Coluna Letrados
Por: Samuel J. Messias – Me. em Educação
Neste artigo proponho uma reflexão sobre a necessidade de construção de novas masculinidades como ferramenta central no combate à violência contra as mulheres. Partindo da premissa de que a masculinidade hegemônica é uma construção social e não um determinismo biológico, argumenta-se que a sensibilização para a igualdade de gênero deve iniciar-se na primeira infância, especificamente na pré-escola. Faço uma abordagem como a integração entre homens e mulheres na promoção de uma cultura de paz, a qual exige o desmantelamento de estereótipos desde os primeiros anos de vida, visando a formação de indivíduos livres de papéis de gênero limitantes e potencialmente violentos.
Introdução
A violência contra as mulheres persiste como um dos problemas estruturais mais graves e enraizados na sociedade contemporânea. No Brasil, estimativas apontam que cerca de meio milhão de mulheres são vítimas de estupro anualmente, sendo que dois terços dessas vítimas são meninas menores de 13 anos. Diante desse cenário alarmante, torna-se imperativo transcender as abordagens punitivas e focar na prevenção primária, que passa necessariamente pela reflexão sobre o papel dos homens e pela construção de novas masculinidades.
Historicamente, o debate sobre a violência de gênero tem sido liderado e focado nas mulheres. No entanto, a desconstrução da masculinidade hegemônica, frequentemente caracterizada por traços de dominação, agressividade e supressão emocional, é um passo fundamental para a erradicação dessa violência. O presente artigo busca discutir a importância de envolver os homens nesse combate, promovendo uma integração efetiva entre os gêneros e enfatizando que a raiz da transformação reside na educação infantil.
A construção social da masculinidade e a violência
A masculinidade, assim como a feminilidade, não é um atributo natural ou inato, mas sim o resultado de um complexo processo de subjetivação e socialização. Desde o nascimento, indivíduos são submetidos a expectativas e normas de comportamento baseadas em seu sexo biológico. A masculinidade tradicional, ou hegemônica, frequentemente exige que os homens demonstrem força, estoicismo e controle, rejeitando qualquer traço associado ao feminino, como a vulnerabilidade e o cuidado.
Nessa construção, a supressão emocional é reforçada constantemente através de frases como “homem não chora” e “seja forte”. A dominação e o controle nas relações são naturalizados como expressões legítimas de poder masculino. A agressividade é apresentada como forma aceitável de resolução de conflitos, e o cuidado, tanto de si mesmo quanto dos outros, é frequentemente rejeitado como sinal de fraqueza. Essa estrutura não apenas oprime as mulheres, mas também se revela predatória para os próprios homens.
A pressão para corresponder a um ideal inatingível de virilidade gera sofrimento psíquico e está intrinsecamente ligada a comportamentos de risco e índices elevados de violência. Nesse sentido, a violência contra a mulher não é um desvio de caráter isolado, mas frequentemente a expressão extrema de uma masculinidade que encontra na dominação o seu meio de afirmação. Portanto, combater a violência de gênero exige que os homens sejam convidados a refletir sobre seus privilégios e a romper com o pacto da masculinidade tóxica, compreendendo que um mundo seguro para as mulheres é, inevitavelmente, um mundo melhor para todos.
A integração entre homens e mulheres na promoção da igualdade
O enfrentamento da violência não pode ser uma tarefa exclusiva das mulheres. A construção de novas masculinidades demanda uma integração profunda entre os gêneros, baseada na corresponsabilidade. Homens precisam assumir seu papel como agentes de mudança, não como “protetores” o que apenas reforçaria a dinâmica paternalista, mas como parceiros na desconstrução do machismo estrutural.
