar pesquisa aplicada; e o governo pode criar ambiente regulatório e compras que estimulem a economia local. Assim, cuidar das pessoas, educar, inovar e preservar o ambiente convergem para uma mesma política de prosperidade compartilhada.

IDEEPPS e a articulação entre conhecimento, inovação e inclusão

Nesse campo, merece ser citado o Instituto de Desenvolvimento Econômico, Estudos, Pesquisas e Projetos Sustentáveis (IDEEPPS), organização da sociedade civil sem fins lucrativos que declara atuação em educação, empreendedorismo circular, cultura, economia criativa e solidária, desenvolvimento sustentável, ação climática, ciências tecnológicas, pesquisa e apoio à agricultura familiar. Sua proposta institucional é relevante para uma nova forma de desenvolvimento porque aproxima conhecimento, qualificação profissional, sustentabilidade, geração de trabalho e inclusão socioeconômica.

Conforme a relação pública de parceiros divulgada pelo próprio instituto, o IDEEPPS apresenta articulação com a Universidade Vila Velha (UVV), a Dale Carnegie e o Instituto Sindimicro. Também se registra, conforme indicado nesta proposta, a atuação em parceria com o Instituto Ibramar e a Acau. A menção deve ser compreendida como possibilidade de cooperação entre instituições de ensino, formação, pesquisa, empreendedorismo, representação e desenvolvimento sustentável, sem presumir resultados ou atribuir a cada parceiro um escopo específico que não esteja formalmente documentado.

Para uma candidatura, a lição é objetiva: projetos de desenvolvimento precisam formar redes. O poder público pode articular universidades, institutos, organizações sociais, empresas, cooperativas e comunidades para realizar diagnósticos, desenvolver soluções, capacitar produtores e medir resultados. Uma rede dessa natureza poderia apoiar a agricultura familiar com pesquisa aplicada, gestão, comunicação, liderança, inovação, acesso a mercados e sustentabilidade, mantendo transparência sobre recursos, responsabilidades e metas.

A eleição como contrato de confiança

Para ser eleito em 2026, o candidato deverá demonstrar que compreende a complexidade do país e que possui método para governá-la. A estratégia mais consistente será aquela que unir escuta pública, presença territorial, comunicação digital responsável, diagnóstico baseado em evidências, equilíbrio fiscal e capacidade de execução. O eleitor quer participar não apenas do momento da escolha, mas também da definição das prioridades e do acompanhamento do mandato.

O programa eleitoral deve ser, assim, um contrato de confiança: curto o suficiente para ser compreendido, detalhado o suficiente para ser testado e aberto o suficiente para receber contribuições. Seus compromissos precisam indicar prazo, responsável, fonte de recurso e indicador. O modelo do Espírito Santo, com planejamento, investimento, políticas de desenvolvimento regional e uma agência voltada aos pequenos negócios, oferece elementos para pensar essa arquitetura institucional, sem ignorar que cada território possui desafios próprios.

A candidatura que cuidar das pessoas, promover sustentabilidade, valorizar ciência e tecnologia, apoiar inovação, fortalecer cultura e educação e produzir prosperidade compartilhada terá melhores condições de estabelecer uma relação duradoura com o eleitor. Mais do que vencer uma disputa, seu desafio será mostrar que a política pode voltar a ser percebida como capacidade coletiva de resolver problemas. Em última instância, a melhor estratégia eleitoral é apresentar um futuro desejável e provar, com participação e resultados, que ele pode começar a ser construído no presente.

*O texto é de livre pensamento do colunista*
Samuel J. Messias – Reside em Vitória-ES *Me. em Educação *Gerente Especial na Aderes *MBA em Estratégia Empresarial e *Bacharel em Ciências Contábeis. contato@gnosisconsultoria.com.br (Foto: Divulgação)
Facebook
WhatsApp
Telegram
Telegram
Shopping Basket