Coluna Polítikus
Por: José Salucci – Jornalista
A eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Vitória, marcada para este mês de novembro, virou uma verdadeira novela política. Nos bastidores, a disputa envolve articulações ruidosas, compromissos individuais e a presença marcante de aliados de Ricardo Ferraço e adversários de Lorenzo Pazolini. A grande questão que ecoa na Casa Legislativa é direta: quem realmente quer garantir a governabilidade da capital e quem tenta transformar a presidência do Legislativo em um balcão de negócios e poder?
O que deveria ser um diálogo transparente entre os vereadores tomou a forma de um duro embate. No epicentro dessa guerra silenciosa estão o grupo político do governador eleito Lorenzo Pazolini, a futura gestão da prefeita Cris Samorini e setores que, até poucos dias, faziam de tudo para derrotar Pazolini nas urnas. O debate ultrapassa a escolha de um nome: trata-se de coerência, confiança e da preservação do projeto aprovado pela população.
O G-15 e a disputa pelo controle político da Câmara
Originalmente chamado de G-15 — atualmente reduzido a 14 parlamentares por conta de cassação de Baiano do Salão (Podemos), por unanimidade pela Câmara Municipal de Vitória em 20 de outubro de 2026 —, o bloco tornou-se peça-chave no tabuleiro. Sua força reside na capacidade de unir vereadores em torno de uma atuação coletiva, mantendo a autonomia da Casa sem fechar as portas para a Prefeitura.
Contudo, essa aliança sólida parece incomodar quem prefere loteamentos individuais. Uma Câmara organizada e alinhada constrói pontes e prioriza a cidade; por outro lado, uma presidência hostil ou camuflada pode trancar a pauta e sangrar a gestão de Cris Samorini. A investida contra o bloco levanta o alerta: há um plano em curso para desarmar a base de sustentação da prefeita?
Camilo Neves, Dalton Neves e a sombra da oposição derrotada
Dois personagens expõem as vísceras dessa articulação. Camilo Neves, ex-candidato a vice na chapa derrotada de Ricardo Ferraço, atua fortemente no processo. O movimento acende o sinal vermelho: por que articuladores de um grupo vencido nas urnas estariam tão empenhados em ditar as cartas na capital? Na mesma trinca surge Dalton Neves (candidato à presidência da Câmara) cuja atuação na campanha estadual foi abertamente contrária ao projeto de Pazolini. O histórico ganha contornos dramáticos ao relembrarmos o episódio da gravação vazada sobre a própria eleição da Câmara — um desgaste cirurgicamente explorado durante o pleito.
Diante desse cenário, é salutar propor análises interrogativas. Não se trata de perseguição pessoal, mas de soberania política: qual é a segurança de entregar a chave do Legislativo a quem, até ontem, tentava demolir esse mesmo grupo político?
A oposição pode conquistar espaço pela porta dos fundos?
A trama ganha ainda mais dramaticidade ao abrir brechas para a oposição — como a vereadora Karla Coser (PT) — ocupar posições estratégicas na Mesa Diretora. Embora a presença da oposição seja legítima no ambiente democrático, o movimento soa como um contrassenso fatal para uma base que se diz aliada de Pazolini e Cris Samorini.
É politicamente aceitável que vereadores eleitos no palanque do governo entreguem o comando da Casa aos seus próprios adversários em troca de favores pontuais? Justificativas amparadas em “amizades” ou “palavra dada” não sustentam uma decisão dessa gravidade. A política cobra preço alto por ingenuidade.
A eleição da presidência da Câmara não pode ser refém de revanchismos, vaidades ou acordos de bastidor que ignoram o recado soberano das urnas. Em política, dar a palavra não basta: é preciso encarar a quem essa palavra serve, quais interesses ela alimenta e o preço que a cidade pagará por ela.
*O texto é de livre pensamento do colunista*



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