Iniciativas como grupos reflexivos para homens autores de violência têm se mostrado espaços importantes para tencionar e repensar esses processos de subjetivação. No entanto, a verdadeira integração ocorre no cotidiano: na divisão equitativa das tarefas domésticas, no exercício da paternidade ativa e presente, e no posicionamento firme contra atitudes e discursos misóginos em espaços de socialização masculina. A aliança entre homens e mulheres deve basear-se no reconhecimento mútuo de que o patriarcado é um sistema limitante para ambos, embora seus efeitos letais recaiam desproporcionalmente sobre as mulheres.
Quando homens e mulheres trabalham juntos nessa desconstrução, reconhecem que a masculinidade predatória não beneficia ninguém. Um mundo bom para as meninas é, necessariamente, um mundo bom para todo mundo. Essa mudança de perspectiva é fundamental para que os homens deixem de ser apenas espectadores passivos ou, pior, perpetuadores da violência, e se tornem verdadeiros agentes de transformação social.
A sensibilização desde a pré-escola: prevenção primária
Se a masculinidade é uma construção social, o espaço escolar emerge como um dos principais palcos onde essa construção ocorre ou onde pode ser desmantelada. A educação infantil, especificamente a pré-escola, é o período crítico em que as crianças começam a internalizar os papéis de gênero. É nessa fase que se cristalizam os estereótipos: a divisão entre “brinquedos de menino” (carrinhos, ferramentas) e “brinquedos de menina” (bonecas, panelinhas), ou o uso disciplinar de frases como “senta direito, isso não é jeito de menina” e “engole o choro, seja homem”.
Essas situações, facilmente encontradas no cotidiano e naturalizadas por grande parte das pessoas, são carregadas de estereótipos que reforçam o que é ser mulher e o que é ser homem em nossa sociedade e acabam por desrespeitar a individualidade e as preferências de cada criança. Para que haja uma mudança efetiva, a temática de gênero deve ser abordada na primeira infância de forma transversal e lúdica. Isso não significa impor identidades, mas sim garantir que todas as crianças tenham a liberdade de explorar suas potencialidades sem as amarras dos estereótipos de gênero.
O currículo escolar, como apontam especialistas, reitera a história dos homens como autores e personagens principais. A história é contada como se eles fossem os heróis, invisibilizando e descreditando as contribuições das mulheres. Portanto, é necessário que a educação infantil trabalhe na desconstrução dessas narrativas desde o início.
Algumas estratégias pedagógicas mostram-se eficazes na promoção da igualdade na pré-escola. A desagregação de espaços e atividades é fundamental: evitar filas separadas por sexo e encorajar brincadeiras conjuntas permite que as crianças se relacionem além das limitações de gênero. A diversificação de narrativas, através de literatura infantil que apresente meninas corajosas e meninos afetuosos, foge dos arquétipos tradicionais de princesas indefesas e heróis invulneráveis. A formação continuada de educadores é igualmente essencial, pois professores precisam passar por um processo de desconstrução de seus próprios preconceitos machistas para não os reproduzir em sala de aula. Por fim, o envolvimento das famílias é crucial para que a educação para a igualdade não se restrinja aos muros da escola, mas seja reforçada no seio familiar.
Considerações finais
A construção de novas masculinidades é um desafio complexo, porém inadiável, para a erradicação da violência contra as mulheres. Exige uma mudança de paradigma que desloca os homens da posição de algozes ou espectadores passivos para a de protagonistas na desconstrução do patriarcado. Essa transformação, para ser sustentável, deve iniciar-se na base da sociedade: a educação infantil.
Ao promovermos o desenvolvimento integral, a sensibilização desde a pré-escola, garantimos que meninos e meninas cresçam compreendendo que suas capacidades e afetos não são determinados por seu gênero. Uma educação pautada na igualdade e no respeito mútuo é o caminho mais seguro para formar adultos capazes de estabelecer relações horizontais, saudáveis e livres de violência. Somente através dessa integração e reeducação coletiva poderemos vislumbrar uma sociedade verdadeiramente justa e pacífica.
*O texto é de livre pensamento do colunista*



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